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Ano Novo

Por Estro


Indiferença, acho que essa palavra define bem o sentimento que, em névoas, rodava em minha mente.


Nem antes, durante ou depois se passou um fio de inspiração ou renovação, nenhuma inundação de sensações, vibrações latentes, superstições convenientes, abraços acalorados de momentos raros. Achei, erroneamente, que seria algo breve e à caminho da praia, a cada passo, o sentimento se provava cristalino e imutável. Apesar de tudo o céu estava belo, distrai-me contemplando aquela noite tão límpida, e até a constelação de Andrômeda que sempre fora difícil de observar a olho nu estava nítida e repousava logo abaixo da lua, o sol Sirius radiava uma luz levemente azul e vibrante constituindo a constelação de Canis Major, porém uma música extremamente alta cortou todo o raciocínio e antes que percebesse, quando me dei conta, eu já estava na praia.


Infelizmente, nem os fogos rasgando os céus sobre a areia, no meio de incontáveis gritos, com tanta intensidade fugaz conseguiram me convencer a sair do reflexivo, apesar de ter-me inclinado a bochecha de leve diante de tal chuva. De forma alguma conseguia conectar-me à aquela vibração latente em minha volta, sobretudo depois que me veio a impressão de felicidade fingida, por mais que tal devaneio em nada representasse a realidade, e que participava de uma peça de teatro onde era conveniente agir de tal maneira, como se fosse um cacoete pouco discreto, e eu estivesse agindo fora do papel.


Olhares rodeavam-me como se percebessem minha apática reação e fitavam-me com certo desprezo por não contribuir com suas expectativas tão ofuscantes, mas eu não o fazia por birra ou rebeldia infantil, o fazia por falta de vontade, para mim não passava de um dia comum com a diferença de ser, de certa forma, mais cansativo pela constante alternância entre a obrigação de fingir e corresponder à animosidades dos parentes e minha sincera indiferença.


Nada dali se aproveitou, nem o álcool fora capaz de alegrar-me, aquelas duas horas anteriores até a chegada da meia noite mais pareciam a eternidade encarnada num momento infeliz e com o tempo a festividade também já se assemelhava à uma criança exibindo-me algo que me faltara.


Marcado pela apatia, depois de dez minutos de queima de fogos me retirei de lá. Poste a poste o significado e valor de tudo em meu horizonte se dissolvia diante de mim.

A sensação de deslocamento em relação a tantos sorrisos fez-me pender a cabeça, desajeitar a postura, rastejar os pés. Mente distante vagava rodeando o desinteresse que já havia se alojado e criado raízes e o verniz derramado na íris pela indiferença tornava tudo ao redor em tons de sépia.


Ao voltar para casa sem respostas para tal desamparo e melancolia tenho o estalo do primeiro arrependimento do ano: Ter me deixado inundar pelos pontos brancos e fúteis a minha volta à aqueles acima de mim que sempre me faziam companhia em momentos de caótica agonia. A indiferença evaporou-se dando lugar a um sentimento de ingratidão inominável, talvez, se eu não fosse tão tolo e amargo aquele límpido e raro céu, o qual ignorei sem perceber, poderia gerar-me uma boa lembrança que agora esforço nenhum me traria essa chance de volta.


Os fogos ainda estalam abafados ao longe e suas luzes às vezes iluminam brevemente meu quarto, ouvem-se risadas felizes e joviais por todos os lados, música, cantorias e estouros de champagne pela rua e eu, em meu breve relato, enquanto escrevo, apenas rezo para que eu não seja mais tão tolo.