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DIZ O LEITOR: "Reflexão de um Subsolo."

Em Memórias do Subsolo, Dostoievsky nos apresenta um personagem frustrado e amargurado, em parte por pressão que sofria dos pares. Essa pressão afetou-lhe de tal modo que não conseguia externar seus sentimentos nem seus pensamentos, tanto pela repressão quanto por estar cercado de gente medíocre e ignóbil. Lá no fundo, talvez, era alguém verdadeiramente inteligente, alguém verdadeiramente criativo; era alguém verdadeiramente bom com sentimentos nobilíssimos como honra e amor. Infelizmente tudo aquilo foi reprimido pela mediocridade ao seu redor, pelas frustrações, jogando para o subsolo de sua alma todas as virtudes, envolvendo-as de baixeza.

Mantinha uma luta constante, queria de alguma forma externar algum posicionamento, queria de alguma forma impor-se, desejava embates, desejava brigar, desejava por os ombros para trás e as costas eretas, mas não conseguia. O estado de sua amargura, os embates dos diversos sentimentos brigando dentro de si, findavam em ele não conseguir agir e recolhia-se humilhado diante da própria fraqueza, encolhia-se em um canto, como um rato. A angústia também sempre perseguia os pensamentos, por vezes perdia-se em devaneios de nobreza e baixeza, mas que refletiam o sofrimento causado pelos sentimentos mais diversos que ele carregava dentro de si. Entregou-se ao subsolo da alma, se deixou levar por uma amargura profunda e paralisante que não o permitia ser nobre e virtuoso nem agir com total vileza, simplesmente alimentava a própria amargura. Temos vários momentos em nossas vidas que nossas maiores virtudes podem florescer tendo como “adubo” a unidade da nossa alma, avançando impetuosamente contra todos os elementos dispersantes ao nosso redor, rompendo o solo árido e permitindo que as raízes das virtudes se apeguem ao âmago do nosso Ser. Caso esse ímpeto seja contido, somos soterrados, obrigados a viver no subsolo, o germe torna-se um verme.


Por Matheus Galletti - twitter.