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Distopias: Metrópolis


reprodução


Metrópolis é uma megacidade futurista, onde as ruas são largas, os arranha-céus gigantescos e no centro da cidade se encontra o prédio principal, conhecido como Babel. Essa obra trata de muitos temas bíblicos, nos mostra um sistema de castas dividido em ricos e trabalhadores e faz várias analogias que nos fazem refletir.

Essa obra é repleta de simbolismos bíblicos, fazendo referências a Jesus, Deus, Lucifer, Maria e eventos como o dilúvio, irei retratar algumas dessas referências ao longo desse artigo, mas não na ordem cronológica da obra, mas na ordem em que julguei interessante, mas deixo a recomendação a todos que assistam pelo menos o filme que tem de graça no Youtube.


Em Metrópolis os trabalhadores moram no subsolo da cidade, metade deles sobem para as fábricas todos os dias e trabalham metade do dia, depois a outra metade os substituem, de forma que as máquinas sempre estão ligadas trabalhando. Após os turnos, os trabalhadores se encontram em uma gruta para ouvir as belas palavras de Maria, que conta sobre o salvador, que será o elo entre a cabeça (os ricos) e a mão (os trabalhadores).


A cidade é controlada pelo bilionário Joh Fredersen, o homem mais poderoso de Metrópolis, ele é o maestro que dita o ritmo harmonioso das máquinas, quando ele chega em seu escritório com um simples toque em uma tela, as máquinas começam a rugir pedindo alimento. Fredersen tem um filho chamado Freder, que é o personagem principal da obra.


A obra começa quando Freder está disputando corrida com outros filhos dos ricos, no topo da torre de Babel, até que Maria vem com os filhos dos trabalhadores e aponta para ele dizendo ”Vejam seus irmãos”, após isso ela e as crianças saem e deixam essa frase ecoando na cabeça de Freder.


A personagem Maria é uma mulher bonita, em suas pregações ela conta a seguinte história “- Vocês querem saber como a construção da Torre de Babel começou? e querem saber como terminou? Eu vejo um ser humano vindo do alvorecer do mundo. Ele é lindo como o mundo e tem um coração ardente. ele adora caminhar pelas montanhas, oferecendo seu peito ao vendo e conversando com as estrelas. É muito forte e domina todas as criaturas. Ele sonha com Deus e sente ligado a ele.Suas noites são cheias de rostos.


Uma hora sagrada explode seu coração. O céu estrelado está acima dele e de seus amigos. Ah, amigos! Amigos!, ele exclama e aponta para as estrelas, Grande é o mundo e seu Criador! Grande é o humano! Vamos lá, vamos construir uma torre que chegará ao céu! E, quando estivermos em seu topo, ouvindo as estrelas ressoando acima de nós, vamos querer escrever nosso credo em símbolos de ouro no pináculo da torre: grande é o mundo e seu Criador! E grande é o ser humano!


E eles se levantaram, um punhado de homens que confiavam uns nos outros, e queimaram tijolos e cavaram a terra. Nunca as pessoas fizeram isso tão rápido, porque todas tinham um só pensamento, um só objetivo, um sonho apenas. Quando descansavam de seu trabalho à noite, todos sabiam o que os outros pensavam. Não precisavam de linguagem para se comunicar. Mas depois de pouco tempo já sabiam: a obra era maior que suas mão criadoras. Então, fizeram novos amigos. E a obra cresceu. Cresceu de forma avassaladora. Os construtores enviavam seus mensageiros aos quatros cantos do mundo e recrutaram outras mãos, mãos criadoras para sua gigantesca obra.


As mãos vieram. As mãos criavam por remuneração. As mãos nem sabiam o que estavam criando. nenhum daqueles que construíram ao sul conhecia qualquer um daqueles que cavavam ao norte. O cérebro que sonhava com a construção da Torre de Babel era desconhecido para aqueles que a construíram. O cérebro e as mão distantes, estranhos. Cérebro e mão se tornaram hostis. O prazer de um se tornou o fardo do outro. O louvor de um se tornou a maldição do outro.


‘Babel!’, gritava um, e ele queria dizer: Divindade, coração, triunfo eterno!

‘Babel!’, gritava o outro, e ele queria dizer: inferno, servidão, danação eterna!

A mesma palavra era oração e blasfêmia. Falando as mesmas palavras, as pessoas não se entendiam.


As pessoas não se entendiam mais, cérebro e mãos não se entendiam mais, pois a Torre de Babel fora abandonada à destruição. Em seu pináculo nunca foram gravados em símbolos dourados as palavras daqueles que sonharam com a Torre: grande é o mundo e seu Criador! E grande é o ser humano!

O fato de o cérebro e mãos não se entenderem mais um dia destruirá a Nova Torre de Babel!”(Paginas 114 e 115). Depois dessa história, Maria contava que um dia virá um Messias, o Coração, que será o intermediador entre o cérebro e as mãos, “Pois entre o cérebro e as mãos existe o coração”.


O personagem Rotwang, sogro de Fredersen, é um inventor que reside na casa mais antiga da cidade, a casa tem a lenda de ser a antiga morada de um mago que possuía “sapatos vermelhos". Fredersen já ordenou diversas vezes a derrubada da casa, mas sempre que um operário tentava, acabava morrendo de forma misteriosa, chegaram ao ponto de colocarem detentos para demolir a residência, mas de após tantas baixas, ninguém mais quis tentar a sorte, a casa possui em todas as portas uma estrela de Salomão pintada em vermelho e não possuem trancas, muitas vezes a casa demonstra possuir uma certa consciência, podendo trancar e abrir as portas conforme sua vontade. Rotwang é um personagem tão estranho quanto sua residência, ele tinha uma filha chamada Hel que se apaixonou por Fredersen, eles se casaram e após o parto a pobre moça morreu. Rotwang culpa Fredersen pela morte de sua filha, durante a construção do Summa, um protótipo de robô encomendado por Fredersen para substituir os trabalhadores da cidade e assim reduzir os custos de produção, criado com todo ódio que Rotwang tinha por Fredersen.


Quando Rotwang mostrou Summa para Fredersen, ele perguntou “O que é isso?” e Rotwang respondeu “O que, não, quem” e depois complementou “Summa é uma mulher. Todo homem criador primeiro cria uma mulher”, Rotwang ainda não havia finalizado sua obra que carrega de ódio, faltava uma pessoa para que pudesse roubar a aparência e dar a sua criação, Rotwang sempre observou os trabalhadores e então já sabia a aparência de quem ele precisava, então levou Fredersen até onde Maria fazia as pregações e deixou que ele ouvisse suas histórias, até que Fredersen com raiva fosse embora, então aproveitou um momento em que Maria estivesse sozinha e a sequestrou, levando-a até seu laboratório e fazendo o procedimento, dando a Summa a aparência da bela Maria através de uma cerimônia em que mistura ciência e ocultismo.


Summa com a aparência de Maria foi até os bordéis da cidade, atiçando os ricos a se lançarem na luxúria, com maldade e beleza ela conquistava a todos. Em suas apresentações cantou músicas obscenas, se intitulava de “prostituta da Babilônia”, dançava de forma hipnótica forçando os homens a brigavam pelo sua atenção, às mulheres nos salões ficavam tristes, chocadas e com raiva, mas nada podiam fazer para recuperarem seus maridos, esse misto de sensações as faziam entrarem em transe, acabando se drogando com todos.


Em certo momento na obra Freder encontrou seu amigo Jan perdido na cidade, o mesmo lhe contou da garota bonita que chegou nas boates com o seguinte relato “ Quero contar outra história: um homem e uma mulher de cinquenta e quarenta anos, ricos e muito felizes, têm um filho. Você o conhece mas eu não quero citar nomes. O filho viu a garota. Ele enlouqueceu. Invade a casa. Avança sobre o pai da garota: ‘Me dê a garota! Estou sangrando por ele!’. O velho sorri, dá de ombros, fica em silêncio, lamenta: a garota é inacessível. O jovem quer atacar o velho e, sem saber ao certo por quê, acaba rodopiando e é lançado para fora da casa, posto no olho da rua. Levam-no para a casa dele. Ele fica doente e está à beira da morte. Os médicos dão de ombros. O pai, que é um homem cheio de orgulho, mas bondoso, e que ama seu filho mais que qualquer coisa na terra, decide visitar ele mesmo o velho. Deixam que ele vá, sem empecilhos. Ele encontra o velho e, com ele, a garota. O pai diz para a garota: ‘Salve meu filho!’. A menina olha para ele e diz com um sorriso da mais doce desumanidade: ‘Você não tem filho…’.


Ele não entende o significado dessas palavras. Quer saber mais. Ele pressiona a garota. Ela dá sempre a mesma resposta, ele aperta o velho, que apenas dá de ombros. O velho mantém um sorriso pérfido na boca… De repente, o homem entende. Ele vai para casa. Repete as palavras da garota para a mulher. Ela desmorona e confessa sua culpa, que não expiou depois de vinte anos. Mas não importa com o próprio destino. Não pensa em outra coisa além do filho. Vergonha, abandono, solidão… Tudo isso não é nada; mas o filho é tudo. Ela vai até a menina e cai de joelhos diante dela: ‘Eu imploro, pela misericórdia de Deus, salve meu filho!’. A menina olha para ela, sorri e diz: ‘Você não tem filho…’. A mulher acredita ter uma louca à sua frente, mas a garota estava certa. O filho, testemunhando secretamente a conversa entre pai e mãe, tinha posto fim a própria vida.”(Páginas 236,237), podemos ver nessa passagem a maldade encarnada em Summa.


Além de atiçar os ricos Summa, com aparência de Maria, também foi até o subterrâneo fazer as pregações, mas agora dizia que o tempo do messias havia passado, que era hora de agir. Dessa forma ela conseguiu atiçar o coração de todos trabalhadores, com o brando “NÓS ANUNCIAMOS O VEREDITO DAS MÁQUINAS! NÓS SENTENCIAMOS AS MÁQUINAS À MORTE!”, aos gritos de guerra foram tomar as máquinas, Summa os levou direto a máquina que era o coração da cidade, ao qual o capataz já estava os esperando, então o mesmo fechou a porta para que os homens não quebrassem a máquina.

Summa, de maneira diabólica liga para a sala da máquina, simulando a voz do senhor Fredersen pede ao capataz que abra a porta, ele tenta negociar mas devido a semelhança da voz acaba cedendo. Os trabalhadores agridem o capataz, enquanto Summa move a alavanca da máquina para o nível máximo e então a grande máquina que bombeava energia para a cidade começa a “infartar”. Por fim o capataz aos prantos chama todos de assassinos, pois a máquina alimenta as bombas que evitavam o subterrâneo de inundar, e graças a isso todos os filhos dos trabalhadores iam morrer, nesse momentos todos entraram em um estado de profunda tristeza e arrependimento, Summa saiu do local sem ser vista.


Maria consegue fugir da casa de Rotwang pelos túneis que ligavam a casa ao subterrâneo, com o tempo ela sentiu algo lambendo seus pés “Como se fosse a língua de um cachorro grande e gentil”, era a água que começava a entrar no subterrâneo,a medida que avançava, a água ia subindo e uma voz começou a ser ouvida “Você não sabe, bela Maria, que sou mais rápida que os pés mais rápidos? eu acaricio seus doces tornozelos. Logo vou alcançar seus joelhos. nunca um ser humano envolveu seus ternos quadris. mas quero fazer isso antes que você conte mil passos. E não sei, bela Maria, se você atingirá seu objetivo antes de me recusar seus seios…”, quanto mais avança, mais a água com uma voz profunda começa a provocá-la dizendo “Bela Maria, como são doces os seus quadris… Será que o homem que você ama nunca vai experimentá-los? Bela Maria, ouça o que eu digo: apenas um pouco ao lado deste caminho há uma escada que leva à liberdade… seus joelhos tremem, como isso é doce! Acham que pode vencer a fraqueza cerrando suas pobres mãos? você invoca a Deus, mas acredite em mim: Deus não pode ouvi-la! Desde que cheguei a terra na forma de um Grande Dilúvio, a fim de corromper todos os seres, exceto os da arca de Noé, Deus é surdo ao clamor de suas criaturas. Ou você acha que esqueci como as mãos gritavam naquela época? A sua consciência é mais responsável que a consciência de Deus? ê meia-volta, bela Maria, dê meia-volta!”, outra fala interessante da água é “Agora você está me deixando com raiva, Maria… Agora quero matá-la” Por que você joga gotas de água salgada e quente em mim? Abraço seu peito, mas ele não me interessa mais. Quero seu pescoço e sua boca ofegante! Quero seu cabelo e seus olhos chorosos!”. Após as palavras da água, Maria consegue chegar às casas dos trabalhadores, que ainda não haviam sofrido com a chegada das águas, ela começa a chamar pelos trabalhadores, então aparecem somente crianças, os filhos dos pobres trabalhadores que não sabiam o que estava acontecendo.


Essas são algumas passagens que me fizeram refletir no peso dessa obra, com inúmeras referências bíblicas, uma maldade representada de forma sublime, o fim de Summa foi ser chamada de bruxa e queimada em frente a uma igreja, Maria e Freder conseguem salvar os filhos dos trabalhadores que agradecem a Freder, Metrópolis sofreu uma grande destruição, mas no final quando Freder se reconcilia com seu pai, fica nítido que a promessa de Maria onde a mão (Os trabalhadores), iria se reconciliar com o cérebro (Fredersen) assim que o coração (Freder) fizesse a ponte entre os dois. Recomendo a todos a leitura do livro ou, pelo menos, assistir ao filme que está no Youtube, dessa forma qualquer um poderá ver as referências bíblicas dessa obra.