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  • Davi Eler

A Páscoa





Conta-se que em um pequeno vilarejo perto de Oslo, Noruega, por volta dos anos 900 D.C., viveu um padre, que naquele local ainda não cristão fez algo extraordinário.


Ele se destacava por sua aparência na multidão. Enquanto os outros eram loiros, de olhos azuis e possuíam traços finos, ele era bem mais rústico. A beleza exterior não era uma de suas qualidades, ele também andava encurvado por passar horas estudando e escrevendo. As crianças tinham medo dele, diziam que com a corrente de sua cruz, que ficava pendurada em seu pescoço, ele enforcava os pequenos que se aproximavam.


O homem, que tinha por volta dos seus 40 anos, era marginalizado por todo o povoado, pois para eles ser cristão era algo estranho e repulsivo. O rei daquele lugar deixou que ele vivesse ali, desde que pagasse seus impostos e não perturbasse a paz.

E durante 5 anos assim foi. O homem que era celibato, viveu ali sozinho, isolado e esquecido por todos, fazendo pequenas atitudes que ninguém via, como ajudar alguém que precisava de comida, ou até mesmo impedir que uma mulher fosse estuprada. Mas nada do que ele fazia tornava as pessoas mais dóceis com o homem, já que sua fé ofendia veementemente as crenças do vilarejo.

Porém ele tinha conseguido convencer duas famílias de 4 pessoas em cada casa. Ambas aceitaram as verdades do evangelho na última semana. E todos estavam muito felizes, pois agora era semana de Páscoa.

Contudo, uma terrível doença veio sobre o vilarejo e eles tinham uma tradição quando essas coisas aconteciam. Todos ficavam em suas casas, sem ter nenhum tipo de contato com as outras pessoas, até a doença passar.


E o padre, vendo tudo aquilo, temia que o pior acontecesse, pois ele sabia que deveria desobedecer àquela lei. Então, clandestinamente, ele se reuniu com as duas famílias e disse: “Teremos que desobedecer às leis humanas, pois elas estão em desacordo com os mandamentos de Deus”.


Os líderes da família se entreolharam preocupados. E o clérigo falou: “Pois a reunião para administração dos sacramentos e o culto à Deus são um mandamento. E infelizmente os homens deste vilarejo estão proibindo isso”.


Um deles, conhecido como Olaf “mão de madeira”, (que tinha esse apelido por ter perdido a mão esquerda em batalha e usar uma de madeira no lugar) olhou para o clérigo e o outro homem e disse: “Nós não podemos fazer isso, seremos presos, e talvez até mortos. Fora que estaremos colocando nossas famílias em risco”.


E neste momento o outro homem, conhecido como Halfdan “machado de ouro” (ganhou este apelido por ter coberto a lâmina de sua arma com ouro), olhou firmemente para seus dois companheiros de fé, e disse: “Não! Se é isto que as Escrituras dizem, então estou disposto a morrer pelo que ela diz. De que outra forma eu poderia honrar o homem que morreu para expurgar meus pecados?”


— “Mas não podemos fazer cada um em sua casa? Em segurança”, disse Olaf, ainda argumentando.


— “Não! O culto à Deus é em comunhão com seus irmãos em Cristo. O que não pode ser feito à distância”, disse o padre já com raiva da postura covarde do homem.


Após mais algum tempo de discussão, os dois líderes concordaram em fazer o culto de Páscoa, apesar de Olaf estar tremendamente reticente.


No dia da Páscoa então, lá estavam o padre e a família de Halfdan, mas nada de Olaf e sua casa. Os dois começaram a se preocupar com o que poderiam acontecer, mas não se importaram e seguiram com o ritual naturalmente.


E quando estavam já indo embora, o rei da vila com todo o vilarejo atrás (inclusive Olaf) abriu a porta. O governante chamado Ivar, o vitorioso, (isso por nunca ter perdido uma batalha) enfurecido, ordena aos seus guardas que retirem todos dali à força.


O padre e Halfdan começam a argumentar que eles não poderiam fazer aquilo, que o rei tinha prometido não atacar os cristãos da aldeia. E Ivar respondeu da seguinte forma: “Verdade, mas desde que vocês não perturbassem a paz deste belo vilarejo”.


— “Estes homens ameaçaram a segurança de toda nossa vila. Todos nós, agora, estamos correndo risco de vida, por esses dois decidirem que o Deus deles é mais importante que a saúde de todos nós”.


Todos então se enfureceram e não escutaram os argumentos dos homens e diziam, por exemplo, que aquele próprio evento infringia a lei e que eles mesmos haviam cultuado o Deus deles durante o período de confinamento. Mas a raiva de todos, inflamada pelo rei, não permitia que eles ouvissem.


A família de Halfdan e o padre então foram levados para uma enorme fogueira e foram amarrados ali: Halfdan, sua esposa (que estava grávida, mas não sabia), seu filho mais velho, de 12 anos, e sua filha mais nova, de 8 anos, além do padre, obviamente.


O clérigo, em um último discurso, disse: “‘Porque aquele que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, e quem perder a sua vida por amor a mim, acha-la-á (Mateus 16:25)’. Não tenham medo da morte, ela é apenas o meio para encontrarmos nosso salvador. A morte é um presente para o cristão, pois ela nos tira desta vida de sofrimento e nos leva para o paraíso. Não temam!”


Então, com mais raiva ainda em seus corações, os aldeões colocaram fogo. E o padre, antes que as chamas os alcançassem, disse para a menina: “Não tenha medo, pequena. Em breve você conhecerá a verdadeira felicidade, estará banqueteando com o próprio Deus.”


E foi neste momento que 5 anjos desceram do céu e, antes que as chamas causassem alguma dor ou sofrimento ao padre e à família, eles os levaram para o céu. Sendo assim, eles não sentiram nada, o fogo não lhes tocou, apenas os aqueceu do frio do inverno.


E Olaf e sua família tiveram o fim mais triste de todos: as pessoas daquele vilarejo não se contentaram em matar apenas aqueles cinco. Para eles, a família de Olaf também era uma inimiga e qualquer cristão deveria morrer, senão eles seriam mortos pelos cristãos.


Então toda a família dele foi condenada a viver para sempre com os porcos. E Olaf “mão de madeira” teve todos os membros cortados, mas não foi morto. Passou o resto de seus dias longe de sua família, vivendo como mendigo e sendo motivo de chacota e escárnio na vila. As crianças diariamente brincavam de jogar excremento de cavalo nele, entre outras barbaridades. Infelizmente não tem mais um padre ali para cuidar dele como o clérigo fazia.


Fim.

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