• Shock Wave News

China lidera empréstimos e deixa FMI para trás.

O Partido Comunista Chinês toma o lugar de organismos como FMI e Banco Mundial na ajuda aos países mais necessitados.

O papel da China como credor global começou a tomar força faz duas décadas, à medida que o país adotou uma política de maior abertura ao exterior.


Com dados de 2018, o estudo aponta que os países (incluindo os desenvolvidos) devem à China mais de US$ 5 trilhões (quase R$ 27 trilhões, em valores nominais convertidos atualmente), o que corresponde a quase 6% do PIB global — há 20 anos, girava em torno de 1%.


Com a pandemia do vírus chinês, o FMI disponibilizou US$ 250 bilhões para vários mecanismos de empréstimo e para ajudar no alívio do serviço da dívida, com mais US$ 107 milhões em assistência financeira para 85 países.

Somente na América Latina, o Governo Chinês enviou ajudas diretas e na forma de equipamentos sanitários no valor de 214 milhões de dólares (1,12 bilhão de reais), dos quais quase a metade foi destinada apenas à Venezuela (100 milhões de dólares). A "diplomacia das máscaras", como alguns especialistas a chamam; a Rota da Seda da Saúde, rebatizou Pequim.


Em 2019, os bancos de desenvolvimento forneceram apenas 1,1 bilhão de dólares para a América Latina como um todo, superando em muito o oferecido no mesmo período tanto pelo Banco Mundial como pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento.


A ajuda veio em forma de doações de tecnologia da Huawei para determinados países da região, sensores de imagem para medir a temperatura dos viajantes no aeroporto de Ezeiza (Argentina) ou sistemas auxiliares para o diagnóstico da covid-19 em hospitais em Quito (Equador) e na República Dominicana, máscaras e respiradores para o Brasil.


O resultado dessa "cooperação" sanitária e econômica da China reforçou sua presença na região.


A Crise no Equador


Nos últimos anos, o Governo chinês desenvolveu uma política de empréstimos em última instância para países com economias em dificuldades (veja mais detalhes aqui).


Foi o caso do Equador, mas também de Montenegro e de Angola, entre outros. Segundo dados do Banco Mundial, compilados pela Universidade de Boston, 63% da dívida bilateral oficial dos países mais pobres com as nações do G20 é devida à China, no valor de aproximadamente 112 bilhões de dólares.


Após a crise financeira de 2008, o Equador suspendeu os pagamentos e seu então presidente, Rafael Correa, decidiu recorrer à China, que não exigia planos de ajuste fiscal ou sustentabilidade da dívida para fazer o desembolso, como requeria o FMI (Fundo Monetário Internacional), e aceitava parte do pagamento desse financiamento em barris de petróleo.


Com a crise desencadeada pela pandemia de 2020, o Equador buscou o adiamento dos pagamentos e uma nova linha de financiamento; a dívida do país com Pequim já correspondia a 78% de sua dívida externa. O acordo o obrigava a vender os barris de petróleo para a China a um preço abaixo do valor de mercado, o que reduziu a receita do país e tornou sua situação financeira mais insustentável.


Em meados de janeiro, Washington concordou em emprestar ao Equador 3,5 bilhões de dólares (18,3 bilhões de reais) para substituir parte de sua dívida externa, incluindo a que tem com Pequim, com a condição de que o país exclua as empresas chinesas, como a Huawei, de seu desenvolvimento de redes de telecomunicações 5G.


E o Brasil ?


Segundo a BBC, empréstimos diretos e créditos comerciais passaram de quase zero em 1998 para mais de US$ 1,6 trilhão em 2018, cifra que equivale a 2% do PIB mundial.


Esses fluxos de capital não são privados, de bancos ou investidores particulares. São nacionais, ou seja, de empresas ou instituições financeiras controladas pelo Estado (PCCh).


Diferentemente de investidores privados, o Estado chinês não busca apenas rentabilidade quando empresta o dinheiro, mas também influência política.


Pequim, por sua vez, defende que esses acordos beneficiam todas as partes, enquanto governos da região têm buscado aproximação com a segunda maior economia do mundo — na reunião que ocorreu em 2019 com o presidente chinês Xi Jinping, o presidente Jair Bolsonaro afirmou que a China, que já é o maior parceiro comercial do Brasil, é "cada vez mais parte do futuro do Brasil".


Empréstimos Ocultos


Mapa mundial da dívida externa à China (a partir de 2017, apenas empréstimos diretos)

O Instituto Kiel para Economia Global, na Alemanha, analisou as características de 5 mil empréstimos feitos pela China a 152 países entre 1949 e 2017. E sua relação com países em desenvolvimento, onde o gigante asiático consolidou sua presença por meio de empréstimos milionários (ou bilionários) aos setores público e privado.


O estudo estima que o montante total desses chamados empréstimos ocultos cresceu substancialmente nas últimas duas décadas e passa de R$ 1 trilhão.


Ainda que a maior parte dos empréstimos diretos seja canalizada por meio de grandes instituições controladas pelo Estado chinês (PCCh), como o Banco de Desenvolvimento da China, existem muitos outros mecanismos indiretos por meio dos quais o país asiático “exporta crédito”.


A maior parte deles provém de entidades controladas pelo governo chinês, e, do outro lado, muitas vezes quem recebe o empréstimo é uma empresa cujo principal dono é o Estado.


O Brasil surge no grupo de países em desenvolvimento — entre eles, Indonésia, México e África do Sul — de quem a China comprou quase US$ 30 bilhões em papéis do Tesouro.


Na América Latina, os objetivos geopolíticos de Pequim passam por garantir o abastecimento de recursos e matérias-primas, além de abrir novos mercados para suas próprias mercadorias.


Os especialistas tiveram que desenvolver uma metodologia própria para encontrar respostas para perguntas que o governo chinês não responde. Seguindo o rastro do dinheiro que saiu de Pequim baseando-se em publicações de diversos meios, documentos oficiais de embaixadas e informações sobre os empréstimos recebidos pelos países destinatários dos fundos.