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  • Toon Felícia

Gula


Por: BCWB


Me encanta ver a gula das pessoas, um pecado capital que é cometido a cada segundo.

Eu apenas ofereci o que eles queriam, comida de qualidade, artesanal e com ingredientes secretos que quando combinados causam aquela sensação inesquecível de quem come algo e se recorda para sempre do momento e do gosto.

Eles diziam ser pessoas especiais e queriam pratos únicos, exclusivos para fazerem inveja aos seus dissabores e causar admiração em quem não conhecem nas suas redes sociais.

Então veio o primeiro prato, um grande e suculento filé mal passado acompanhado de arroz branco, batata sotê e molho barbecue, o molho foi exigência do cliente.


Eu mesma entreguei o prato me afastando um pouco, porém perto o bastante para ver o homem alto, barbudo com sobrepeso se lambuzando com o filé que eu havia preparado.


Uma peça escolhida a dedo, retirada da coxa, tomei os cuidados necessários para que a parte muscular não interferisse na maciez da carne, afinal é uma região muscular muito vasta.


Você já viu o vermelho vivo de uma peça fresca, recém abatida?

Devo dizer que é algo a ser admirado.


Enfim, voltando ao porco, digo cliente...


Ele arrancava pedaços como se fosse uma animal. (risos)

Gesticulava e falava de boca cheia com sua acompanhante que esperava ansiosa por sua macarronada ao sugo acompanhado de almondegas que por sinal o garçom estava levando, aproveitei para ver a reação dela ao saborear seu pedido.


A carne escolhida para o preparo das almondegas e o molho sugo foi um blend de partes com um pouco mais de gordura que tivesse a suculência perfeita.


Usei, então, meio kg de traseira,250g peitoral e uma carne um pouco mais dura um musculo que saltava os olhos enquanto estava separando as peças.


A mistura perfeita para saciar a fome daquela senhora que parecia faminta.

Meus pratos são feitos de acordo com as pessoas que me procuram, sempre fazem as reservas com antecipação e eu gosto de conhecê-los mais a fundo antes de servi-los.


Devo admitir que quanto mais conheço meus clientes mais amo meu trabalho.


Não é só sobre cozinhar, é poder oferecer a experiência de algo novo...incomum eu diria.


Há quem goste de miúdos, no entanto não costumo preparar com frequência, meus convidados geralmente gostam de meus filés e costela esses são como dizem por aí o carro chefe do restaurante, minhas especialidades.


Certa vez servi um grupo de pessoas que pediram algo um tanto quanto inusitado, durante a hungry interview (adoro chamar assim minha conversa com os clientes) me pediram para fazer um prato exclusivo, comidas típicas do Nordeste como a Panelada,


Paçoca de carne e a Carne de sol.


Confesso que esses pratos foram desafiadores, tantos anos cozinhando e ninguém havia me pedido um prato que é feito com o bucho, tripas e outras partes das peças que tenho em minha fazenda.


A apresentação dos pratos. Ahhhh! Essa é um espetáculo à parte. Para quem vai ao meu restaurante, garanto que é uma experiencia inesquecível.


A farofa de carne ficou linda, a carne desfiada misturada com farinha de mandioca e bacon com algumas pitadas de cheiro verde no centro da mesa estava divina.

Para essa refeição tive que pedir uns uma semana de prazo pois não costumava guardar as vísceras de minhas peças com tanta frequência e queria algo fresco, novo e para isso precisei desse tempo.


E quem diria não para uma chef tão famoso quanto eu?

Não me entendam mal, não estou sendo convencido. (risos) Sim, estou porque sou única assim como meus pratos e minhas peças, cada uma com um sabor diferente, com tons diferentes e idades diferentes.


Cada uma com sua particularidade e modo de abate correto que preserva o frescor de cada pedaço separado em seguida preparado como se fosse um ritual.

Algumas pessoas me procuravam apenas para fotografar o interior de meu restaurante, tudo nele era único como as poltronas da antessala onde os convidados esperavam, tinham mantas de couro costurados a mão por mim mesma.

Minha primeira coleção de facas ficava em exibição também, uma em especial o Cutelo ficava separado emoldurado com o sangue da minha primeira peça.


Sim, depois te tantos anos o sangue deu uma ressecada, mas um amigo muito especial fez um trabalho esplendido de preservação, garanto que se o tirar da moldura você ainda sente o cheiro metálico do sangue.


Num canto onde era reservado apenas a mim em meus momentos de descanso, coloquei um abajur feito com uma pele tão fina que ao acender, a lâmpada dava a impressão de que você poderia ver as veias finas por onde o sangue um dia correu,


Esses detalhes. Ahhhh! Os detalhes me fascinam. Pena que às vezes passam batidos por pessoas sem bom gosto para a excentricidade.

Já que chegamos no assunto decoração, morro de vontade de ter uma escultura de Carpos na minha recepção.

Ok. Voltemos aos pratos, isso não é sobre esculturas, (risos sarcásticos) quem sabe outro dia, não é?!

Costelas.


Esse é meu prato preferido e o que eu mais gosto de fazer e de servir.

Ah a sensação de servir a costela descolando dos ossos e ver a cara do meu convidado quase tendo um orgasmo e babando com os talheres nas mãos prontas para dilacerar aquela carne tão tenra.


Com o molho que eles tanto amam e que também é feito por mim com um ingrediente que é um pecado de tão gostoso, me dá uma satisfação que de algumas pessoas especiais eu não cobro absolutamente nada.


Somente a satisfação de vê-los degustar cada garfada como se fosse um pedaço do céu, se é que posso dizer isso, (risinhos) já compensa meu trabalho.


Preciso me conter, se não acabo tendo mais convidados do que minha Body Farm consegue suportar.


Alguns me pedem para levar itens como molhos, conservas e embutidos como linguiças artesanais, mas isso é só para clientes muito, mas muito especiais que de verdade me conhecem e apreciam a arte de manusear as peças para que virem minhas master Piece.


Talvez você tenha achado estranho eu mencionar o termo Body Farm, mas calma a minha não é como aquelas nojentas a céu aberto em que as peças ficam em decomposição, aliás esse é um termo muito bonito para o fim que é utilizado.


Prefiro o meu em que faço o abate, desmembro, desosso, separo cada peça e as armazeno de acordo com as normas exigidas pela vigilância sanitária.

Tá... De vez em quando um ou outro corpo acaba ficando de um dia para o outro pendurado para a sangria, mas a culpa não é minha, alguns tem mais peso, são mais altos ou mais baixos e tem a questão do abate... A demora (um suspiro tipo de cansaço).


Enfim acho que você já entendeu do que estamos falando, pra alguns um tanto quanto indigesto e pra outros a melhor refeição do universo.

Você deve estar se perguntando se todos meus convidados sabem o que cultivo em minha Body farm.

Te adianto que alguns sabem e fornecem matéria prima, outros suspeitam, uns fingem não saber mas não conseguem sair do ciclo e uma minoria não imagina do que se trata, mas nós sabemos e sejamos sinceros quem em sã consciência resistiria a uma costela descolando dos ossos preparada por mãos delicadas e um rostinho angelical?


Prometo não contar á ninguém que em algum momento você ficou faminto.