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A verdadeira doutrina política brasileira


Por Anthony Neto


Vou lhe contar um fato sobre mim que raramente exponho, qual seja, eu já quis ser historiador da arte; na realidade trata-se de uma atividade que exerço sem ter recebido a formação técnica na universidade, mas que o empenho pessoal acabou me inserindo nos estudos mais avançados da área, e com o passar do tempo consegui cultivar alguns contatos em galerias importantes da Itália, França, Alemanha e Holanda.


Estou reportando isso, porque o historiador da arte, antes de amante da arte, precisa ser estudioso da História, não a história esquemática que a prática vulgar e moderna acabou produzindo.


Não. Não é dessa história que ele deve ser conhecedor.


Mas sim da História nas suas minúcias, nos detalhes mais inusitados, e de certa maneira despretensiosos, porque muitas vezes são nesses detalhes que parte significativa da vida cotidiana se passava, sem que as pessoas se dessem conta que um dia deixariam de existir, e história se tornariam, assim como cada um de nós.


Ocorre que no Brasil parece haver uma anomalia social das mais graves, por aqui, parece que nem sequer os fatos mais vultosos e graves chamam a atenção, e a mentira tornada verdade passa a ser o que se discute, e nesse sentido, parece que já antecipamos parte importante do que o “Partido” faz com o passado, na incontornável obra 1984.


Refiro-me ao fato que a única doutrina política verdadeiramente brasileira é a do passapanismo. Atinge estas terras desde antes da Independência, se agrava no período Imperial, e como diria Marx (que tem algumas frases realmente boas), se repete como farsa no período das muitas “repúblicas” que sucederam nessas terras. Por que citei o fato de ter quisto ser historiador da arte?


Ora, desde muito cedo li textos da historiografia brasileira e europeia que poucas pessoas leram, e quando se aprende quais são os “métodos” adequados para se estudar um objeto histórico, aí passa-se a perceber como modernamente não têm sido postas questões que realmente valham a pena serem investigadas. O passapanismo é a mais importante quando penso nas instabilidades políticas do país.


Qual a relação do passapanismo com os conchavos das elites? Como isso impedira a Inconfidência Mineira? Por que essa doutrina não teve espaço com uma figura Bonifácio? Ou ainda, por que, a despeito de todo dinheiro gasto na vasta máquina de propaganda, essa doutrina não consegue fabricar os seus ídolos, mas sempre um líder carismático passa a dela fazer uso para manutenção no poder?


Essas são inquietações intelectuais que a academia brasileira passa bem longe. Contudo, resolvi escrever esse texto para falar de um efeito social que tenho percebido, e de certa maneira tem me deixado bastante reflexivo sobre as implicações futuras.


Na atualidade, todos sabem, há uma verdadeira torrente de informações por todos os lados, uma Blitzkrieg informacional de uso contínuo. Não há cérebro que resista a isso, e por isso mesmo as doenças mentais têm se tornado as grandes companheiras desses tempos.


Junto a essa torrente, um fato social se consolidou no Ocidente e em parte significativa do Oriente. Viver em sociedade tornou-se mais complexo, extremamente mais complexo. Não por conta das obrigações civis, mas sim porque todos os elementos da vida sofreram complexificações, desde uma simples ida na padaria (com comandas com códigos de barras e afins), ao sistema de votação que lerá as nossas digitais para que possamos exercer o tal “direito”, passando ainda pela intrincada rede de catracas das linhas de trem e metrô em cidades como São Paulo ou Rio de Janeiro.


Hoje já não se pode viver em sociedade sem saber ler – ou se vive bem mal, e não sei se você leitor já teve a oportunidade de ajudar um analfabeto na situação na qual ele estivesse precisando que alguém lhe diga o nome da linha de ônibus que está aproximando-se do ponto, é uma situação estranha, muito estranha.


Lembro-me do dia em que isso aconteceu comigo, com um nível de detalhe que me assombra, porque foi uma bofetada na minha cara para não esquecer que o Brasil é um país injusto, e que muito provavelmente o analfabetismo daquela senhora se devia à opulência de algumas criaturas dos pântanos políticos espalhados por aí.


Essa complexidade que foi imposta a vida, para além dos seus problemas contingentes, nos colocou por inteiro às necessidades novas, de mergulhar o nosso viver nelas. E o resultado estamos vendo.


Nunca foi tão evidente que as pessoas estão mal, mesmo quando se dizem bem, porque suas bocas falam de realidades inacessíveis à nossa experiência sensorial, que mostra diuturnamente uma sociedade doente, com uma debilidade que assusta em determinados momentos, e noutros instiga a piedade por desconhecidos.


Esse mergulho que fizemos tanto voluntária quanto involuntariamente, nos colocou à disposição de ferramentas de propaganda jamais antes imaginadas noutros tempos. Imagina o que teria sido o Império Romano com um ferramental de propaganda como o desenvolvido nos séculos XX e XXI. Minha mente dói ao imaginar as possibilidades.

E qual o papel do passanismo nisso tudo?


Pois bem, a doutrina passapanista tem longuíssima história, basta você leitor buscar ver como eram distribuídos os títulos de posse no período colonial, sempre havia intenções ocultas nos pedidos, relacionadas a complexa política do período, no qual interesses locais e da metrópole se misturavam numa intrincada rede de interesses, nem de longe confessáveis.


Passapanismo e bajulação andam juntos, em certas situações quase se confundem. Mas o passapanismo é mais elaborado, porque ele envolve um pretenso processo de racionalização. Alguns chamariam de viés político, contudo não é, é outra coisa.


Quando chegamos ao turbulento período da Independência, alguns traços da atitude política nacional vão receber seus contornos mais institucionais, e o mais abjeto deles é o costume político de não planejar, ou melhor, apenas planejar a não perda de poder político por parte das oligarquias plutocratas que administram essas terras há bastante tempo.


Por aqui, os eventos de “união nacional” ou “concertação nacional” sempre foram farsa, em certas situações as pessoas sabiam de antemão que eram farsas, e com péssimos atores, diga-se de passagem. Houve uma “concertação nacional” quando da Independência, que não durou nem um ano sequer, haja visto que ao se tornarem de conhecimento tácito das oligarquias de então, os planos audaciosos e bastante racionais de José Bonifácio para os índios bravos e para os escravos, era insustentável a sua manutenção no poder, mas quantos de nós poderemos chegado fim de nossos dias, se estivermos nesses dias, sofrendo processo informe e abjeto como o que nosso Patriarca sofrera, escrever ao juiz de paz o que ele escreveu ?


Caso não tenha entendido a referência que estou fazendo, leia [1].


Em seguida o passapanismo deu suas caras, ao ajudar o Imperador a livrar-se de Bonifácio, e depois fora ele próprio descartado pelos que antes lhe passavam o pano. No caso do Segundo Imperador, a história é ainda mais triste, porque por mais que Dom Pedro II fosse um homem de imensa estatura moral, sua fraqueza política em assumir de forma mais dura o poder e fazer as reformas necessárias até hoje, fez com que alguém da sua grandeza, tivesse que ter morrido no exílio após um abjeto golpe perpetrado por passapanistas de Sua Alteza Real.


Quando chegamos na fase dos golpes, os passapanistas sofreram golpes oriundos de outros passapanistas. Foi assim na ditadura da espada, onde golpista sofreu golpe de outro golpista, ainda mais vil, foi assim até a ditadura Vargas, onde o passananismo passa a ter nomes distintos a depender do tempo. Há o getulismo, presente até hoje, pois o eterno presidenciável Ciro Gomes [2] no seu livro mais recente Projeto Nacional: O dever da esperança (2020, Ed. Leya) não poupa elogios ao maior ditador da história nacional, ele tenta disfarçar os seus elogios com “críticas” distantes e evasivas, o que só reforça a admiração que ele tem por um ditador, um tirano da pior espécie que foi Getúlio Vargas.

Da Ditadura Vargas vem o getulismo, ou varguismo, que se sucede à veneração passapanista para com o construtor de Brasília, aquele que não deveria ser nomeado, e que conta uma história completamente distorcida na sua obra Porque Construí Brasília, uma obra que reflete muito do vício nacional de amor à mentira, as distorções. JK e seu governo explicam muito do porque tivemos que passar pelo pavoroso Regime Militar que terminou por destruir o já esquálido sistema político do século XX.


O passapanismo é uma doença social, porque além de acometer os viventes de mundos completamente fantasiosos, ajudam a inviabilizar as respostas sociais contundentes às agressões a ordem natural da sociedade. Sinceramente, você realmente não acha que já estamos num momento extremamente sombrio da Humanidade, onde burocratas que não conhecemos e que não se importam conosco, tomam decisões que tutelam todas as esferas das nossas vidas, repito, todas! Nenhum senhor feudal, este período tão achincalhado da História, concentrava tanto poder.


Essa imbecilidade é que impede as pessoas de constatarem de modo mais direto e objetivo que nós já estamos vivendo numa realidade paralela, na qual somos obrigados a não falar a verdade, ou optarmos pelo silêncio, sob pena de perdermos os empregos, sermos tidos como párias sociais, tudo isso para dizer que o errado é certo, e o certo é errado.


Isso precisa acabar, afinal de contas quanto tempo acha que vai demorar para começarem a eliminação física em escala industrial? Escrevo este texto sob efeito de uma sensação estranha de perplexidade misturada com um certo receio de adquirir “gonorreia eletrônica” (tomando emprestada a expressão de Evandro Pontes, salvo melhor juízo, caso seja de outrem). Há pessoas que espalham uma teoria absolutamente ridícula de que o novo presidente dos Estados Unidos será definido até um tal 4 de março e toda uma história que se assemelha aqueles filmes com péssimos efeitos especiais, misturado a um roteiro pior que amador. E eu que achava que era monopólio da esquerda o uso compulsivo de entorpecentes. Na tal “direita”, seja lá o que ela for, também há os seus drogados, e o passapanismo é talvez uma das principais formas de fuga da realidade.


Passapanismo entorpece o juízo, deturpa a visão, tornando todas as experiências da realidade uma espécie de experimento do gato de Schrödinger constante, e não apenas para a compreensão do princípio da incerteza da Mecânica Quântica. Nesse ponto, precisamos dizer em alto e bom som, que política não é um joguete de sorte, muito pelo contrário, esse elemento do alea jacta est é acessório, acidental, nunca, jamais o essencial. Só um imbecil acha que César diria tal frase e confrontaria a elite romana sem saber como lidar com essa mesma elite, ou mesmo que Leônidas tomaria a decisão que tomou frente as tropas de Xerxes, se não soubesse que os gregos uniriam-se contra o invasor persa.


Depois tivemos o lacerdismo, janismo, brizolismo, sarneysismo (e suas fiscais), depois o caça marajás, até o lulismo, e ensaiou-se um dilmismo (esse não deu muito certo, porque a mulher sapiens, é sapiens demais). Não esqueçamos que houve a tentativa de algo assim com FHC, mas a sua própria personalidade avessa ao Brasil, impediu que tal movimento se fortalecesse, ficando apenas uma espécie de adoração residual à sua figura, por parte dos que muito lucraram e lucram com a concentração dos serviços bancários, bem como os estranhos – para dizer o mínimo – processos de fechamento dos bancos estaduais.


Veja bem, até mesmo com uma figura opaca, e absolutamente sem vida como Temer houve tentativa de passapanismo por parte dos que viam em seu governo, determinadas agendas deletérias dos interesses do povo avançarem. Não nos esqueçamos que o PDT está a pleno vapor na sua campanha de cirismo, é algo que está evidente, e mostra como a esquerda não tem o menor pudor de instrumentalizar vícios sociais e políticos quando isso a favorece na tomada de poder. O mais interessante desses últimos é que nem sequer leem o livro do seu ídolo, o que evidencia ainda mais o caráter absolutamente entorpecedor desse fenômeno.


O que tem acontecido é algo completamente diferente, uma espécie de “ grito gi-iiiiiii” que o narrador descreve em 1984, uma hipnose coletiva tal qual a dos Minutos do Ódio corriqueiro no romance. A ideia estapafúrdia de dar cobertura a todas as medidas ridículas tomadas pelo governo federal, mostra como os dados amostrais que existem sobre a inteligência no Brasil são generosos. A situação é muito mais drástica do que se imaginava.


Em meio a essa praga sino-comunista, o presidente decide inaugurar uma exposição das roupas que usou na sua posse, além de cafona, extremamente cafona, evidencia o quão desconectado da realidade o presidente se colocou. O Bolsonaro da reunião ministerial não existe mais, foi aposentado. E lá estão os passapanistas, os crentes de que há um plano.


O que fica cada dia mais evidente é que não há plano, há voluntarismo, e com ele, muito, muito mesmo, amadorismo. A começar pela falta de pudor em se apossar do trabalho alheio, de distorcer os fatos, porque se acostumou a achar que não pode ser inquerido. Agora a conta começa a chegar.


Escolheu-se a pior classe brasileira, os militares, para formar o governo, e temos visto cotidianamente o péssimo ensino que tem sido dado nas tais “academias militares”, algo que passa pelo presidente e seu inacreditável ministro da saúde que demonstrou conhecimentos assombrosos de geografia. Uma das principais regras de uma pessoa minimamente instruída é “não fale sobre o que não conhece”, ou ainda, “diga que não sabe a resposta, ao ser questionado de algo que não sabe”. Os milicos brasileiros são precisamente o oposto disso, quanto menos eles sabem de um assunto, mais adoram se meter e ter opiniões peremptórias, com a mesma empáfia que a esquerda usa para falar das questões da desigualdade e pobreza, mesmo tendo sido eles os maiores assassinos da Terra.


Mas isso não é o pior dessa maldita doutrina política. O que para mim é realmente grave, são as deturpações às quais as pessoas estão se submetendo para jamais criticar o suposto incriticável, sob argumentos ridículos como “ele precisa do nosso suporte, pois querem destruí-lo” [3] as pessoas estão se auto enganando quanto aos rumos do governo, e principalmente de suas próprias vidas, seja porque política é superestimada, seja porque esse governo não moverá uma palha na direção da proteção dos interesses dos mais fracos.


Uma série de medidas do que há de pior no ferramental econômico foram usadas para lidar com essa maldita praga, e quem pagará o alto preço dessas medidas são os mesmos pobres que ajudaram a inflar números de pesquisas de apoio popular, que quando são vantajosas, faz-se uso político e quando não o são “é o Datafolha”. A verdade não admite tibieza moral, e nisto esse governo falho falha desde o primeiro dia, e as fraturas desse amontoado de gente que resolveu melhorar o orçamento doméstico às custas do empobrecimento da Nação, ficam cada dia mais a mostra.


O que o passapanismo faz é tornar ainda mais difícil encontrar soluções para os graves problemas que vão se avolumando, e os sacerdotes do passapanismo têm lucrado, e muito, as custas da exasperação de milhões de pessoas, e do futuro de uma Nação.

E novamente, isso diz muito sobre as qualidades humanas hoje em voga no Brasil.

Por isso eu lhe peço, não seja passapanista, pois isso entorpece a sua mente, envenena sua alma e ainda ajuda a terminar de nos colocar nos braços do demônio chamado Partido Comunista Chinês.



Notas e referências

[1] Nosso Patriarca, por conta de muito “amor-próprio” alheio, para usar a expressão dele, sofrera no Brasil muita, muita inveja, afinal de contas ele era, com pequeniníssima margem de erro, a pessoa mais culta, educada e com vivência de Europa em solo brasileiro nos seus dias. Esse dado, aliado ao seu temperamento de um senhor que não tinha tempo para lidar com indivíduos de baixa estatura moral, o fizeram acumular uma quantidade extravagante de inimigos políticos, e pessoais também. No capítulo XIV do livro de Otávio Tarquínio de Souza de título História dos Fundadores do Império do Brasil – José Bonifácio – volume 1, na página 292 do livro você encontrará a carta a qual fiz referência, também há o desfecho da vida do maior paulista de todos os tempos, sempre que penso na nojeira que é a ilha da fantasia chamada Brasília, me vem a mente que quero chegar a velhice e poder ter a mesma altivez que nosso Patriarca teve. Você pode encontrar o livro no link: https://www2.senado.leg.br/bdsf/handle/id/528945

[2] Ciro Gomes se acha uma espécie de faz tudo da política, porque ele atribui a si a criação do Real, estabilização de contas públicas, sustentação a governos múltiplos, uma espécie de autoproclamado titã da política nacional. As muitas entrevistas que ele dá mostra o tipo de enviesamento mental ao qual parte da esquerda brasileira se submete.

[3] Realmente querem destruí-lo, isso é absolutamente óbvio dado que tentaram, e quase conseguiram matá-lo; ocorre que não posso deixar de externar a minha perplexidade quanto a certas atitudes esdrúxulas do presidente, como afirmar que há os tais mandantes – e realmente os indícios vão todos nessa direção – e não ter posto um fim nessa história, ficar usando essa situação sempre que parece conveniente não é algo aceitável, principalmente vindo da parte de quem se coloca num pedestal. E as mais variadas teorias que usam para justificar essa atitude são apenas uma amostra da doutrina passapanista. Situação similar ocorre na questão da tal “fraude eleitoral”, ora, se o presidente tem provas, que as mostre, se não as tem, que fique calado, ou lide com a questão num nível retórico mais sofisticado. Essas afirmações deslocadas, e não lastreadas em provas, o tornam ainda mais alvo.

Antony Neto antonyneto@aol.com

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