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  • Davi Eler

A LAPISEIRA

Atualizado: Mar 24





Era uma vez uma simples e comum Lapiseira, que se sentia sempre solitária e vazia. Ela não conseguia cumprir seu propósito de vida, pois não tinha um grafite, era apenas um pedaço de plástico jogado no canto de uma mesa de escritório.


Por ela ser incapaz de realizar o que foi criada fazer, sempre se sentia triste e vazia. Porém um dia ela resolveu mudar esse cenário, ao invés de ficar se vitimizando, chorando pelos cantos, a Lapiseira decidiu que encontraria uma forma de preencher seu vazio, e de cumprir o propósito pelo qual ela foi criada.


Sendo assim, ela saiu à procura de coisas que pudessem ocupar o espaço oco dentro de si, e ajudá-la a realizar sua missão de vida. Então ela primeiro foi atrás da ajuda do Clips De Metal. Ele era um adolescente dos mais chatos imagináveis, fez com que ela prometesse que o ajudaria com as espinhas e com a menina que ele gostava, a Lapiseira sem opção aceitou. Ela então começou a dobrá-lo deixando-o reto, e começou a tentar encaixá-lo, para ver se ele poderia preencher seu vazio. Não funcionou. A circunferência dos Clips era grande demais, e no fim ela acabou sem conseguir o que queria, e ainda teve que ajudar o adolescente com as coisas que havia prometido.


A Lapiseira ficou muito triste, mas não desistiu, ela realmente estava determinada a cumprir seu propósito. Então vendo um Alfinete em cima da mesa, e correndo até ele, ela implorou para que o senhor a ajudasse. Depois de muito tempo tentando convencê-lo, a Lapiseira consegue. O Alfinete era velho e rabugento, pois ninguém o usava mais, então no fundo ele estava feliz por ajudar, mas jamais demonstraria isso. Após dobrá-lo como fez com o Clips De Metal, ela consegue coloca-lo no lugar destinado ao grafite, mas acaba sobrando muito espaço. Eles até tentaram colocar papel para ver se deixava mais firme, mas no fim, nada deu certo. Sendo assim, a Lapiseira falhou mais uma vez, mas ela com certeza não iria parar agora, tinha muita confiança em sua próxima ideia.


Ela decidiu que não conseguiria nada no escritório da casa, e resolveu ir para a cozinha. Pegou uma mochila e colocou alguns suprimentos, e após uma longa jornada passando por lugares extremamente quentes, e extremamente frios, passando por ambientes dominados pela escuridão e pela sujeira como: por baixo do sofá.


Mas apesar de vários percalços no caminho, ela conseguiu chegar em seu tão desejado destino: a cozinha. Pois ela tinha ouvido uma história de que lá vivia um ser chamado Macarrão, que era usado para alimentar os deuses. E ela sabia que a circunferência deste ser caberia perfeitamente no lugar do grafite, só seria difícil convencer alguém a ajuda-la.


Chegando então na área da cozinha ela ficou perplexa com a diferença daquele lugar com o qual morava. Lapiseira havia passado por outros países como: a sala de estar e o quarto, mas nada se comparava aquilo, as paredes eram brancas e feitas de um material brilhoso estranho, não eram como as paredes de madeira do seu país. Até o piso era diferente, o cheiro, era tudo tão lindo: “Esse realmente deve ser o templo dos nossos deuses” pensava a Lapiseira.


Porém ela não conhecia o local, e não fazia ideia de como encontrar o Macarrão. Então começou a sair perguntando onde eles ficavam, mas ninguém queria falar com ela, por ela ser de fora, para eles a Lapiseira era um ser impuro.


Mas ela conseguiu que um Milho De Pipoca caído e esquecido no chão a ajudasse, se em troca ela o colocasse de volta em seu pote. Ela sem muitas opções teve que aceitar entrar nessa jornada adjacente. A Lapiseira então pega o milho em seu braços, podia não parecer, mas ele era pesado.


Ela começa a subir e escalar as gavetas até chegar na pia, estava bem cansada por ter que carregar o Milho, então resolveu parar para beber um pouco de água. Foi quando ela viu o pote de Macarrão, seus olhos se iluminaram e arregalaram, aquilo que a Lapiseira tanto buscava e almejava estava bem ali diante de seus olhos.


Porém quando ela olhou para baixo e viu o Milho dormindo como um anjo em seus braços, a Lapiseira sentiu um aperto em seu coração e sabia que não podia simplesmente deixa-lo ali, ela tinha que leva-lo para casa. Então seguiu o caminho explicado pelo Milho, deixando seu sonho para trás, momentaneamente .


Ao anoitecer eles finalmente chegaram na casa do pequeno Milho, o pote todo fez uma festa, finalmente seu irmão caçula estava de volta, todos ficaram MUITO felizes, e não se cansavam de agradecer à Lapiseira. Eles insistiram para ela dormir ali, pois já estava tarde, e a noite a cozinha se tornava muito perigosa. A Lapiseira aceitou e descansou no pote dos milhos.


De noite ela ouviu vários barulhos assustadores e viu vultos e sombras que fariam qualquer um se tremer de medo. Então sua noite não foi lá das melhores, mas mesmo assim ela conseguiu dormir.


De manhã todos acordaram, comeram alguma coisas, conversaram, deram muito risada e se divertiram, mas infelizmente a Lapiseira tinha que ir embora. Eles explicaram direitinho o caminho para o Macarrão, e disseram que se ela tivesse ido por onde tinha visto antes, teria caído no território das facas que são muito malvadas, elas cortam qualquer um que passar por ali.


Agora sabendo qual era o caminho mais seguro para alcançar seu objetivo, ela pega sua mochila e vai ao encontro de seu destino. Depois de uma tranquila caminhada ela chega aonde tanto queria.


Explicou sua história e seu problema para o pacote de Macarrão: “Eu lhes imploro que me ajudem, vocês são minha última esperança. Não posso mais viver sem um objetivo de vida, sem cumprir aquilo que fui criada para fazer. É MEU DESTINO, e eu preciso alcança-lo.”


Contudo infelizmente nenhum dos Macarrões pareceu se compadecer de sua situação, com a exceção de um que saiu lá do fundo. Ele era bem menor que os outros, além de ser mais fino também. Ambos defeituosos, incapacitados de cumprirem seus destinos, mas agora juntos eles poderiam finalmente, ter algum sentido em suas vidas.


Ele sai do pote, e então os dois percebem que finalmente iriam conseguir um sentido para suas vidas. Então sem muita cerimônia e com muita ansiedade e esperança de que desse certo, a Lapiseira abre sua tampa, e o Macarrão entra no lugar do grafite.


Não fica perfeito como eles acharam que ficaria, mas dava pro gasto. Talvez dessa forma, juntos, eles conseguissem ser úteis, e realizar seus destinos.


Porém quando a Lapiseira foi tentar escrever ela viu que nada saia, naquele momento então o mundo dos dois pareceu desabar. Toda aquele alegria escorreu pelo ralo da pia, eles estavam tão desolados que nem viram que tinham acabado de entrar no território das facas.


E quando se deram conta, já estavam cercados por toda variedade de laminas imagináveis, grandes, pequenas, com serra, sem serra, cabo longo e cabo curto. Era assustador, eles sabiam que morreriam, mas pelo menos, morreriam juntos.


Só que essa não é uma história de amor. Quando uma faca ia cortá-los ao meio, um dos “deuses” deles pegou a Lapiseira com o Macarrão dentro. Ele os salvou e disse: “Caramba uma Lapiseira na cozinha, estou precisando tanto de uma. Minha caneta quebrou, e eu não acho a que eu tinha. Será que tem grafite ainda? Mas o que é isso? Um macarrão? Acho que meu filho deve ter colocado aqui dentro, como algum tipo de brincadeira.” E nesse momento o homem pega o pequeno e fino Macarrão e o leva até sua boca. Lapiseira se desespera, apesar de não poder fazer nada, mas ele lhe diz: “Relaxa, eu estava esperando por isso minha vida toda. Esse é meu destino, o motivo pelo qual eu fui criado. Este é o momento mais feliz da minha vida!!!!”.


Ela se emociona com aquela cena, ele aceitou a morte de braços abertos, pois sabia que era seu destino, Lapiseira queria também saber como era aquela sensação. E foi nesse momento que uma tristeza enorme se apossou dela, já que ela lembrou que voltaria para à estaca zero. De volta ao escritório, jogada em algum canto, esquecida e vazia, sem seu grafite.


Todavia ao voltar para seu país de origem, o homem começou a vasculhar as gavetas, a Lapiseira não entendia o motivo dele estar fazendo aquilo. Porém um medo começou a invadi-la, pois temia que fosse abandonada dentro de uma daquelas gavetas, o pior lugar para ser deixada. Ela ficaria no escuro por horas, dias e talvez até meses, somente com a tristeza como companhia.


Só que na verdade o humano estava procurando por um grafite, e para alegria sem parâmetros da Lapiseira ele achou. Quando ela o viu, foi paixão imediata, eles sabiam que tinham sido feitos um para o outro, agora ela entendia que o Macarrão foi uma péssima decisão e que se eles ficassem juntos, a vida dos dois seria arruinada, pois eles pensariam que tinham encontrado seus destinos, mas na verdade seria pura ilusão. A escolha de sair e encontrar seu destino por conta própria, quase arruinou sua vida, ela esqueceu que a realização de seu propósito dependia dos deuses.


Agora com tudo em seu devido lugar, ela poderia cumprir seu propósito de vida. E o grafite que antes estava abandonado numa gaveta por anos, encontra a peça que completa seu quebra cabeça. E os dois poderiam cumprir o destino que os deuses traçaram para eles.


MORAL


Não busquem preencher o vazio dentro de vossas almas através de seus próprios esforços. Somente Deus pode ocupar esse abismo dentro de nós. E não se esqueçam que Deus tem um destino e um propósito para cada um, confiem Nele, Ele é Bom, Amoroso, Santo, Misericordioso, Onipotente, Onipresente e Onisciente, não existe ninguém melhor para decidir nossos destinos. Afinal, se até os gregos confiavam em seus deuses falhos, nós não vamos confiar no nosso que é perfeito? E que respeitemos as leis naturais, não tentemos forcar algo que é não natural, como a Lapiseira fez.