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A Marcha dos Vestibulandos

Por Iagho Lobato


Criado durante o governo FHC, o ENEM tinha o intuito de avaliar anualmente o desempenho dos estudantes brasileiros nas diversas áreas do conhecimento. Contudo, foi em 2009, na gestão de Fernando Haddad no MEC, que a prova tornou-se o que é hoje: a principal forma de se entrar numa faculdade no Brasil. É evidente que a matriz curricular do ENEM é problemática em todos os seus sentidos. Entretanto, nada se compara à redação: um monstro educacional que desperta no vestibulando seus instintos mais imbecis e diabólicos.


Diferentemente dos demais vestibulares, a redação do ENEM não se preocupa em avaliar apenas as habilidades gramaticais e retóricas dos candidatos, pois apresenta na sua grade de correção a denominada Competência 5 (C5), cujo objetivo é “elaborar proposta de intervenção para o problema abordado, respeitando os direitos humanos”. Em outras palavras, a prova exige do aluno a capacidade de solucionar um problema de interesse nacional num espaço de cinco a oito linhas.


O resultado não poderia ser outro: criou-se uma massa de jovens lunáticos que possuem opinião sobre tudo e (para piorar) a solução de todos os problemas da humanidade. O ENEM não aceita a possibilidade do candidato não saber solucionar o problema abordado. Assim, inúmeros participantes da prova que sequer se importam com o debate político, social e econômico se veem de mãos atadas para o sistema, resultando num verdadeiro tsunami de propostas de intervenção revolucionárias.


O processo é simples: para garantir a pontuação máxima na C5, o vestibulando deve relacionar a proposta ao tema e à discussão, com detalhamento do que fazer, como fazer, os meios e os participantes da proposta. Por falta de espaço (e até de conhecimento!), ele opta por solucionar o problema da forma que julga mais simples possível, isto é, por meio da força estatal. Dessa maneira, não é incomum ver no último parágrafo das redações do Exame coisas do tipo “O Estado deve”, “O Governo deve”, “O Ministério deve”, etc.


O caro leitor desse texto pode pensar que o que está sendo discutido aqui é bobagem, histeria e perda de tempo, mas o fato é que, por pelo menos três anos da sua vida, o jovem brasileiro se vê condicionado a achar que uma instituição abstrata (vulgo Estado) é o principal agente de transformação social. É o Leviatã hobbesiano encarnado na sua forma tupiniquim.


Assim, os estudantes começam a desprezar inconscientemente o seu poder individual. Eis o motivo pelo qual não me assusto ao me deparar, por exemplo, com o surgimento dos chamados “pandeminions” no Twitter. Basta pegar a faixa-etária desse povo para ver que a redação do ENEM teve um papel significativo na formação do imaginário dessa gente. Eu apostaria, inclusive, que se houvesse uma redação com o tema “combate à pandemia”, a proposta de solução mais frequente seria a da criação de novos lockdowns, novas leis, etc.


É evidente que os problemas educacionais brasileiros são muito mais antigos que a criação do próprio ENEM, mas ignorar a sua influência discreta e paulatina na formação do Brasil seria, no mínimo, imprudente. A marcha dos vestibulandos, usando o linguajar freireano¹, está vencendo e está revelando o ímpeto da vontade “amorosa” de mudar o mundo, enquanto nada do outro lado está sendo feito para parar isso.



Instagram: @iaghodacierlobato

Twitter: @iaghodacierl




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