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  • Michel Barcellos

Até a arte será censurada?


Como vai a República, por O Ilustra, extraído de O Monarquista

Será e já está sendo. Mas isso não começou agora, antes da censura à arte veio a sua problematização. No Podcast do Ilustra a Princesa Japonesa descreveu como foi trazida à discussão a caracterização dos personagens escravos da película E O Vento Levou, dentre outras.


Durante o regime militar artistas e meios de comunicação em massa eram censurados pelo estado e logo descobriram-se meios para burlar essa censura. Como os militares não compreendiam a revolução a qual estavam enfrentando, a arte conseguiu cooperar para o andamento da revolução e fazer algumas leis imorais serem aprovadas. Mas o problema dos militares é que eles já eram parte da revolução e não o sabiam: os militares representavam a revolução positivista.


Com a presente semana sendo iniciada com a censura do pôster de Dom Pedro II segurando um sabre, ilustrado pelo nosso colaborador e amigo O Ilustra, comercializado pela loja O Monarquista e veiculado para venda pelo aplicativo de marketing da rede social Facebook, tendo sido esta última a autora da censura, voltamo-nos ao problema da perseguição política.


Eu disse perseguição política porque é assim que a opinião pública compreende a situação, mas enquanto o entendimento ficar para apenas a esfera da política a defesa não poderá ser feita e a resistência não poderá ser levantada.


As pessoas em geral não são contra a censura; quem é contra a censura é o espírito democrático. Nota que eu disse o espírito democrático e não os democratas, pois o democrata é um ser humano falho e, por outro lado, feito à imagem de Deus, portanto perfeito, o que lhe confere a bênção da incapacidade para absorver completamente um sofisma.


E por que eu digo que a democracia é um sofisma? Eu digo que a democracia pura é impossível, pois como governo da vontade popular ela implica na equalização entre desejos e vontades, fazendo com que se tornem sinônimos e todas as ideias percam a diferença de valor real para tomarem um valor relativo às outras, sendo esse valor relativo o mesmo de todas as outras. Isso significa que na democracia qualquer um tem direito de dizer o que pensa, o que deseja, o que quer, e de demandar que seus desejos sejam satisfeitos. O que controla se o desejo será atendido ou não é o número de pessoas que apoiam o mesmo desejo e não o seu valor absoluto. O valor das ideias na democracia é medido pela quantidade de apoio que ela tem. A medida de certo e errado na democracia é feita em relação ao apoio que uma ideia tem, por isso o espírito democrático é amoral e falacioso, incompatível com um indivíduo em pleno gozo das faculdades mentais.


Visto que o tratamento igualitário das ideias é contra a natureza humana, fica mais fácil de compreender a naturalidade da aceitação da censura pela sociedade, afinal a censura é a condenação de uma ideia ou de uma opinião. Por sua vez, ideia expressa uma formulação e opinião expressa um julgamento, os dois acerca de entes, fatos ou estado das coisas.


Se a censura é moralmente aceitável e até mesmo moralmente necessária, a única razão para militar-se contra ela é o objetivo imediato de colocar todas as ideias no mesmo patamar de valoração para, no momento seguinte perverter-se seus valores para tornar as ideias imorais mais valiosas. Isso já foi feito e hoje estamos vivendo as consequências da perversão dos valores morais. Por isso, a censura que temos hoje é uma censura que retornou, e que retornou com os valores pervertidos.


Compreendida a questão de que o problema não é a censura, mas sim o dos valores pervertidos, cabe agora olhar para trás e identificar quais eram os valores anteriores aos pervertidos. O regime militar foi o ápice do positivismo e culminou com o movimento democrático, já tratado nos parágrafos anteriores.


Sobre o positivismo eu posso dar um spoiler: não funciona. Eu trato brevemente do tema no artigo Cristianismo vs. Positivismo, mas creio que não seja necessário dar mais explicações por aqui, para não alongar demais o texto, visto que muita gente já percebeu os positivistas de hoje aderindo ao comunismo e que um não é contraponto ao outro.


O positivismo penetrou no estado brasileiro oficialmente com o golpe militar da Proclamação da República, assunto sobre o qual não vou discorrer porque outras pessoas já o fizeram com maestria. Trouxe o fato apenas para indicar o passo anterior ao positivismo no Brasil: o Iluminismo.

O Iluminismo foi introduzido no Brasil de maneira praticamente impossível de revogar, através da Constituição de 1824, pela adoção da teoria contratualista da formação do estado, que nada mais é que a suposição de que a sociedade é um amontoado de animais que não sabem se organizar e dependem do Leviatã para que possam saciar-se de seus prazeres sensuais sem que inflijam danos a outrem. O artigo mais recente sobre o Iluminismo eu escrevi ontem e, se tu não o leste ainda, podes fazê-lo agora, ou depois de finalizar a leitura deste texto.


Em algum momento eu deveria falar do conservadorismo, pois as chances de o interlocutor ter ansiado por esse assunto há alguns parágrafos atrás são grandes, já que é um tema que está em voga e desperta muitas discussões a respeito, como sendo a melhor defesa contra a perversão dos valores morais. Bem, eu discordo. Não vou trazer aqui uma defesa contra o conservadorismo, primeiramente porque no momento eu acho desnecessário e em segundo lugar porque eu não examinei o tema a fundo; minha discordância é apenas uma impressão preliminar. Na minha percepção, o conservadorismo é apenas uma reação ao Iluminismo e não a verdadeira força opositora para derrotá-lo, pois essa verdadeira força chama-se cristianismo.

O período de transição da Idade Média para a Idade Moderna foi marcado pela tomada da Europa por um grande número de heresias que, pela voracidade em que se espalhavam, obrigaram os homens de discernimento privilegiado a buscarem uma solução e a encontrarem-na em São Tomás de Aquino. Por isso a era dos descobrimentos ocorreu paralelamente com a era das ordenações ibéricas, de inspiração tomista.


Como as ordenações partiam da Península Ibérica, as terras do Novo Mundo dominadas por Inglaterra e França não tiveram a mesma sorte que as latino-americanas, que tiveram em suas origens o forte desejo de conquista de almas para o Senhor Jesus Cristo.


Aí encontramos o momento perfeito para analisarmos a censura. Quem leu a obra Os Lusíadas, de Luís Vaz de Camões, tio tetravô da fundadora deste jornal, encontrou em suas primeiras páginas um parecer do Censor do Santo-Ofício, indicando as razões pelas quais a obra poderia ser publicada. Naquela obra encontramos uma razão verdadeiramente pertinente para a censura: a defesa do cristianismo.


Compreendendo superficialmente a censura de maneira melhor não conseguimos ainda resolver todos os problemas causados por ela nos tempos contemporâneos, mas, no caso específico eu encontro um paralelo a fazer, que poderia até mesmo ser bem-sucedido numa defesa administrativa ou judicial pela exposição da mercadoria à venda: D. Pedro II empunhando uma espada não é uma apologia às armas ou à violência, mas uma referência à justiça, que nos dias de hoje é representada pela deusa Themis (ou Dice, sua filha) empunhando uma espada (e ora também uma balança), tendo seus olhos vendados, simbolizando que não se importa com as aparências. Imagens da deusa Themis guardam os tribunais republicanos de todo o país, e D. Pedro II deve ser tomado como seu antecessor histórico pelo regime que antecedeu o no qual estamos nos dias de hoje.


A Justiça, por Alfredo Ceschiatti, extraído de Wikipédia

A defesa pela permissão de comercialização da arte deve ser feita necessaria e urgentemente para que se alargue o tempo para exame sério do assunto e sob pena de banimento de qualquer tipo de manifestação artística, em velocidade recorde.