• Davi Eler

As sete virtudes cristãs (4/7): Prudência



A primeira coisa que preciso fazer ao escrever sobre esta bela virtude é desfazer o imaginário mentiroso que foi construído acerca disso. Assim como muitos acham que ser amoroso é ser hippie, muitos acham que ser prudente é ser covarde.


Hoje em dia, as pessoas misturam estes conceitos como se fossem parecidos. Mas a verdade é que a prudência condena e evita a covardia. A virtude da prudência que nos foi dada se trata se apenas de tomarmos a melhor decisão. Ser prudente está intrinsecamente ligado em fazer algo bom, por meios bons e eficientes.


Sobre a prudência, Tomás de Aquino disse o seguinte:


“A prudência versa sobre os atos contingentes. Ora, nestes, assim como a verdade pode ir mesclada com o erro, também pode ir o mal com o bem, por causa da multiformidade de tais atos nos quais quase sempre ao bem se apresenta o obstáculo do mal e o mal se manifesta sob as aparências de bem. Por onde é necessária a cautela, a prudência, para praticarmos o bem e evitarmos o mal” (Suma Teológica, questão 49, artigo 8, pg. 2060).

Com estas palavras, o teólogo medieval nos ensina que necessitamos utilizar desta virtude gerada em nós pelo Espírito, para que assim possamos vencer o mal não apenas como obstáculo, mas também quando ele se apresenta com roupagem bela.


A prudência foi distorcida de tal forma que a palavra foi associada à governadores ditadores e apresentadores de TV inimigos da fé e covardes. Quando, na verdade, quem nos fala sobre a prudência é o próprio Cristo. Ele nos diz que precisamos ser estratégicos, que temos que tomar as melhores decisões, e para isso enviaria o Espírito Santo para nos aconselhar.


“Eu os estou enviando como ovelhas no meio de lobos. Portanto, sejam astutos como as serpentes e sem malícia como as pombas” (Mateus 10:16).

Não devemos confiar somente em nossa razão, pois ela pode facilmente enganada. Estamos sujeitos a ilusões de ótica. Só um ser que está acima da realidade pode enxergar da forma ideal. Por isso temos o Santo Espírito para nos aconselhar em momentos de caos e confusão.


“Eis o que diz o Senhor: 'Maldito o homem que confia em outro homem, que da carne faz o seu apoio e cujo coração vive distante do Senhor!'” (Jeremias 17:5).

Até eu sei que eu e você somos homens. Então este texto também fala de confiarmos em nós mesmos. Confiarmos plenamente em nossa razão é burrice. Para sermos de fato prudentes, devemos sim ponderar a situação com a razão, sem desprezar o amor ou o ódio pelo mal. Mas se acharmos que somente isso já é suficiente, quebraremos a cara.


Jesus nos conectou com a Santíssima Trindade exatamente para que não fôssemos mais miseráveis, para que não precisássemos mais depositar fé e esperança no Homem, que inclui nós mesmos.


Contudo, temos que tomar cuidado, pois podemos desvirtuar esta virtude de duas formas:

Primeira: se agirmos com pouca prudência, falharemos. Pois seremos apresados, precipitados e descuidados. Por não analisar a situação de forma prudente, deixaremos passar detalhes. Como disse Aquino, podemos deixar de ver um mal travestido de bem.

Segunda: podemos utilizar a prudência para o mal. Jesus diz para sermos prudentes como a serpente, mas logo a seguir emenda que devemos ser sem malícia como a pomba. Isso nos indica que de nada adianta sermos prudentes, se utilizarmos esta qualidade para praticar o mal.


Mas caso consigamos evitar estes pontos perigosos, esta virtude será extremamente útil para nosso dia. Ao lidar, por exemplo, com um superior que rouba a empresa, conseguiremos lidar com estas situações delicadas de forma sábia por meio dos artifícios gerais que Deus nos deu, como a razão e a emoção, mas também com os específicos, como a virtude da prudência.


Então vamos todos juntos, eu e você, agirmos com mais prudência para vencermos o mal que nos aparece diariamente, seja como obstáculo a uma atitude boa ou disfarçado de bem.


Até a próxima e fiquem com Deus.