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"E se..."

Atualizado: Abr 20

Por Viviani Barbosa




Quando a Amanda me pediu para escrever sobre a experiência do aborto que eu sofri, topei na hora. Como seria bom colocar em palavras uma situação que aconteceu comigo. Quem sabe ajudar mulheres que passaram pela mesma situação. Ou talvez alertar sobre as consequências do aborto.


Sentei-me na frente do computador, abri o Word, respirei fundo e cadê as palavras? Não vinham. Um bloqueio estranho tomou conta das minhas lembranças. Depois desta tentativa frustrada, arrisquei mais algumas vezes e nada.


O trauma e a dor que eu sofri com o aborto são tão grandes, que não consigo nem tocar no assunto em voz alta. Não consigo externar todo o vazio, o sentimento de culpa, a tristeza que eu carrego. Um frio estranho se apossa do meu espírito e sinto um incômodo nos ouvidos quando escuto a palavra aborto.


Algumas vezes me pego pensando que, em vez de uma filha, poderia ter tido duas. Ou seria um menino? E como seria maravilhoso ter dois filhos. Todas as experiências inesquecíveis que passei com uma filha, dobrariam. Risadas, choros, birras, brincadeiras, castigos, dever de casa, trabalhos escolares, aniversários, passeios, tudo multiplicado por dois. E, por isso, uma ladainha de “e se eu não tivesse perdido” fica martelando minha cabeça.

Penso com pesar nas mães que fizeram aborto por vontade própria. Se para mim, que sofri um aborto espontâneo, é difícil, imagino como deve ser triste conviver com todos esses sentimentos que eu tenho e somar a isso ao sentimento de que você matou seu próprio filho.


Na minha vida, o aborto foi devastador. Qual a consequência, psicologicamente falando, que esse ato vai ter na vida dessa mãe que aborta conscientemente?

Sim, mãe. Infelizmente é uma mãe. Uma mãe que assassinou seu filho no lugar que era para ele estar mais seguro. Uma mãe que sequer se deu a chance de ver a carinha do seu bebê. Uma mãe que transformou seu útero em um túmulo. Uma mãe que vai se cobrar com uma ladainha diária de “e se eu não tivesse abortado” muito maior e mais dura que a minha.


O peso de um aborto é imensurável. As feridas não fecham. Você leva para o resto da vida. Cada vez que você vê uma criança, vai se lembrar daquela que perdeu e a ladainha não vai cessar. Nunca. Todo dia. Uma lembrança do que você não viveu. Ou pior: que algumas mulheres escolheram não viver.



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* Este é o segundo artigo da série de textos sobre aborto. Leia o primeiro aqui.


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