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A Bruxa


Por: BCWB


Conheci Hilda Ferrer em 1987 na minha primeira paróquia em uma cidade longínqua no sul do Brasil.


Uma mulher que por onde passava deixava um rastro de sangue e lágrimas, sua presença era suficiente para profanar a casa de Deus.

Ao longo de minha permanência pude gravar algumas conversas que tive com Hilda e hoje vou mostrar para vocês.

10/06/1987 - Essa foi a data exata em que cheguei à paróquia Santa Luzia no extremo Sul do país, estava frio e a cidade vazia. Fui substituir um Padre que havia falecido a pouco tempo.


Quando adentrei a paróquia vi sinais de briga, paredes com muitas marcas, parecia que um animal tinha estado ali e feito aquele estrago.

Não fui recebido por ninguém, não existia ninguém parecia uma cidade fantasma, mesmo assim abri as portas da igreja e arrumei tudo e comecei a fazer planos para uma pequena reforma.

Aquelas paredes sujas, com marcas de arranhões, algumas pinturas sacras totalmente manchadas por algo amarelado, luzes queimadas... Um verdadeiro cenário de guerra.


Na primeira semana sai para conhecer os moradores locais, comércios e quando via alguém na rua a aproximação era muito difícil, mal tinha a chance de cumprimentar a pessoa com um simples bom dia, nunca estive em um lugar tão difícil.


Durante 20 dias fiquei sozinho na igreja, não apareceu uma alma se quer, então decidi cuidar daquela igreja de paredes acinzentadas marcadas pelo fogo das velas que um dia estiveram acesas.

O chão era rústico, surrado, nada ali aprecia agradável aos olhos, tudo fora profanado, mas por quem?

Quem teria tanto ódio a ponto de tal barbaridade?

O que me restou foi fazer uma pequena reforma com o dinheiro que havia guardado para minhas necessidades pessoais, mas a obra do Senhor era maior que eu, naquele momento era necessário ação.


Uma certa manhã estava pintando a entrada da igreja quando ouvi uma voz fraca me chamando.

Era uma mulher arqueada, com capuz marrom, de cabeça baixa e segurando a barriga, com a voz falhando pediu para se confessar.

Logo deixei tudo que estava fazendo para atendê-la, corri para auxiliá-la e logo percebi que a mulher não estava bem, então a acomodei no confessionário e sujo de tinta comecei a ouvi-la.

Ela perguntou se todos os pecados eram passiveis de perdão e disse que havia vendido seu bebê para uma mulher chamada Hilda.

Estava arrependida e pediu minha ajuda para recuperar a criança.

Hilda teria feito seu parto, pois já estava tudo acertado antes da criança nascer,


Perguntei o endereço para poder ir atrás e ela chorando me fez uma advertência dizendo que Hilda tinha pacto com Diabo e pediu para que eu tivesse cuidado, pois ela havia mandado seus escravos para matar o antigo padre.

Disse à ela que se o arrependimento é de coração e sincero Deus teria misericórdia.


A mulher me entregou uma bolsa com dinheiro e foi embora arqueada. Chorava muito e quando estava na porta olhou para trás como se quisesse me dizer mais alguma coisa... Abaixou a cabeça desistindo e se arrastou rua abaixo sozinha em direção à sua casa.

Fechei as portas da igreja, peguei a bolsa e fui para o endereço de Hilda.


De longe ouvi Hilda gritando:


"NADA DO QUE VOCÊ FIZER VAI ADIANTAR, SUA ÁGUA BENTA NÃO ME MACHUCA, SEU ROSÁRIO NÃO ME ASSUSTA E SEU LATIM NÃO É DOS MELHORES... CONHECI PADRES MAIS FLUENTES."

Cheguei até o endereço e senti algo muito ruim, logo na entrada no muro que cercava a casa, alguns simbolismos: a lua tripla, o olho de Hórus e o pior deles o que me causou arrepios o deus Moloch com uma criança no colo.


Confesso que cheguei a sentir náuseas... Talvez fosse tarde demais para aquele bebê.


Em seu quintal muitos gatos, todos assustados e quando gritei pelo nome de Hilda eles se arrepiaram e começaram a rosnar como que querendo me afastar de lá.


Chamei milhares de vezes, até que quando estava para desistir tive a ideia de escalar o muro que era baixo. Para minha surpresa, quando estava para pular ouvi uma voz doce bem perto de mim que dizia:


“Se eu fosse você não faria isso,senhor.Não se entra na casa de uma mulher sozinha sem ser convidado."

Cai assustado e ela com olhar de desdém pediu para que eu me levantasse e fosse embora.

Hilda era linda, nunca tinha visto tanta beleza assim, sua pele era alva, cabelos loiros até a cintura, olhos azuis como o céu e o que mais me impressionou foi a juventude que ela mostrava em seu rosto, mas não era natural, tinha algo de ruim escondido por baixo daquela pele.

Levantei, pedi desculpas e expliquei que o assunto era muito urgente, ali mesmo ela pediu para que eu falasse rápido porque estava ocupada e não era de bom tom um homem desconhecido na casa de uma mulher sozinha.

Quando falei do bebê ela se retraiu e disse que não estava mais com ele, um casal havia buscado hoje de manhã e nada sabia, além de que eram inférteis e estavam à procura de um recém-nascido.

Disse á ela que a mãe estava arrependida e queria seu filho de volta.

Com olhos arregalados ela perguntou se estive com a mãe. Disse que era o novo Padre e que só queria ajudar, nesse momento Hilda se tornou ríspida, a voz mansa e doce sumira dando lugar a algo amedrontador que me expulsou daquele quintal.


Confesso que fiquei assustado com a reação de Hilda, mas lembrando daqueles símbolos tudo começa a fazer sentido.

A noite resolvi ir até a casa da mulher devolver o dinheiro e explicar o que havia conversado com Hilda. Quando estava chegando no portão, vi uma movimentação atípica: muitas pessoas em frente sua casa, algumas chorando, outras curiosas e eu sem entender nada.

Entrei no meio delas e senti o cheiro da morte que pairava no ar.

Ao abrir a porta da casa o mal ainda estava ali percorrendo as paredes a minha espera.

Marrie fora decapitada, seu tronco estendido no chão, braços e pernas abertas, em cima de um pentagrama, em sua barriga um corte expunha o útero ainda inchado do parto que havia acontecido na noite anterior.


Marcas de dedos cobertos de sangue deslizando pelas paredes e o cheiro metálico do sangue inundava todo o ambiente.

Ali havia acontecido dois sacrifícios, um por vingança, mas e o outro?

Sai dali totalmente atordoado e escutei as pessoas cochichando pelos cantos que aquilo tinha sido feito pela Bruxa.


Bruxa?

Parei e perguntei a uma senhora que Bruxa era essa e ela percebendo que eu era um Padre abaixou a cabeça e foi embora me deixando sem nenhuma resposta.


O comentário entre as pessoas ali presentes era que aquilo tudo seria obra “dela”.

Estava muito cansado e só queria sair dali,


Fui pra casa e na manhã seguinte, ao abrir as portas da igreja, como de costume tinha uma dezena de pessoas em frente a porta olhando para cima.


Achei muito estranho e fui averiguar junto a eles, quando cheguei até um menino para perguntar ele puxou minha batina e apontou para cima.

No topo da paróquia existe uma cruz e na ponta dela estava cravada a cabeça de Marrie.


Certamente um aviso para eu me afastar.


Enquanto observava aquela maldade sem tamanho, uma voz passou por mim e disse bem baixinho:


“Hilda, foi ela”.

Hilda era a tal Bruxa e ela fez aquilo para que eu me afastasse dali.

Uma semana depois encontrei um envelope embaixo da porta.


Achei estranho porque ninguém, absolutamente ninguém frequentava a paróquia. Ele dizia que Hilda não deixava ninguém ir à missa. Ela castigava qualquer um que ousasse entrar para fazer uma prece.

Passei o dia pensando naquelas palavras.


A noite ao deitar senti que algo ou alguém me observava, um vulto negro passeava de um lado para o outro em meu quarto.

Fiquei imaginando se era algum demônio mandado por Hilda para me vigiar, em alguns momentos ele parava no teto, outras vezes passeava pela cabeceira de metal gelado de minha cama.

Nesse momento comecei a fazer uma prece,


Grande e glorioso Príncipe dos exércitos celestes, São Miguel Arcanjo, defendei-nos...


"Porque para nós a luta não é contra a carne e o sangue, mas sim contra as potestades, contra os poderes mundanos das trevas e contra os espíritos da maldade...."

Antes que eu pudesse terminar ele se foi!


Não dormi, passei a noite em claro pensando em Hilda e seu demônio enviado para me amedrontar, levantei-me na primeira hora do dia e fui para a casa da dita Bruxa,

cheguei e aos berros:

- Hilda saia quero falar com você!

- Hilda eu sei quem você é e a quem serve!

- Saia e venha me enfrentar.

- Hilda!

- Hilda!

- O que você fez com a aquela mulher não pode ser coisa desse mundo, você é um demônio.


E Hilda com aquela voz maldita me disse:


- Não Padre, os demônios trabalham para mim.


- Por acaso não viu um ontem à noite?

- Fui eu que o enviei.


Hilda e sua hode de demônios estavam a postos esperando a hora certa para atacar.


Estavam todos ali na sala numa espécie de culto maligno, oferendas espalhadas chão, símbolos ocultistas desenhados no chão, dois homens ao seu lado esquerdo seguravam castiçais com velas negras acesas.


Ela segurava um punhal com as duas mãos apontando para baixo e dizia alguns conjuros que há muitos anos não ouvia falar, de repente no meio daquele caos ouvi um choro de bebê, tentei sair de onde estava para procurar, mas algo me segurava.


Era invisível, como se braços e pernas perdessem os movimentos. Más minha boca clamava:


Crux Sacra Sit Mihi Lux, non Draco Sit Mihi Dux. Vade Retro Satana. Nunquam Suade Mihi Vana. Sunt Mala Quae Libas, ipse Venena Bibas.

Quando terminei de falar os demônios que habitavam ali tentaram me segurar, mas munido de uma força descomunal me soltei e fui em direção ao choro.


Enquanto ela, a Bruxa, tentava me segurar, acabamos entrando em confronto e em um impulso consegui jogá-la no chão.


Hilda bateu a cabeça na quina de um móvel e ficou inconsciente.


Percebendo não levantava seus demônios de capuz foram ao seu encontro enquanto eu corri para onde estava vindo o choro. Sai procurando nos cômodos, a casa não era grande.


Percebi luzes de vela através dos vidros de uma porta nos fundos que dava para os fundos do quintal e lá e no meio do uma estátua em tamanho real de um deus maldito chamado Moloch.

Tal qual a bíblia descrevia, de braços estendidos á espera de sua oferenda, baixo dele havia um buraco com uma fogueira acesa, era possível escutar o estalar da madeira queimando, em uma espécie de berço pequeno de vime aquele bebe tão pequeno, seria jogado nas chamas ainda vivo como manda o rito.

Me aproximei para tirá-lo dali, quando estava com ele em meus braços senti o gelo do punhal de Hilda entrando em minhas costas, ela estava ali para pegar a oferenda e garantir sua juventude ao custo de mais uma vida inocente.

Sem pensar duas vezes virei-me para ela que estava perto das chamas, pelos cabelos arrastei Hilda até fogo, onde tentei empurra-la para que queimasse no fogo dos infernos, ela resistia e gritava com uma voz satânica palavras em outro idioma.


No chão, consegui empurrar sua cabeça para as chamas e com minhas duas mãos bati sua cabeça nos tocos de lenha ardiam em brasa,

Hilda queimou lenta e dolorosamente até sua morte, só sai dali quando vi seu corpo totalmente carbonizado.

Seus demônios gritavam e tentavam me atacar. Mesmo assim, ainda consegui pegar um pedaço de madeira que não estava queimando por inteiro e ateei fogo por onde passava com a criança no colo.


A casa do mal aos poucos fora consumida e eu fui embora.

Por fim ela disse algo que arrepio dos pés a cabeça:

- Você pode me matar se quiser, mas muitas Hildas ainda vão se levantar através dos tempos. Os sacrifícios vão mudar, mas nunca vão deixar de existir.