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Corinthians e Brasil: uma lição política

Por Anthonio Delbon Jorge


“O golpe do ‘Não queira comparar” – Esse é velho, e muito popular. Não se pode fazer comparação alguma sem que alguém diga: ‘Você está querendo comparar Jesus Cristo com Agnaldo Timóteo? Trotsky com Sharon Stone? Eliot com Cacaso?’ Meu Deus, e daí? Sim, estou comparando. Comparações só podem ser feitas entre coisas diferentes. Exatamente para ver a diferença. Você compara uma melancia com a lua e conclui que uma é um bocado maior do que a outra. Mas você não compara uma melancia com precisamente a mesma melancia. É preciso ao menos que seja outra melancia, o que significa uma melancia diferente. É para isso mesmo que comparações servem! ‘Não que eu queira me comparar com Van Gogh, mas...’ Mas o quê? Se compare, idiota!” é o que brada Alexandre Soares Silva em A humanidade é uma gorda dançando em um banquinho.


O governo brasileiro não provoca a paixão de um time de futebol e nem um time de futebol seduz tanta hiena como o governo brasileiro. Mas entre ardor, carniça e poder, Brasil e Corinthians nos dão lições semelhantes neste novembro eleitoral de 2020 – sem contar o afeto pelo vandalismo “democrático” que boa parte dos figurões brasileiros e corintianos apoiam naquela surdina gritante.


Bolsonaro tomou um toco por omissão. A esquerda não teve o propagado sucesso estrondoso na eleição municipal, mas é cegueira falar em “histórica derrota”, Jair. A merda sempre voou entre as lâminas da tesoura na maior cidade do país e nada mudaria com o apoio maciço da imprensa ao filhinho de professor da USP que brinca de ser pobre, incendiário e invasor de propriedade com 5 salários mínimos. Mas Russomano, cara pálida? Russomano? Cheirou cola? Não entrarei no mérito porque me dá úlcera (e porque a própria Shockwave já destrinchou este cazzo).


Qual é o ponto desta história toda?


Falta liderança. Falta ânimo.Falta cojones.

Cojones para cumprir as pautas originais. Cojones para confiar no público que o elegeu para reelege-lo. Cojones para não comer aquela pizzinha republicana com o ex-advogado do PT, para não indicar um zé-ninguém à Suprema, para não ouvir milico aposentado em busca de carguinho... cojones para simplesmente FALAR EM REDE NACIONAL, COMO MINHA MÃE IMPLORA DESDE JANEIRO DE 2019. Ah, e para criar logo o primeiro partido conservador do Brasil – com gente conservadora, é preciso lembrar e lembrar e lembrar.


Bolsonaro não vai para cima. Nem sequer ficar paradão. Ele vai é buscar energia e ânimo em Russomano e no aero trem. Por isso, quando grita o óbvio sobre o país estar cheio de maricas, até surpreende o próprio eleitorado, que esqueceu da fibra de Messias. E falta de fibra, em uma guerra, é perder de W.O.


Mas ele sabe que se trata de uma guerra, certo? Ele não esquece disso quando o general Ramos sussurra docemente “sim senhor, presidente” no seu ouvido... certo? Ele sabe que diálogo com esta gente é coisa de gente como a Amada Jana, CERTO? O certo é que ele pegou um país fodido e mal pago por décadas de desmando, corrupção e locupletamento devido a um projeto de poder. Guardem isso: desmando, corrupção e locupletamento sob a bússola de um longevo projeto de poder, porque esta também é a porta de entrada básica para qualquer clube de futebol brasileiro. O exemplo é meu Corinthians.


Andrés Sanchez, antes de se eleger deputado federal pelo PT e votar contra o impeachment da primeira presidenta inteligenta do Brasil, assumiu a presidência do Corinthians em 2007, após 14 anos de administração de Alberto Dualib. Dualib, para quem não sabe, encheu o clube de parcerias (Banco Excel, Hicks Muse, MSI) e saiu do clube à beira dos 90 anos (ele está vivo com mais de 100, por sinal), deixando-o em total desgoverno no pior ano de sua história: 2007 foi o ano do rebaixamento corintiano, o que, em futebol, significa um apocalipse – é risível, eu sei. Processos pelos crimes de lavagem de dinheiro, formação de quadrilha e estelionato, como você deve ter imaginado, permanecem na conta do centenário arabão.


A saída de Dualib, contudo, teve forte campanha das organizadas corintianas à época. Papéis com FORA DUALIB pululavam nas arquibancadas do Pacaembu. Deu certo. Andrés, que sempre teve ótimas relações com as torcidas organizadas – dê o eufemismo que quiser – assumiu interinamente, foi reeleito e, sabendo muito – mas muito mesmo – de futebol, arrumou o time, contratou Ronaldo em 2009 e o resto é história. Mas Andrés não manja apenas de futebol. No seu primeiro mandato, criou um novo estatuto para o clube proibindo a reeleição, garantiu o sonho do torcedor de ter o estádio próprio – todo mundo conhece a história e a ajudinha do BNDES lulista – e organizou seus sucessores, fazendo-os frequentarem cargos de diretoria antes das eleições. Foi assim que Mário Gobbi, diretor em 2008 e 2009, foi eleito em 2011, e Roberto de Andrade, diretor em 2012 e 2013, foi eleito em 2014.


Quando o último, inábil político, quase saiu por processo de impeachment, em 2016 e 2017, Andrés resolveu voltar para apaziguar os ânimos internos do clube, assumindo novamente a presidência em 2018, na eleição mais concorrida desde 2007, exatamente porque seus opositores viram uma pequena brecha no poder. Andrés venceu contra outras quatro candidaturas e agora deixa o clube após seu mandato de três anos, prestes a eleger seu terceiro sucessor: Duílio Monteiro Alves, filho de Adílson Monteiro Alves, sociólogo e figura histórica da época da farsante Democracia Corintiana.

E qual lição que se tira disso tudo? E a oposição?


Andrés montou a década mais vitoriosa de mais de cem anos de Corinthians. Montou por ter dado estabilidade política ao conseguir a continuidade do projeto inicial do seu grupo político, “Renovação e Transparência”, mesmo que o nome que fazia sentido contra Dualib tenha se tornado irônico dez anos depois. Deixando a bola de lado – repito, ainda assim, que Andrés sabe e sempre soube de futebol como poucos presidentes Brasil afora –, foi dele o manejo político para se impor, aplacando a oposição, concedendo cargos irrelevantes na diretoria de futebol para pau-mandados desta mesma oposição, e transformando o caldeirão que era o Corinthians em um paraíso, pois ao mesmo tempo que não deixava a política do clube entrar em ebulição, construía um avançado Centro de Treinamento e profissionalizava o clube em inúmeros setores técnicos.


A oposição, por sua vez, tornou-se uma piada por assumir o papel pra lá de coadjuvante eleição após eleição. O símbolo disto é Paulo García, presidente do Kalunga, que envia excelentes brindes para os associados em tempos de votação, mas que sempre só serviu de escada para Andrés permanecer no poder. Em 2020, contudo, o cenário “muda”: García não se lançou ao pleito por preferir apoiar o candidato mais forte a ter chances de “acabar” com a era Andrés. Muitas aspas, né? É porque este candidato é Mário Gobbi, o primeiro sucessor imediato do próprio Andrés, lá em 2011.


A briga, portanto, entre Duílio e Gobbi parece briga interna de PT ou PSDB. Duvida-se que algo mude. Mas aqui é necessário fazer uma distinção: o carro-chefe de um clube de futebol é sempre o futebol. Dívidas são renegociáveis, se não extrapolarem um limite bizarro. Para muito torcedor, não há razões graves para que a mudança aconteça, porque pequenos casos mal explicados de contratações obscuras não justificam tanto alarde. Por mais que o Corinthians tenha vivido tempos difíceis em campo, os últimos dez anos podem muito bem justificar a era Andrés como uma era vitoriosa, o que implica em mais um sucessor. O que ressalto é que ela foi vitoriosa em campo porque foi, primeiro,


vitoriosa fora dele, e não o contrário. E mais: Andrés elegeu-se deputado federal pelo PT e entrou na política a convite irrecusável do amigo Luiz Inácio. Um mandato bem assalariado depois, desistiu da reeleição e quase deixou como suplente Netinho de Paula – sim, aquele. Andrés não dá a mínima para o Brasil, para o jogo partidário, para a intriga política. Nunca hesitou em destruir Fernando Haddad em público, exatamente porque seu correligionário mandou mal em negociatas envolvendo o Corinthians. Jogo político ele só joga quando seu time está envolvido, como na questão do MP do mandante e nas tantas negociações com a Globo.


Agora pergunto: o que fez de Andrés um líder de sucesso no Corinthians dos anos 2010? Tudo o que faz de Bolsonaro um líder aquém. Andrés viu a brecha e assumiu o papel de líder desde o início, no conturbado ano de 2007. Certa dose de paixão e sacrifício é necessária para se jogar a vida pessoal para o escanteio e mergulhar de cabeça na administração de uma nação (vale tanto para a nação real quanto para a metáfora da nação corinthiana). Sobre o sacrifício de Bolsonaro nem se precisa discorrer, convenhamos.


Mas e depois?


E depois que as coisas se assentam, as peças são posicionadas, a euforia baixa e a pauta tem de ser implementada? Andrés usou seu capital político, organizou seu grupo político e teve um projeto a longo prazo para o clube. Bolsonaro troca seu capital político pela pseudo segurança milica e centrista – abortista e oportunista, leia-se. Deixou o seu grupo político em busca da natimorta arca da Aliança. Andrés cultivou um, dois, três, quatro nomes para sucessão – Duílio, prestes a se tornar presidente, era diretor de futebol em 2012, quando o Corinthians foi campeão Mundial contra o Chelsea e Mário Gobbi era o presidente em exercício. De algum modo, tentou fazer isso mesmo à beira do campo, com Tite, Fábio Carille e Osmar Loss. Bolsonaro, por sua vez, queimou uma penca de ministros, não raro hesita em defender os mais fiéis à própria causa, cultiva um total absoluto de zero figuras conservadoras fortes – porque Damares, do Partido Progressista, não dá! – e, aos 50 do 2ºt, acena para um perdedor profissional, fisiológico e oportunista em São Paulo, esperando milagre.


Seja por temperamento, seja por coragem, seja por paixão, seja por mero tesão, seja por experiência de décadas ou seja pelo maior aparato partidário, midiático e estratégico, o líder esquerdista da vez emana uma energia de vitória e um cuidado – cuidado, aquele traço bem conservador, sabe? – com seu entorno, com seu partido, com sua chapa, com sua figura que dá de goleada à omissão das lideranças conservadoras que, além de não terem nada deste aparato, ainda que pecam pelo silêncio. A sensação é de desperdício em tempo real. E isso porque Boulos, ao mesmo tempo em que emana tudo isso, continua com a mesma cara de cínico bocó, muito por causa do seu principal tipo de argumento: a risadinha, tanto alertada pelo professor Olavo como argumento de puta.

Antes de terminar, uma pequena e verídica história. Sócio do Corinthians desde a infância, graças ao meu pai, participei de todas as eleições desta última década. Sendo esquerdista por osmose até 2015 (culpa da faculdade de Direito da PUC), não enxergava problema na figura de Andrés e nas suas relações com papai Lula. No pleito de 2011/2012, que elegeu Mário Gobbi, fui ao Parque São Jorge junto ao meu pai e apertei a mão de Andrés.


Não escondo uma certa emoção no meu coração de 19 anos. Meu pai, esquerdista inveterado e fã de Che Guevara até hoje, também parecia agradecido pelo trabalho do presidente. Então Andrés me olhou, fixo e firme, dando um tapa carinhoso no meu rosto para falar uma frase banal, que parecia ser repetida a quem quer que o cumprimentasse, naquele português de boteco que lhe é típico: “Nós precisamo de gente como você. Gente jovem. Esses véio não dá mais”.


Rejuvenesça para amadurecer, presidente.