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Arlequins e Colombinas no Planalto Central



Por Zaraba Oliveira


Brasília é uma cidade de máscara. Sempre foi. Já nasceu assim pela obsessão de um sonho do distanciamento social entre quem governa e os que são governados. A única coisa que o político gosta do povo é o voto, objeto que incita a sua volúpia de poder e para o qual investe todas as suas forças e economias, mesmo que isto o afaste dos filhos e de outros valores que finge cultivar. Depois de aclamado pelo escrutínio seus objetivos se voltam para repor com multiplicidade o que gastou, mandando às favas suas promessas de pé-de-ouvido a eleitores e amigos de ocasião vocacionados ao parasitismo. A cara lambida, o sorriso dos santinhos e a aparições nas telas, com gestos e empostação vocal treinados por especialistas na arte do engano, são suas máscaras usuais a serem substituídas numa próxima eleição. Até lá, todo o distanciamento possível do povo é calculado e executado com presteza de um maestro de orquestra e o ser camaleônico só aparece para os apupos de cortes de fitas tão costumeiros desta claque.


O mineiro Juscelino Kubitschek, o JK, encampou e encarnou uma antiga ideia de mudar a capital para o Planalto Central cheio de argumentos positivistas, do progresso de uma região desabitada à segurança nacional, e, como não poderia deixar de ser, alimentado por um sonho visionário de um Dom Bosco do qual roubaram uma citação para sinetar com áurea sobrenatural o que deveria ser feito, a nova capital, milhões de dinheiro do contribuinte numa máquina infernal de corrupção. Longe da profecia que historiadores e panfletários insistem em acoplar Brasília, a cidade e região são a meca do ecumenismo, da diversidade de seitas, de uma falsa espiritualidade, uma cornucópia. Há quem afirme que sua planta se assemelha a outra do antigo Egito, emanação de puro paganismo e esoterismo satânico.


No fundo, sabemos hoje, o objetivo de JK era consumar o velho sonho do distanciamento dos políticos das manifestações populares contra possíveis medidas autoritárias e tiranas de governantes. Nesse sentido, Lúcio Costa e Oscar Niemayer, do papel à obra, traduziram com excelência o sonho dos políticos e criaram uma cidade de avenidas e esplanada espaçosas que desanimam conhecê-la a pé. Os edifícios parecem jogos de Lego, caixotes empoleirados, cujas linhas arquitetônicas inspiram um desassossego na alma, uma frieza cortante de cimitarra, além da maioria desafiar a funcionalidade, coisa de comunista mesmo, de ateu, de gente que odeia o aconchego humano, que odeia o belo. Tudo com a complacência dos militares “inimigos do comunismo”. Tanto que a catedral militar, no Eixo Monumental, é da cabeça do ateu e comunista Niemayer, uma nave soturna que não anima o fiel a mirar o transcendente, o alto, rebaixa o sublime da aspiração de qualquer católico.


Em 21 abril 1960, data coincidente de falso herói mineiro, Tiradentes, a quimera de JK foi inaugurada com pompa e muita poeira. E hoje, próximo ao local, uma estátua do fundador colocada como um martelo numa foice comunista paira nas alturas, como se olhasse para o Palácio do Planalto que ele ocupou em vida, uma atalaia stalinista assombrando a massa de gente obtusa e passiva. É seu mausoléu, lembrança até não sei quando do tempo que o distanciamento social começou a vigorar na República natipodre.


A artificialidade é a marca da cidade. Não por acaso, seu cartão postal, o Lago Paranoá, nasceu do papel. A população residente nas linhas da planta do avião parece impregnada por essa qualidade que desandou de uma caixa de Pandora, alimenta-se dela e arroteia ainda por cima. São chefes, chefetes e subalternos que, mesmo na sua insignificância, ostentam uma pose de superioridade aos comuns dos mortais, aos incautos visitantes. Essa gente cresceu e vive sob ordens, em suma, obedecer é seu significado de uma vida pueril que se desmancha no ar seco da cidade. É uma escada de mandos e desmandos. Tudo artificial, inclusive a política cujos personagens estão muito longe dos ideais dessa arte ao ponto de altos postos serem ocupados por analfabetos funcionais, porém experts em corrupção. Sem máscaras. A Justiça, simbolizada por uma cortesã de vendas, iluminou-se tanto que vê através do pano, persegue, tiraniza e depois, sem as togas do Drácula, seus altos membros se lambuzam de lagosta, lagostim e todo tipo de iguarias em reuniões de invejar os adeptos de Dionísio. Festas para todos os gostos e desgostos.


A prova mais cabal dessa assertiva se verifica na fraude sanitária em curso na qual as restrições, o atropelo de direitos dos mais naturais e fundamentais, caíram como luva na população que, longe de obstar, aceitou-as a tal ponto de defendê-las indefectivelmente. As máscaras são objetos essenciais e de uso geral: nos coopers, nas igrejas, dentro do carro, nos passeios de papais e mamães de pets e em qualquer lugar. Não incomum encontrar cão e dono absurdamente mascarados. Cumpre-se todas as regras com uma obediência de monge: vacinação, distanciamento social fora da capacidade atlética do vírus, o cumprimento do “toquinho” dos punhos ou cotovelos assemelhando-se aos daqueles que foram vítimas da ciência das bigfarmas e seu miraculoso medicamento talidomida, sem contar com álcool, hoje um sacramental nas igrejas católicas. Uma nova doença surgiu com o vírus: síndrome do álcool. Seu sintoma é visível por onde se anda, a ojeriza de um tal de esfregar as mãos e borrifar álcool para todos os lados, como se o ar estivesse empesteado de morceguinhos invisíveis. Não cumprir tais requisitos pode valer ao desavisado cidadão uma admoestação pública, não de autoridades, mas do próprio concidadão. Se todo mundo concorda então a sua discordância é sinônimo de negacionismo e sujeito a pechas piores como bolsonarista, fascista, nazista, anticiência, filho do cão não vacinado que coloca em risco a saúde pública dos vacinados! Uma multidão de arlequins e colombinas no asfalto, parques, comércio e prédios espelhando o que tem dentro de si. A bolha cresce e tão cedo vai estourar.


Esqueça de quaisquer argumentos cimentados na lógica e no mais comum dos sensos, o bom senso. Não adianta apresentar estudos calcados na seriedade e no rigor científico, nem provas contundentes. Cega, surda, uma massa ignara monitorada e conduzida pela telinha de Orwell, pronta para o sacrifício tal qual o gado na fileira de um frigorífico.


Brasília nasceu mascarada de liberdade e esta sina a seguirá até o fim dos tempos. Até o momento se mostrou imune a estouro de boiadas. Seus cidadãos vestiram a máscara com se uma carapuça fosse. Mesmo que as tirem para comer ou beber, os rostos já trazem outras máscaras invisíveis: a da subserviência, da estupidez de quem não distingue a mão direita da esquerda, da corrupção da inteligência e da honestidade consigo e com o próximo. Brasília e seus ditadores empestearam o ar do Brasil onde seus filhotes replicam como se fossem o próprio vírus invisível que se promete combater e exterminá-lo como se possível fosse. Insana imaginação, cruel realidade.