• Alexandre Nagado

Bruce Lee e o Jeet Kune Do

O pensamento e a técnica do maior astro das artes marciais de todos os tempos


Se atualmente nomes como Jackie Chan, Michelle Yeoh e Jet Li são conhecidos no mundo inteiro como astros veteranos de filmes de artes marciais, isso se deve ao trabalho do precursor deles, o cultuado Bruce Lee. Tendo trabalhado em filmes de Hong Kong desde a infância, teve uma ascensão meteórica entre o final dos anos 60 e início dos anos 70 e se tornou um ícone mundial. O eterno astro dos filmes de kung fu nasceu como Lee Hsiao Lung nos EUA, em 27 de novembro de 1940. Ainda criança, mudou-se com a família para Hong Kong, voltando aos EUA com 19 anos para estudar filosofia e acabou promovendo o kung fu. Tendo trabalhado em produções modestas em Hong Kong, Bruce Lee co-estrelou em 1966 a série americana Besouro Verde (como o ajudante do herói, Kato) e atuou em poucos filmes de alcance internacional, sendo os últimos produzidos em Hollywood.


Morto por aneurisma cerebral em 20 de julho de 1973 aos 32 anos, Lee mantém até hoje uma imagem intocada e venerada, como acontece com grandes ídolos que morrem jovens. Assim como sua morte, cercada de lendas mesmo tendo uma explicação natural, sua vida já foi motivo de muitas ideias equivocadas. Muitos se referem a ele como o maior lutador de todos os tempos, como se misturando a pessoa com as personagens que interpretou. Dificilmente seria, pois não foi testado perante os grandes de seu tempo. Em oposição a isso, alguns acham que ele era apenas um grande coreógrafo, não um atleta ou lutador com méritos reais. Mas ele foi mesmo um atleta de alto nível, abriu academias nos EUA e ensinou kung fu para celebridades de Hollywood. Com isso, ele era visto como uma grande autoridade em artes marciais em seu tempo.


Em meados da década de 1960, ele foi indagado em uma entrevista sobre qual a diferença entre kung fu e karatê. Sem pensar muito, explicou que um golpe de karatê é direto e mortífero como uma pancada com uma barra de ferro. Já o kung fu seria como uma corrente que, ao atingir, se molda ao adversário e machuca em vários pontos. E depois disso ele sorriu, como que percebendo o brilhantismo do que acabara de dizer.


Seu interesse pela estrutura maleável do kung fu o faria criar um modelo próprio de movimentos acompanhados de uma intensa base filosófica. Fazendo uma analogia entre uma luta e a vida como um todo, Lee acreditava ser importante conhecer a si próprio, conhecer seus limites e se moldar ao adversário e às situações adversas da vida.


Lee em cena de Operação Dragão (Enter The Dragon, 1973)

Tendo que ficar meses em repouso depois de uma lesão na coluna em 1970, Lee passou o tempo tecendo teorias sobre artes marciais, anotando pensamentos de autores que admirava e codificando movimentos que faziam parte de suas empolgantes coreografias de ação. Após sua morte, suas anotações foram habilmente compiladas no livro Tao of Jeet kune do, sendo que “tao” significa “caminho”. Já essa modalidade marcial que Lee criou, o jeet kune do, cuja tradução é “modo para interceptar um punho”, se apresenta como uma luta sem uma forma exata estabelecida. Distante dos rígidos movimentos presentes nas artes marciais tradicionais, Lee organizou e mesclou diferentes estilos com muita desenvoltura.


Utilizando conhecimentos de kung fu (arte que estudou desde criança), boxe ocidental e outras formas de luta, Lee simplificou modos eficientes de ataque e defesa. E além de centenas de posições que podem ser copiadas por alguém que esteja em boa forma física (lembrando que todo esporte necessita de acompanhamento), há muita teoria que ajuda o praticante a se desenvolver mentalmente.


Porém, ele nunca se preocupou em reunir as anotações em livro, pois ele tinha receio de que as pessoas comprassem achando que seria algo como “aprenda kung fu em 10 lições”, o que seria uma picaretagem. E ele sabia que não se aprende esporte ou artes marciais com um livro, sendo necessário manter uma disciplina intensa, acompanhada por um treinador, ou um mestre capacitado, além de muita orientação médica.

Sem treino formal em desenho e

usando referências variadas,

Bruce Lee foi capaz de realizar

sketches dinâmicos para

ilustrar suas anotações.

O livro foi ilustrado pelo próprio astro, com desenhos simples e eficientes. Sem treinamento formal em desenho, Lee certamente se valia de referências para traçar as figuras. Mas o que surpreende, mesmo nos esboços mais canhestros, é a sensação de movimento que seus desenhos transmitem. É surpreendente ver como ele conseguia representar ideias de movimento com esboços simples e dinâmicos. E simplicidade é um conceito que permeia todo o livro, sem que isso seja confundido com superficialidade. Ao contrário, a obra destaca a importância do questionamento e capacidade de adaptação para se chegar à sabedoria e ao autoconhecimento.


Em várias passagens, é citada a importância de livrar-se de rótulos, formalidades, títulos e convenções que podem prender o indivíduo, mesmo quando se referia à sua criação. Ou, nas palavras do próprio astro:

“Antes de estudar a arte, um soco para mim era apenas um soco, um chute era apenas um chute. Após ter estudado a arte, um soco não era mais um soco, um chute não era mais um chute. Agora que entendo a arte, um soco é apenas um soco, um chute é apenas um chute.”

- Bruce Lee


O Tao do Jeet kune do

Autor: Bruce Lee Prefácio: Linda Lee Introdução: Gilbert L. Johnson Ilustrações: Bruce Lee

Formato: 21 x 29,5 cm, com 240 páginas

Lançamento: Conrad Editora (2003), Chave Editora (2016)


- Texto escrito originalmente para o blog Reflexo Cultural e revisado para postagem no ShockWave News.