• Gabriel Paculdino

A agenda "integrativa" do Governo Bolsonaro

A nova tendência da grande mídia, ao se referir ao Presidente Bolsonaro, é a de dividi-lo entre uma figura autoritária - quando ele age como sempre agiu, em sua versão Câmara dos Deputados - e uma figura aberta ao "diálogo", aos conchavos políticos e aos famigerados acordões.



Por mais que, neste discurso, haja muita teoria da conspiração embutida, faz-se necessário separar o joio do trigo, entre o que é narrativa e o que realmente possui alicerce na realidade.


É inegável que o Governo Federal passou por uma desidratação - para usar os termos políticos vigentes - nas pautas conservadoras e passou a adotar uma postura mais moderada e tecnocrática a fim de atrair "governabilidade" ao seu governo.


Com uma assombrosa facilidade, o discurso do "acabou, porra" se tornou "tá bom, porra".

Não queremos, de maneira alguma, suscitar no leitor um sentimento de revolta, de debandada. O objetivo desta autocrítica é, justamente, retornar à essência do plano de governo eleito por mais de 60mi brasileiros em 2018 e conseguir guiar ao menos a militância pelos caminhos retos, já que o Planalto tem se valido, através deste diálogo, de tornar a estrada cada vez mais sinuosa.


Ocorre que, desde que passou a dar cada vez mais ouvidos aos membros do chamado "comando maluco", a presidência da república conseguiu, não se pode olvidar, uma trégua da oposição mais reativa ao governo. Entretanto, tal trégua foi pavimentada com o asfalto da pauta conservadora, perdida pelo caminho, restando ao apoiador do Presidente elogiar apenas o bom desempenho do ministro Tarcísio, na infraestrutura.


A pecha de populista, tão presente na época da eleição de 2o18 e do fenômeno Bolsonaro, retornou, desta vez com certa razão. A militância apaixonada, que defende as atitudes, indicações, soluções, dentre outras medidas, apenas por defender, sem qualquer senso crítico, é prova irrefutável disso.


Esta militância, insta destacar, é composta por alguns milhares de perfis no Twitter, onde o governo tem encontrado seu briefing, que, via de regra, só possuem expressividade na rede social e pouco ou nenhum contato com a realidade, sendo responsável por criar uma cortina de fumaça, impedindo que o governo tenha contato com os anseios de seu eleitorado real - e não fictício -, criando a falsa sensação de que tudo vai bem, que o conservador brasileiro está satisfeito com o desempenho do governo.


O Conservadorismo, como bem ensina o Prof. Olavo de Carvalho, não é para homens de geleia. Mais especificamente, o conservadorismo à brasileira, é notoriamente conhecido por sua reatividade às pautas progressistas, aos ataques à família, ao estado de direito e às demais pautas consideradas inegociáveis por seus defensores. Acontece que essa torcida apaixonada, exposta acima, tem maquiado tal característica, passando a defender o governo até mesmo quando suas atitudes vão radicalmente contra o projeto constante do plano de governo eleito em 2018 (basta ver a defesa de Damares Alves e seu progressismo velado).


Portanto, no tocante a este ponto, em específico, a análise da Folha de SP é certeira: ou o presidente garante sua "governabilidade", isto é, dialoga com o centrão - leia-se: a lista da Odebrecht - e firma sua base "aliada", ou garante o apoio do povo que o elegeu com objetivos e pautas bem claros, inclusive, dentre eles, o combate à corrupção. A opção feita tem se tornado cada vez mais cristalina: a mobilização do povo não é suficiente para tocar um governo, dizem.


A separação feita pelo estabilishment midiático tem sido, inclusive, objeto de alegações de conhecidos nomes da velha política - vide entrevista recente dada por ACM Neto, presidente do DEM -, que vêm condicionando seu apoio ao governo eleito à docilidade das ações e alegações do Planalto, especificamente na figura de seu chefe, Jair. Embora admitam que o presidente está mais aberto ao diálogo, ainda assim, quando simplesmente reage à altura de alguma acusação, voltam as acusações de autoritarismo.


Logo, trata-se de uma faca de dois gumes: se Bolsonaro torna à pauta e carisma que o elegeram, perde o diálogo com o centro. Se abandona a pauta e perde apoio do povo, deixa de ter a popularidade que é objeto de interesse da velha política, que está só esperando sua reconexão com o povo para virar-lhe as costas.


Enquanto disputa a atenção do Centrão - cuja origem e índole conhecemos bem - com a esquerda, o governo se afasta cada vez mais de seu eleitorado, que, percebendo tal movimentação, irá buscar outro "Messias".


Presidente, este é um apelo para que V. Exa. retorne às origens, à sua essência e, principalmente, a seu plano de governo. Nós não queremos abandoná-lo, mas, mais importante que sua figura, são nossos valores.

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