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Se eu fui perdoada, por que é que não perdoarei?


Por Júlia Coelho



Hoje quero falar sobre o perdão, através de uma história minha.


Foi no período entre meus 5 a 7 anos que sofri abusos por parte de um avô. Absolutamente sem condição de entender o que se passava, eu apenas me sentia mal, suja, errada.


Alguma coisa estava fora do lugar, eu apenas não entendia o porquê. Os atos consistiam em me beijar na boca, passar a mão em meu corpo e fazer-me tocá-lo. A minha incompreensão era tamanha que mesmo com o alerta ligado, eu atendia aos seus chamados.


Os episódios sempre aconteciam de maneira rápida, até mesmo com outros familiares dentro de casa. Ele aproveitava um momento a sós comigo e deixava a sua marca.


O último episódio foi o que mais marcou a minha memória, pois lembro-me do enorme pânico que senti, uma sensação horrível crescente dentro de mim, somada ao medo e a ansiedade.


Nesse dia, depois de muito suar frio, eu cheguei e contei para os meus pais. Mas eu me sentia tão culpada, tão errada, que tive coragem apenas para dizer sobre o beijo e então soterrei todas as lembranças no mais fundo de minha mente, de meu ser.


Nenhum pai e mãe são preparados para um momento como esse. Na tentativa de não me apavorar mais, meus pais conversaram com minha avó e minhas tias e decidiram suspender o assunto.


Nunca mais me deixaram sozinha com ele e o tempo seguiu seu curso, sem causar nenhuma ruptura. Eu passei os anos seguintes bem, apenas com a sensação de que uma sombra habitava meu interior, porém continuava sem entender o que aquilo significava.


Foi na adolescência, ao descobrir a sexualidade, que eu finalmente entendi o que havia se passado. Neste exato momento, foi como se uma bola de neve, que até então era apenas uma sombra, se soltou e veio como uma avalanche, me dando um strike violento.


Foi muito difícil lidar com isso. Me cortei diversas vezes, na tentativa de extravasar a dor que eu sentia. Quando você sofre abuso, você não se sente seguro nem mesmo em seu próprio corpo, porque ali fora invadido.


Tudo fica extremamente abalado e você não tem para onde correr, já que é de você mesmo, de seu corpo que você deseja fugir.


Um belo dia, no meio do furacão, esqueço a navalha no banheiro e minha mãe descobre. Eu estava com 15, quase 16 anos na época. Ela vem até mim muito assustada e me confronta.


Ali eu já não pude mais me segurar. Contei tudo, tudo aquilo que aos 7 anos eu não consegui e que por anos eu havia sufocado. Caímos as duas em prantos. Ela liga para o meu pai, que havia se separado dela e morava em outra cidade e lhe conta os detalhes.


Ele vem na mesma hora e chora, pela primeira vez, na minha frente. Me abraça e me pede perdão, como se ele tivesse sido o culpado. Chama-se novamente minha avó e minhas tias e a ruptura acontece.


Fiquei anos sem contato com a família de meu pai, porque mesmo amando minha avó e minhas tias, eu não tinha condição de lidar com aquilo que elas me remetiam. Fiz terapia por 3, 4 anos e aos poucos fui soltando essa pedra.


O que contei até aqui é para dar a vocês o contexto da situação. Eu estava bem, mas ainda não havia largado de vez a pedra. Carreguei-a comigo até meus 26 anos, onde me encontro hoje.


Faz cerca de 2 anos que encontrei Deus e Jesus. Fui me aproximando da maravilhosa companhia deles, estudando a palavra, orando, pedindo a Deus que me guiasse e que me desse sabedoria.


No dia em que assisti a Paixão de Cristo, fui para a janela, contemplei o céu e chorei, pois ali eu entendi o quanto eu havia machucado Cristo. Ali se inicia meu aprendizado sobre o perdão.


Quando se compreende o quanto seus pecados, suas quedas, suas misérias recaíram sobre Nosso Senhor Jesus, quando você faz o exercício doloroso de imaginar, pelas cenas do filme, cada ferida, cada temor, cada dor de Jesus, a pergunta que surge é:


Se eu, que machuquei a Cristo infinitamente mais do que me machucaram, e ainda sim eu fui perdoada, por que raios eu não perdoarei?
Por que raios eu ainda não havia soltado a pedra que eu carregava em relação ao meu avô?

E assim, eu a soltei, definitivamente. Era a única coisa certa a ser feita. Não tenho o direito de carregar mágoa de ninguém, pois eu machuquei a Cristo muito mais.


Meu avô, depois de descoberto, foi ficando muito doente. Minha avó, que sofreu com isso tudo tanto quanto eu, ou até mais, cuida dele até hoje. Mandei para ela esses dias uma mensagem, dizendo o quanto eu a admiro por essa atitude.


Ela sofreu toda a vergonha, a humilhação e ainda sim é digna o suficiente para cuidar daquele que a feriu.


Louvado seja Deus, por ter nos dado Jesus.


Amém.