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  • Jamal

A solução definitiva para o VAR




Quando começou a se cogitar o uso do Video Assistant Referee (o agora famoso VAR) no futebol, diversas pessoas depositaram todas as esperanças na tecnologia confiando que esta seria suficiente para corrigir todas as injustiças no futebol. Não é bem o que vem acontecendo, né? Vamos por partes.


É óbvio que houve afobação. A primeira tecnologia implementada havia sido a Goal-Line Technology para detectar se a bola ultrapassou por completo a linha do gol. Decidiram colocá-la em funcionamento após a polêmica envolvendo um gol de Frank Lampard não marcado pela arbitragem no confronto Inglaterra vs Alemanha em jogo válido pelas oitavas de final da Copa do Mundo de 2010. Essa tecnologia vem funcionando muito bem, embora em 2020 tenha falhado miseravelmente ao não detectar o gol do Sheffield United contra o Aston Villa na Premier League. Mas é claro que esse lance não invalida em nada a tecnologia e deve servir de base para aprimorá-la. Como ela fez relativo sucesso, os torcedores se emocionaram e acreditaram que o VAR seria igualmente uma solução simples e incrível para reparar decisões incorretas no campo.


O grande ponto é o seguinte: a Goal-Line technology é calcada em situações puramente objetivas. Não tem margem para interpretações. Se a bola ultrapassou a linha, é gol e não tem choro. O VAR, ao contrário, comporta a revisão de diversas situações subjetivas e é aí que reside o problema.


Vamos ao que interessa. Qual a solução? O primeiro passo é estabelecer a premissa correta e, para isso, é crucial entender o princípio da implementação da tecnologia no futebol.


Na minha visão, ninguém ainda compreendeu o princípio. Na verdade, duvido que pararam para pensar nisso. O VAR não surgiu para eliminar todos os problemas do futebol e sepultar qualquer tipo de reclamação ou choro por parte dos torcedores e dirigentes. Sua função é auxiliar e corrigir injustiças, falhas óbvias da arbitragem dentro de campo. Se você parte do princípio de que o VAR deveria levar o futebol à perfeição, será um eterno insatisfeito porque isso é simplesmente impossível dado o grau de subjetividade inerente às situações deste esporte.


Compreendido este princípio básico, deve-se estabelecer a premissa de que o uso do VAR seja condicionado a situações óbvias onde o erro é clamoroso. Caso contrário, a tecnologia irá criar mais problemas do que soluções. O futebol é um esporte dinâmico, completamente diferente do tênis e do futebol americano, e essas dezenas de paradas que vêm ocorrendo durante as partidas estragam o espetáculo.


O uso do VAR tem sido ruim no mundo inteiro, mas vou focar no nosso país porque foda-se o resto. Como aqui absolutamente ninguém compreende o princípio básico explicado acima, os responsáveis estão criando situações e mais situações, regras e mais regras, quando o melhor a se fazer seria simplificar tudo e reduzir a atuação do VAR. A explicação é simples e está intimamente ligada ao príncipio da redução de injustiças. Se é IMPOSSÍVEL eliminar todos os erros possíveis durante uma partida, por que raios estão dirigindo os esforços nesse sentido? Não seria mais lógico simplificar e reduzir o uso da tecnologia a situações onde o erro é óbvio? Citarei alguns exemplos para ilustrar o quadro.


Situação 1: o zagueiro dá um carrinho e atinge o atacante dentro da área, porém o juiz manda seguir. Imediatamente alguém na cabine do VAR deve ver o replay e verificar se houve o pênalti. Não precisa esperar parar o jogo e ficar olhando 10 minutos a porra da repetição. Viu o contato? Avise ao árbitro que houve o contato. A partir daí ele tem duas opções: ou ele diz que viu o contato porém entendeu que não foi faltoso, contato normal. Ou então ele diz que a visão estava encoberta e vai no vídeo rever a jogada. E isso tem que ser rápido. Na dúvida, segue o jogo. Se o árbitro viu claramente o lance e decidiu pela não marcação do pênalti, por que a cabine do VAR vai encher o saco mandando o cara revisar no vídeo?


Situação 2: impedimento milimétrico. Hoje quando acontece um impedimento muito controverso - "ajustado", como eles dizem - os caras ficam meia hora na cabine brincando de Paint com umas linhas retardadas e, no fim das contas, continua controverso. Nesse caso, olha o replay e dá pause no momento do passe. O impedimento é claro? Avisa o árbitro e pronto. Tá difícil ver? Segue a marcação de campo. Vai ter choro do mesmo jeito. O que não pode é o jogo ficar 10 minutos parado pra vagabundo incorporar engenheiro.


Inclusive, nessa situação 2, entra em cena o princípio da vantagem. A marcação do impedimento significa o que? Anular a jogada pois o atacante tirou vantagem de sua posição avançada no campo. Agora eu pergunto: que vantagem há no atacante estar posicionado 2 milímetros à frente do penúltimo homem?


Ainda sobre o princípio da vantagem, seria muito interessante pegar emprestado um entendimento aplicado em uma das regras do futebol americano. Há uma falta chamada Defensive Pass Interference que ocorre quando o defensor atrapalha o recebedor, via contato físico, a tentar receber a bola após esta já ter sido lançada pelo Quarterback. É uma das piores faltas a se cometer, pois a próxima jogada é iniciada pelo ataque onde houve o contato. Então o ataque pode ganhar tranquilamente umas 50 jardas a partir dessa penalidade. Porém, há uma exceção em que os árbitros deixam de marcá-la: quando eles entendem que a bola era inalcançável. Ou seja: o defensor não levou vantagem em atrapalhar o recebedor porque o passe foi um lixo e jamais seria recebido. Justo, não?


Eu sugiro trazer esse princípio ao futebol na aplicação da falta mais prejudicial que temos: a penalidade máxima, o famoso pênalti. Com o VAR, vem se criando uma tendência de chamar o árbitro pra rever os "agarra-agarra" dentro da área e isso tem resultado em pênaltis. O problema é quando o batedor de falta ou escanteio cruza a bola lá na PQP, o que é muito comum aqui entre nossos pernas de pau, e o juiz marca o pênalti. Houve a falta? Sim. O zagueiro tirou vantagem? Obviamente não. Acredito que a essa altura você já tenha entendido meu ponto.


Há um outro princípio bem simples aplicado em situações onde há revisão de vídeo no futebol americano, o qual eu já mencionei de passagem neste artigo e que DEVE ser trazido ao futebol: se a imagem não é clara e permanece a dúvida, segue a marcação de campo. A diferença é que o árbitro no futebol americano sempre é chamado. Como o futebol é mais dinâmico, esse bom senso deve ser utilizado pelos integrantes da cabine do VAR.


Em suma, para que consigamos atingir a aplicação saudável do VAR é crucial compreendermos que erros continuarão acontecendo dentro de campo e por isso é melhor reduzir o uso e simplificar as regras. Além disso, deve-se levar sempre em consideração o princípio da vantagem e refiná-lo tomando emprestado o entendimento sedimentado no futebol americano.


Um último ponto importante é a capacitação dos árbitros. E não digo nem a questão do reconhecimento como profissão (que é algo óbvio e já deveria ter sido feito) e muito menos cursinho na CBF (vale menos que meu diploma de Direito). Tem que colocar esses ineptos para jogar pelada toda semana. Esses imbecis não entendem o que é falta e o que não é e param o jogo toda vez que alguém cai no gramado. Já passou da hora dessa medida ser implementada.


O mau uso do VAR dividiu o público entre defensores e haters da tecnologia. E aí eu lanço a pergunta: daria certo colocar um chimpanzé para pilotar um F-22?

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