slider-1.png
  • Shock Wave News

Capétain Jair

Por Evandro Pontes

Philippe Pétain em seu escritório, em Vichy, en 1941. Via Getty Images

Em 15 de Junho de 1940, um dos maiores imbecis da história da humanidade, o Marechal Philippe Pétain, leva milhares de franceses para as ruas, logo após a invasão do exército Nazi. Foram todos às ruas pacificamente e até eram efusivamente cumprimentados pelos militares da Wehrmacht.


Pétain, um herói da I Guerra se apresentou, naquela ocasião, como o grande solucionador de um problema razoavelmente sério: as investidas de Adolf Hitler contra o regime republicano francês tinham atingido um point of no return; ou reagiam, ou cediam.


Pétain foi entusiasticamente saudado nas ruas e por “youtubers da época”: refiro-me àquela intelectualidade insossa da qual já até esquecemos a maioria dos nomes que espalharam na França de 1940 a hashtag #ConfiaPétain”. Um deles foi André Gide. Se você não sabe quem é, faça você mesmo uma breve pesquisa sobre o apoiador pétainista e as defesas enfáticas que ele fazia por seus gostos com crianças – chegou, inclusive, a escrever páginas e páginas sobre o tema. Ficando apenas na questão da estratégia política de Pétain, Jocelyn van Tuyl ofereceu em 2006 pesquisa bem interessante intitulada André Gide and the Second World War – A Novelist’s Occupation. Vale a leitura (no meu caso, foi releitura) para lembrar das “ambiguidades de Gide” que o levavam, in illo tempore, a contemporizar com Pétain e, indiretamente, com Hitler.


Como mensagem atemporal, lembremos: para sustentar um “#ConfiaPétain”, só um novelista do quilate moral de Gide.


Mas a subida ao poder de Pétain, que insuflou milhares de peitos com alegria, entusiasmo e memes, muitos memes, mostrou que o austero Marechal, aquele herói de 1918, preparava uma jogada que, ao seu ver, seria uma “tacada de gênio”: um armistício.


Pétain, com a ajuda do “Centrão” daqueles dias, e como resultado de suas articulações, assina na tradicional região da Picardia, no dia 22 de junho, o Armistício de Compiègne com a Alemanha Nazista.


O Armistício, comemorado por uma horda de imbecis, estabeleceu uma zona de ocupação nazista no norte da França que demorou 4 anos para ser arrancada de lá.


Repito: 4 anos.


O que a França levou em troca?


A garantia de que Pétain seria seu governante por esses 4 anos, “impedindo o avanço do comunismo” (apesar do apoio de gente como André Gide), uma nova constituição e todo o resto do território francês “livre” da influência alemã.


Pétain substituiu o liberté, egalité, fraternité pelo travail, famille, patrie. Mera propaganda: nunca trabalhou direito, não teve filhos e traiu a própria pátria.


O astuto marechal deu o nome de “Armistício” aquilo que foi uma verdadeira capitulação frente ao inimigo.


Terminou a vida condenado por traição.



* * * * * * *



No Brasil do capétain Jair, o deputado amigo Marco Feliciano é magistralmente absolvido no mesmo caso e sob as mesmas acusações que sofreram Flávio Morgenstern e Olavo de Carvalho por parte de Caetano Velloso e Paula Lavigne.


O caso é o mesmo, a situação é a mesma, a acusação é idêntica, as peças jurídicas sequer chegam a marcar diferenças na argumentação técnica: Olavo terminou com uma dívida de 2 milhões, Morgenstern com outra de valor menor (mas com o rumo de seus negócios claramente afetados depois da condenação) e, Marco Feliciano, absolvido.


Sei que os casos são anteriores e que o estabelecimento da relação causa-efeito entre “casos Caetano” e “Armistício de 8/9” é um freakonomics, uma coincidência atroz.


Mas esses casos são ilustrativos.


Ilustram o que certamente vai ocorrer a partir daqui.


O Armistício de 8 de setembro assinado pelo capétain Jair e redigido por Temer e Alexandre de Moraes tem no caso Caetano X Feliciano em face dos casos Caetano X Morgenstern e Caetano X Olavo exatamente a coincidência ilustrativa de como será o Brasil pelos próximos 4 anos: a uma parte, integrante do establishment beneficiado pelo armistício, a liberdade de expressão estará à disposição; para os demais, não (a não ser que sigam as regras de limitação do discurso por temas e na forma “politicamente correta” que passa a ser obrigatória juridicamente, a partir do Armistício do capétain Jair).


Aguardem os próximos desdobramentos nos inquéritos do STF e verão.