• Davi Eler

Amor(te)



— “Sua filha tem apenas mais algumas horas de vida” disse o médico.

Minha esposa desmoronou em lágrimas no meu ombro e eu me mantive firme para dar suporte a ela, mas por dentro estava igual. Minha filha tinha apenas 5 anos, seu nome era Catarina, ela tinha cabelos loiros e lisos como a minha mãe e olhos azuis como eu. Sua pele parecia de porcelana, poderiam facilmente confundi-la com uma boneca de tão linda.

Eu não aguentava mais ficar naquele quarto, minha mulher segurava a mão da filha, as duas choravam juntas. Eu estava em pé no canto da sala, apenas observando a cena, mantendo a distância para não transpassar o domínio que a angústia e tristeza exerciam sobre mim.


Decidi sair dali antes de começar a me afogar em minhas próprias lágrimas e aproveitei para ir fumar um cigarro no terraço do hospital. Chegando lá percebi que estava sozinho, então peguei a cartela de cigarros no bolso do peito na minha camisa social. Bati com ela duas vezes na minha mão e retirei um cigarro, minhas mãos tremiam, meus lábios estavam frios e secos. Retirei o isqueiro do bolso esquerdo da minha calça. Minhas mãos suavam frio e ainda estavam tremendo, o que dificultou que eu o acendesse, mas depois da terceira tentativa eu consegui. Dei uma tragada bem longa e profunda, joguei toda aquela fumaça pro meu pulmão e soltei o ar pelo nariz.


Sentei-me em um banco que tinha por ali, parecido com os que encontramos nas praças. Abri meus braços no encosto e minhas pernas, fiquei bem relaxado. Reclinei minha cabeça para trás, olhando para o céu e disse:


— “Quem merecia morrer era eu. Antes de minha filha ser diagnosticada com câncer eu traia minha esposa, eu mentia para todos, enganava e não dava atenção para minha família. A morte é uma idiota, burra e injusta. Sua existência é um insulto a tudo de bom na Terra. Eu te odeio”.


“Em primeiro lugar, eu sou homem. Segundo, não ligo se você me odeia. E terceiro, não queira me ensinar a fazer o meu trabalho”, disse uma estranha voz


Nesse momento eu quase sujei minhas calças. Quando olhei pro meu lado direito, vi um moleque de uns 20 anos. Cabelo escuro como a noite, assim como seus olhos, usava uma calca de couro preta, uma camisa preta e sem estampa, além de um sobretudo também negro.


Ele olhava pra mim com desprezo, como se eu fosse um verme que não tinha o direito de questioná-lo — e talvez tivesse razão. Afinal se ele é realmente a morte, quem sou eu para dizer o oposto? Mas eu não enxerguei assim na hora.


“Você é a morte?”, falei com um olhar de surpresa e espanto, ainda não acreditando no que via.


— “Não, eu sou um astro do rock. Claro que eu sou a morte, seu idiota. Apesar de que eu poderia muito bem ser um astro do rock”, retrucou o garoto com um sorriso arrogante e em tom sarcástico.


Concertei-me na cadeira, virei para ele de cabeça levantada e com raiva eu disse: “Então que bom que está aqui, tenho algumas para lhe dizer”.


— “Então desembucha logo, seu covarde!”, disse o moleque destilando desprezo pela minha postura arrogante.


— “Por onde você passa causa tristeza, dor e sofrimento. Você não consegue trazer nada de bom, todos lhe temem, ninguém gosta de você. Aqueles desesperados o bastante para optarem por você, em vez da vida, só o fazem por causa da ilusão de que será uma libertação. Mas a verdade é que você não sabe fazer nada de bom, é injusto, arrogante, despreza a bondade. As pessoas boas morrem, enquanto as ruins vivem suas vidas tranquilamente. Não há nada no mundo que eu odeie tanto quanto você. Enquanto morte, você sempre será rejeitado pela humanidade. Todos sempre lhe odiaram por você não saber fazer nada além de trazer dor, tristeza, sofrimento e medo”, falei gesticulando e em tom raivoso.


Ele abaixou a cabeça, mas quando a levantou, estava sorrindo e então começou a gargalhar:


— “Você não entendeu nada. A vida só tem sentido com a morte. Sem mim, os conceitos de bem, justiça e alegria não fariam o menor sentido. Pra quê ter filhos? Pra quê ajuntar riquezas? Pra quê me casar? Pra quê ser bonzinho? As pessoas só são boas por medo da morte. Todos acham que o medo é algo ruim, mas ele na verdade é o que move os humanos. Você acha que dor, sofrimento e tristeza são coisas negativas, e de fato podem parecer ser se você as enxerga de um prisma minúsculo. Mas são essas coisas que fazem vocês serem bons, são essas coisas que os molda. Afinal, você acha que somos um corpo que ganhou alma, ou uma alma que ganhou um corpo? A resposta para esta pergunta é definitiva para o entendimento de todo o problema”.


Eu olhava perplexo. Se ele era a morte, até que fazia sentido ele nos conhecer tanto assim. Mas eu não desistiria tão fácil dessa discussão.

“Não, você está errado. Minha filha está, agora, há poucas horas da morte e eu não sinto nada de bom. Só sinto ódio por você, medo dela me deixar e tristeza, dor e sofrimento. Isso é tudo que você causa, não há NENHUMA consequência boa em seus atos”!


Mais uma vez ele me olhou e riu. Aquela atitude já estava me deixando irritado a ponto de quase bater naquele moleque arrogante.


— “Tem certeza disso, adúltero? Quanto tempo você passava com sua família antes? Quanto tempo faz que você nem pensa mais em trair sua esposa? Pelo contrário, você reaprendeu a amá-la. O medo, a dor, o sofrimento e a tristeza foram necessários para que você se tornasse alguém melhor. Eu posso não ser o professor mais gentil, mas sou o mais eficiente. Podem discordar dos meus métodos, mas não dos meus resultados. Até pelo motivo de os fins justificarem os meios”.


— “Mas você está se esquecendo totalmente do amor. Um professor não quer só ensinar seu aluno, ele o ama, quer que ele cresça, não na base da porrada, mas do conhecimento”.


— “Aí você vai ter que conversar com ela”, ele disse apontando para o outro extremo do banco.


“Olá!”, disse uma menina de cabelo ruivos como as labaredas do fogo e de olhos caramelados, com um sorriso muito simpático no rosto.


Ela parecia ter uns 20 anos também. Usava um vestido vermelho, como de uma princesa, e um salto também vermelho. Sentava-se como uma rainha, totalmente diferente do outro. Ela tinha uma postura elegante e gentil, mas sua fisionomia era ridiculamente igual à da morte.


“Quem é você?”, eu disse ainda embasbacado por sua beleza.


“Eu sou o amor. Irmã gêmea da morte. Somos as duas faces de uma mesma moeda”.


— “E você concorda com o que esse babaca disse”?


Ela assentiu com a cabeça e disse:


— “Apesar de estar tão triste quanto você pela morte de sua filha. As pessoas não entendem que a morte é amorosa e o amor é mortal. Quando ele lhe ensina usando o sofrimento, é um ato de amor. Ser amoroso não é passar a mão na cabeça, é ensinar da forma como seu aluno melhor vai entender".


— “Hum... Isso é ridículo. A morte só traz coisas ruins e você só traz coisas boas. O amor nos deixa felizes, com um sorriso bobo no rosto e dispostos a dar nossa vida no lugar de quem amamos. Já a morte produz egoísmo. Para nos salvar dela, somos capazes de quem colocar um inocente para morrer em nosso lugar. Tem um exemplo muito famoso disso na história, inclusive”.


A garota colocou a mão no meu rosto — seu toque era gentil e delicado — e me virou pra ela. Com aquele olhar de ternura me disse:


— “As coisas não são binárias. Quando vemos a morte diante de nossos olhos, entendemos quem nós realmente amamos e se deveríamos estar amando aquilo. E quando vemos o amor diante de nossos olhos, ficamos cegos para tudo ao nosso redor, o que pode ser fatal. O amor é egoísta, mas também caridoso. A morte é caridosa, mas também egoísta. Tudo depende da fonte dos seus sentimentos, e qual o objeto deles”.


E o garoto, a fim de completar a fala dela, disse:


— “Vocês sempre querem colocar a culpa em nós, entidades abstratas, em vez de a assumirem. Nós só fazemos o nosso trabalho, nada mais. Então, que tal começar a entender que a responsabilidade das coisas ruins do mundo é de vocês e não nossa”?

— "E nesse momento eles desapareceram, como num passe de mágica. Da mesma forma que vieram, eles se foram. E foi por isso que eu demorei a voltar pro quarto filha. Mas agora o papai já está de volta. E eu não vou a lugar algum. Eu te amo mais que tudo nesse mundo. Você e sua mãe são os meus maiores tesouros e eu nunca mais vou destratar vocês. E assim que você sair daqui, vamos ser uma daquelas famílias felizes dos filmes na TV”, eu disse, já de volta ao quarto da minha filha e ainda surpreso com o que me aconteceu.

Obs.: milhares de ideias poderiam ser passadas usando as abstrações "Morte" e "Amor". As que eu passei não simbolizam o que eu penso do assunto. Apenas contei uma história da qual eu tiro lições importantes, e cabe ao leitor tirar as suas também.