slider-1.png
  • Shock Wave News

As várias camadas de Round 6

Atualizado: Out 25

Por: Thiago Pacheco e Victor Domingues


reprodução


Muito tem se falado sobre o seriado coreano “Round 6”. É indiscutivelmente um blockbuster, mas com algumas camadas ainda pouco exploradas. Não vamos aqui, caro leitor, tentar fazer filosofia pop culture; não temos nem capacidade, nem saco para atacar “o que Round 6 pode nos ensinar”.


Mas vale a pena apontar, com certa dose inevitável de clichês, algumas reflexões saídas diretamente do lugar-comum – outras, nem tanto.


A série coreana do momento pode ser encarada como causadora de uma espécie de torpor programado. As doses de violência gratuita são repetidas e reaplicadas capítulo a capítulo. É quase um “pino” de angústia a cada 45 minutos. Tão logo o espectador usa o primeiro papelote de adrenalina, sobrevém o torpor.


A sensação é de que você acabou obter – ora, ora! – justamente o “high” que você estava procurando. É como se tal sensação fosse artificialmente criada por algoritmos marcados pela completa ausência da criação humana. Nos nove episódios que compõem a série, pode se encontrar tudo que se acha habitualmente numa lista de trending topics: estão lá os joguinhos lúdicos, as máscaras animais, a violência explicita, a “gamificação” da vida etc. etc. etc. Tudo muito colorido, encenado em um cenário kistch de valor estético duvidoso.


Para amarrar o ritmo do algoritmo (até rimou!), a série abusa das costuras e dos plots com personagens rasos. Ela captura até mesmo a imaginação adulta, que muitas vezes esqueceu de ter visto algo muito parecido em algum outro lugar, há algum tempo: uma mistura pouco complexa de “Jogos Mortais” com “Jogos Vorazes”, outros dois “fenômenos” editoriais e cinemáticos que pretendem ser os herdeiros das ficções distópicas, pelo menos até agora. Enfim, um enredo batido.


A primeira camada dessa reflexão diz respeito ao efeito “backlash” que a série causou num setor específico da sociedade: os pais, simultaneamente hipnotizados pela violência, mas “horrorizados” com o seu impacto sobre a criançada, vão às redes sociais: “Horror!”, “Faixa etária!”, “Abuso!”.


Pululam as críticas das mais previsíveis: tudo dentro dos desconfortos esperados e manifestados por escolas e outros núcleos sociais. Descobriram bem tarde que não adianta “desligar” a televisão, e que perderam absolutamente a supervisão dos filhos.


A novidade, se é que assim se pode chamar, é justamente o aspecto “K-pop adolescente”. E aqui podemos escavar uma camada mais profunda de “Round 6”. Supondo que o seriado coreano é uma sopa bem temperada de algoritmos do momento, não teriam as produções orientais – especialmente as coreanas e chinesas – “sacado” a potência disso tudo?


Se sim, a culpa burguesa espelhada na fórmula “uma crítica social foda” já consagrou um vencedor do Oscar, justamente pelo aspecto menos relevante do filme Parasita: a batalha das classes sociais. Ou seja, os orientais já entenderam como funciona nossa mentalidade, e como é fácil fisgá-la. A “culpa burguesa” - ou a “culpa do colonizador”, a “culpa do lançador da bomba atômica” – deve parecer a eles quase como uma função fisiológica, um movimento peristáltico da consciência ocidental.


Sim, é fato que “Round 6” decretou o fim da abordagem artística da violência, magistralmente usada em tantas e tantas obras do cinema e da televisão. É o fim do “je ne sais quoi”. Por outro lado, ao escancarar nossa pusilanimidade moderna, talvez “Round 6” tenha algo de genial.


Periodicamente nossa culpa burguesa precisa desse tipo de estímulo disfarçado de crítica. Round 6 aprimorou o método juntando tudo no mesmo pacote. Enquanto eles ganham muito dinheiro, estamos paralisados num ciclo crítico nível “prova do Enem”, estimulados por altas doses violência pornográfica. Aqui, aliás, cabe um paralelo com a atual constatação de que a pornografia e seu consumo desenfreado causam seríssimas consequências neurológicas e sociais – porque a violência em Round 6 não é pouca, não. Aliás, a série vai muito além da “sangueira” habitual de filmes de ação: o sadismo com que é retratada impressiona, e o mecanismo principal pelo qual isso opera é a transformação de inocentes jogos infantis (alguns desconhecidos para nós, ocidentais) em provas que terminam com a morte por fuzilamento sumário dos participantes. E se o jogo em si é violentíssimo, há ainda tramas paralelas que envolvem o tráfico de órgãos dos mortos nas provas, por operários a serviço dos organizadores do jogo (em certa feita, estes estupram coletivamente uma participante moribunda) – além da criação artificial de circunstâncias que causam animosidades entre os participantes, com o estímulo para que se matem entre si, o que fazem com grande entusiasmo, em uma das sequencias mais difíceis de se assistir. Ou seja: os níveis de violência precisam subir, sob pena do produto não satisfazer seu consumidor. Se ele não ficar embasbacado diante da barbaridade retratada diante dele, parece, a série terá falhado em seu propósito – não o de entreter, mas o de ser um sucesso, o que tem significados diferentes, no tempo dos algoritmos, streamings, apps e correlatos, do que simplesmente ganhar dinheiro.


“Round 6” pode ser visto – como já foi, aliás – como um triunfo do storytelling, medido pela régua, um tanto mesquinha, do mero sucesso de audiência. Mas há mais aqui, para quem se propuser a ir puxando as camadas da cebola: considerações morais abundam, bem como a noção, um tanto perturbadora, de um experimento social dentro de outro, rodando em um loop infinito – um “gosto ruim na boca” deixado pela série, não importa o quão bem-feita tecnicamente ou “espertamente” escrita ela seja.



Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião da Shock Wave News. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate e a produção de artigos, resenhas e textos em geral.