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A CRISE DE AUTENTICIDADE

Por Evandro F. Pontes


Há hoje no Brasil uma grave CRISE DE AUTENTICIDADE em curso. Já ouvi de muitos sobre CRISE DE IDENTIDADE, mas não é disso que se trata. Falemos primeiro sobre o conceito de crise.


Crise vem do grego κρισις (krísis), que significa “separar, discernir”. Vem do verbo κρινω (krino), que significa “recompor”. A ideia de “recomposição” se liga ao conceito de “julgar”, “decidir” e (juridicamente) “interpretar”. No grego antigo a palavra é comum nos discursos de Lysias e Demósthenes, dois oradores espetaculares e ligados ao sofismo pré-socrático e, não coincidentemente, advogados.


Com o passar do tempo, o termo migrou do universo jurídico para o médico, clínico. Essa ideia de “recomposição jurídica” se tornou, com o tempo, forma de diagnosticar uma necessidade de recomposição física. Comum hoje em dia ouvirmos termos como “crise de asma” ou “crise de bronquite” e assim por diante. Essa “crise” (clínica) é um estado, muita vez passageiro, de desorganização funcional de certos processos orgânicos que impedem, por exemplo, alguém de respirar corretamente.


Foi a escola de Frankfurt com Habermas, em Crise de Legitimação no Capitalismo Tardio, que o termo migrou da medicina para a sociologia, mas, muito cá entre nós, eu duvido que Habermas soubesse dessa origem jurídica do termo “crise”. E com isso, Habermas trouxe à tona de que a ideia de “crise” é, na essência, "um estado de declaração conservador", pois na terminologia médica, representa a constatação de um estado que força o médico a levar o paciente a um status quo ante, qual seja, “voltar no tempo” para re-conservar a sua saúde.


Habermas, nesse ponto, estava certo. Justamente porque a origem do termo, juridicamente, remonta à ideia de recomposição e, portanto, a um raciocínio conservador de atacar um estado doentio a fim de que ele recupere a saúde de outrora ou, melhor, recupere o valor perdido (em termos filosóficos) que levou alguém a violar alguma lei natural e, por isso, precisa devolver à sociedade aquilo que dela tentou tirar-lhe.


É disso que se trata a ideia de “crise” – um conceito de conservador de recomposição a partir da constatação de uma disfunção no funcionamento de certos valores.


Dito isso, passemos ao problema da IDENTIDADE versus a AUTENTICIDADE.


Na CRISE DE IDENTIDADE, mais profunda, há uma disfunção valorativa de alguém em relação a si mesmo. Nessa CRISE a pessoa sequer sabe quem ela é. Não reconhece nem a si próprio e por isso oscila, busca ser alguém que ainda não é, com uma colagem, um mosaico de atitudes que, de certa forma, ajudam a construir uma IDENTIDADE que ainda não existe. É fenômeno típico da adolescência, portanto: vive em busca de “ser algo” ou “ser alguém” que ainda não sabe direito “quem é”. Sossega depois que casa, cria defesas depois que tem filhos.


A palavra “identidade” é curiosa. Vem do latim “idem”, em forma redundante, “idem et idem”, formando o termo “identidem”, que gerou termos como “identidade” e “idêntico”. “Idem” (eadem, idem, idis, idem) é transmutação de “item”, que quer dizer simplesmente “o mesmo”. O reforço “idem et idem” dá a ideia de “o mesmo do mesmo”, qual seja, “ele mesmo” ou “ele próprio” ou, como diria Olavo de Carvalho “o próprio”. É, portanto, a essência do próprio ser, sem tirar nem pôr.


Na identidade você encontra o ser, com todos os seus defeitos e vicissitudes, na forma mais humana em termos. Ai já ocorre o que Lavelle chamou de conscience de soi, qual seja, a consciência de si. Não à toa, Lavelle ressalta como um dos pontos da consciência de si, o fenômeno da fidelidade às ideias.


A essência da identidade é a fidelidade (a uma mesma) ideia. Tem identidade aquele que tem ideias (leia-se, “representações de valores”, que é o que são as tais das “ideias”). Mas note agora o detalhe para entender a diferença: há muita gente neste mundo com o que se chama na periferia de “ideia fraca”. É o que na axiologia se chamam de “valores minúsculos” ou “pequenos valores”, já constituindo uma quase-vício. Não são valores cardinais, mas sim pequenas mesmices elevadas ao grau de “valor”. Exemplo: a excessiva preocupação com a beleza (sem que se extraia da beleza o seu valor), leva muita gente àquilo que conhecemos por vaidade. Por isso que é comum ver gente mexer no cabelo como forma de defesa. Eu, que não os possuo, me orgulho da reluzente calvície e digo: essa arma nunca usarei.


Notem então que aquele que não sofre de CRISE DE IDENTIDADE (pois já encontrou a sua), pode, num segundo estágio, notar que a sua identidade é sustentada por causas frágeis, “valores minúsculos” ou “ideias fracas”. Aí há identidade, mas muito dela precisa ser escondido, escamoteado, fingido. Essa necessidade de esconder quem se é de verdade, leva o indivíduo a construir uma imagem publica que a protege de ser descoberta em sua miséria intelectual e, muita vez, espiritual.



Eis aí a CRISE DE AUTENTICIDADE. O sujeito sabe quem é e não tem problema de desconhecimento de sua identidade: ele apenas não está contente com a péssima descoberta. Tem vergonha de si próprio, no fundo. E assim procede à construção de uma personagem que não condiz com ela mesma. A pessoa se torna INAUTÊNTICA.


A escolha das imagens que ilustram este texto não é despropositada: o Hamlet de Shakespeare é um dos maiores enigmas de AUTENTICIDADE já propostos no discurso imaginário. Hamlet sabe quem é mas precisa ser outra coisa para se debelar e navegar em um mundo de pura miséria intelectual e espiritual.


A cena em que Hamlet carrega a principal imagem de um clown de Shakespeare é frequentemente confundida com a cena do "to be or not to be". Na 1ª cena do 5º Ato, Hamlet, na companhia de Horácio, visita um cemitério e no diálogo com um coveiro, que diz: Faith, if he be not rotten before he die—as we have many pocky corses nowadays that will scarce hold the laying in— he will last you some eight year or nine year. [Bem, se este não estiver perdido antes que morra - e hoje há tanta gente perdida antes de morrer que já começa a se decompor antes de ir para uma cova - deve durar ai uns 8 ou 9 anos].


Após breve interpelação, vem o mais importante monólogo de Hamlet sobre AUTENTICIDADE, ao lhe ser revelado que um dos exemplares de RESISTÊNCIA pertenceu ao bobo-da-corte Yorick:



Alas, poor Yorick! I knew him, Horatio, a fellow of infinite jest, of most excellent fancy. He hath borne me on his back a thousand times, and now, how abhorred in my imagination it is! My gorge rises at it. Here hung those lips that I have kissed I know not how oft. Where be your gibes now? Your gambols? Your songs? Your flashes of merriment that were wont to set the table on a roar? Not one now to mock your own grinning? Quite chapfallen? Now get you to my lady’s chamber and tell her, let her paint an inch thick, to this favor she must come.
[Oh, pobre Yorick! Eu o conheci, Horácio, homem de engraçado demais e de criatividade elevada. Ele me carregou em seus braços milhares de vezes e agora, quão abominável em uma imaginação ele passa a estar. Causa-me ânsia no estômago vê-lo assim.Não me lembro quantas vezes os lábios que aqui estavam me beijaram. Onde estão suas piadas, suas pegadinhas, suas músicas? Seus momentos de sagacidade que faziam toda a mesa rir? Hoje, você não faz mais ninguém rir. Você estaria chateado com isso agora? Você deveria estar vivo para entrar nos aposentos das moças para  dizer que não importa o quanto de maquiagem ela use hoje, terminará como você agora] 

Shakespeare por Hamlet anunciou num dos diálogos mais complexos como a INAUTENTICIDADE funciona. Transformado em discurso dramático pela interpretação de um dos maiores atores da história da humanidade, Mel Gibson, essa passagem fica assim:

Por Lawrence Olivier, assim:

E esta é a versão de Kenneth Branagh:

Notaram as diferenças de leitura sobre o texto? E as semelhanças? Pois bem, a nós interessa reconhecer que o inautêntico força atitudes, sobretudo em público. Sempre soa falso, de improviso calculado. Vive como se fosse um Yorick de péssima qualidade, ou um Hamlet sem nobreza, seja posando de moderado, seja dando uma de “estridente”.


Esse “soar falso” que não escapa aos olhos de ninguém, conflagra com o que chamam de “personalidade forte”: alguém que “não está nem ai pra própria imagem”, alguém que sempre será julgado como “prepotente”, “arrogante”, ou muita vez “blasé” ou “distante”. Nesses casos, a característica que parece “negativa” para quem está em crise de autenticidade, vai parecer a quem não tem, que esse sujeito é simplesmente AUTÊNTICO.


Exemplo de pessoa autêntica? O Professor Olavo de Carvalho. Ele não finge ser outra pessoa. Ele é aquilo mesmo. O Olavo que muitos veem não difere do Olavo como ele essencialmente é. Olavo é AUTÊNTICO, não imita ninguém, não esconde o que pensa, não tenta escamotear seu lado humano e, portanto, seus defeitos. Aceitá-lo como ele é, assim, é ato de humanidade – olhá-lo só pelos defeitos (assim como admirá-lo só pela qualidades) é ato de desumanidade ou de CRISE DE AUTENTICIDADE pelo lado de quem observa.


Outro exemplo? Jair Bolsonaro. Eis ai uma pessoa que tem ZERO CRISE DE AUTENTICIDADE. Jair é aquilo mesmo; não emula ninguém, não tenta ser o que não é, faz o que acha certo e não dá bola para “torcida”, mesmo quando está errado. E quando nota o erro, corrige rapidamente sem o menor constrangimento de pedir desculpas em público, como já fez várias vezes. É humilde sem ser fingido. Ele, para ser aceito, precisa o ser na íntegra, com seus defeitos e vicissitudes, pois é AUTÊNTICO. Quem o bajula ou quem só vê nele defeitos é farinha do mesmo saco: gente com grave CRISE DE AUTENTICIDADE e feroz desumanidade.


Mais um? Carlos Bolsonaro. Mais AUTÊNTICO que esse eu estou para achar. Não há ser humano mais desprovido de verniz ou cera (de onde vem a palavra SINCERO, sine cera do latim) que Carlos. Com ele é tudo no “papo reto” e não há com ele “ideia fraca”. Ou você é, ou você não é. Não tem meio termo, não tem interpretação, não tem encenação. Por isso Carlos tem tanta facilidade para identificar TRAIDORES, que normalmente são pessoas no estágio mais alto de sua respectiva CRISE DE AUTENTICIDADE.


Mais um (talvez o maior)? Donald J. Trump: este dispensa motivos e apresentações - basta ler o Art of the Deal e lá estão AUTÊNTICO TRUMP, o próprio Trump, ou, como diria Shakespeare, Trump himself.


A crítica comum à todos? São arrogantes. O traço positivo em comum de todos? São HONESTOS.


Quem está em CRISE DE AUTENTICIDADE, portanto, “rouba” outra personalidade para tentar ser quem ele NÃO É: veste-se de "Leão Conservador" hoje quando, até ontem, relatava lei de casamento gay para a Dona Marta. O objetivo central é enganar, persuadir (na pior técnica de persuasão possível, bem ao modelo Cialdini) ou meramente escamotear as próprias “ideias fracas” para se escorar em “ideias robustas”, que não são suas e, por isso, não as domina e não sabe publicamente representá-las em AÇÕES.


A CRISE DE AUTENTICIDADE é, na raiz de todos os problemas, a expressão máxima de uma verdadeira CRISE DE HONESTIDADE. Qual seja: a CRISE DE AUTENTICIDADE é acima de tudo uma CRISE DE HONESTIDADE.


NEOCONs são campeões em roubar ideias e não agir conforme elas. É comum, portanto, notar entre certos admiradores do Prof. Olavo um enorme esforço para imitar o Mestre. Vivem tentando “ser Olavo” para não precisar ser quem de fato são. Assim, tudo o que a pessoa tem a apresentar é uma imago em espelho, uma cópia, uma imitação fajuta e sem “ideias próprias” ou, pior, fazendo tabula rasa das ideias do Professor. Um certo youtuber ai tentou ser, durante um certo tempo, uma cópia do Prof. Olavo. Faltou-lhe conteúdo: restou, ao fim, atacá-lo.


Não à toa, na política, NEOCONS são os maiores artífices de esquemas de corrupção: de Maluf a Sarney, de Jefferson a Odebrecht, de Nixon a Biden - não há um que se salve; todos em CRISE DE AUTENTICIDADE constante e, por isso, mestres na arte de ludibriar politicamente e, de quebra, simular juridicamente (o primeiro passo da fraude e, assim, o caminho necessário para a corrupção). No STF não escapa um à regra.


Há assim na CRISE DE AUTENTICIDADE um completo disparate de quem a pessoa é, em face de quem ela diz ser, deseja ser, mas, sabemos, jamais será. Vive então nesse constante conflito com outros (e, nunca consigo mesmo) para impor-se como algo que a sua essência não confirma.


A palavra AUTENTICIDADE, assim como o adjetivo que lhe dá origem, AUTÊNTICO, vem do grego αυθεντης (authéntes), derivada do verbo αυθεντηω (authentéo), que significa “investir-se de poder” (o aspecto reflexivo do termo vem do "autós"). Na crise de autenticidade, o “poder que sustenta” vem de fora. A pessoa em crise é praticamente sustentada pela imagem que a outro pertence e que ela, inadvertidamente, roubou. Sozinha, ela não “para em pé”.


O que temos no Brasil hoje é uma verdadeira PANDEMIA de CRISE DE AUTENTICIDADE


Ninguém, em CRISE DE AUTENTICIDADE, consegue ser o que de fato é. Pior: na maioria das vezes, nem sequer consegue ser o que é; em outras, não quer. Precisa ser outro.


Na CRISE DE IDENTIDADE o sujeito faz de tudo para “aparecer”. Na CRISE DE AUTENTICIDADE o sujeito faz de tudo para “não aparecer” e está sempre sendo algo que não é. Evita “aparecer” pois sabe que dando as caras, a máscara que passou a usar publicamente, facilmente cai.


Por isso há uma nova enxurrada de anonimato nas redes sociais. Esse novo anonimato, entretanto, nada tem a ver com o anonimato vaporwave. Já pude discorrer sobre isso em um dos episódios do Doomer Vs Boomber com Ju Ginger, quando falamos da relação dos boomers com a internet.


O anonimato boomer dos pacientes em CRISE DE AUTENTICIDADE nada tem a ver com o anonimato de um Dex, um legítimo doomer que usa do avatar para proteger quem ele de fato é, qual seja, a sua autenticidade, que submerge naquela foto de Reeves e não tirada de ninguém que não seja ele mesmo. É diferente do anônimo que surgiu em junho, que visa proteger quem ele não é, qual seja, a sua falta de autenticidade e sua leitura apaixonada de "pensadores" como Cortella, Karnal e Barros Filho e das "personalidades" que os dominam. Por isso os novos perfis anônimos soam “falsos”, “forçados” ou “esquisitos” – diferente de um Dex ou de um Leitadas onde há verdadeira AUTENTICIDADE nas postagens, coerência nas posições (concorde-se ou não com elas).


A PANDEMIA da CRISE DE AUTENTICIDADE, trazida pela parca organização de uma militância NEOCON, parece que veio para ficar, lembrando aqui a entrevista que Jorge Oliveira deu há algum tempo ao Jornal Valor, delimitando esse universo do que “veio para ficar”: “Jairzinho Paz & Amor”, “Jair, um Governo para Todos”, ou, em outras palavras, uma tropa inautêntica tentando ser o que ela não é (e nem o que Jair nunca foi nem jamais será, observado até pelo entrevistador) e visando esconder quem ela procura ser (dai a comparação tão insistente com Lula). Não há retrato mais escancarado do NEOCON do que essa entrevista.


É, pois, nas “crises” que o conservadorismo aparece. Nesta, de AUTENTICIDADE, ele apareceu – e, pasmem, desmascarou muita gente, por ser um desdobramento mais profundo da CRISE DE HONESTIDADE. Resolver essa PANDEMIA de CRISES DE AUTENTICIDADE é, pois, o assunto mais importante do momento. Em outras palavras, os inautênticos precisam ser expostos, o tempo todo e a forma de pegá-los de jeito é pela INCOERÊNCIA.



Só a AUTENTICIDADE vai trazer de volta a paz na política entre setores da direita – e, por favor, sem “união”, conforme já falei alhures. Boa semana a todos!

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