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Ecos do Umberto: O Fascismo Eterno e o Imaginário

Algumas considerações sobre a obra de Umberto Eco que definiu o moderno conceito de fascismo.


O altamente polarizado debate político que se formou no Brasil desde a ascensão de Jair Bolsonaro durante a campanha eleitoral de 2018 trouxe a novidade de um candidato que se apresentava como conservador depois de muito tempo de hegemonia política da esquerda e da centro-esquerda. Por mais que se buscasse tratar o PSDB como "direita neo-liberal", o próprio Lula certa vez declarou sentir felicidade quando, em plena campanha eleitoral, afirmou que todos os candidatos eram de esquerda - incluindo o PSDB, obviamente. Com um candidato que aglutinou visões antagônicas aos paradigmas da esquerda em vários setores, os embates que se seguiram foram ferozes. Para a militância de esquerda e grande parte do público, acostumado ao discurso esquerdista presente na mídia, o conservadorismo era - e é - um inimigo grotesco a ser derrotado, desmoralizado, destruído. E na linguagem utilizada para tal, a pecha mais insistentemente repetida até hoje é a de fascista. Convencionou-se, em boa parte da militância de esquerda, chamar quem está no lado oposto do espectro político de "fascistas", algumas vezes até de "nazistas", mas foi a primeira definição a que mais "pegou". Graças à experiência da Segunda Guerra Mundial, chamar alguém de nazista ou fascista é reduzi-lo a algo maligno, nojento, abjeto, que sequer merece ser considerado humano. Com isso em mente, os movimentos ditos "antifascistas" adotam posturas agressivas e defendem o banimento (ou até agressão física) de qualquer um identificado como fascista.


Não se trata apenas de atribuir uma imagem horrenda para colar no inimigo rótulos assustadores e usar a chamada "tática do espantalho", mas isso tem um amparo ideológico. Conscientemente ou não, todo esquerdista que chama um conservador de fascista está seguindo linhas gerais apresentadas por um renomado escritor, o italiano Umberto Eco (1932~2016), autor de obras como O Nome da Rosa e O Pêndulo de Foulcault.


Sua obra O Fascismo Eterno nasceu de uma conferência apresentada em 1995 na Universidade de Columbia, nos EUA. Nela, Eco falou sobre sua infância na Itália fascista de Mussolini. Ele se apresenta como um sobrevivente da experiência fascista na Itália e se mostra alguém que estudou como esse tipo de fenômeno se deu em outros países. Assim, ele apresenta sua visão sobre o fascismo como um modelo de autoritarismo que pode se mesclar a diferentes realidades e com diferentes características. Segundo o autor, é possível eliminar de um regime fascista um ou mais aspectos e ainda assim reconhecê-lo como fascista. Trata-se aqui de uma utilização de um dos três princípios que o filósofo escocês David Hume (1711~1776) identificou como necessários para estabelecer uma conexão entre ideias. Seriam elas a de semelhança, de contiguidade e de causa/ efeito. Eco identifica elementos presentes em diversos regimes fascistas e os nomeia como sendo, cada um deles, um elemento definidor do fascismo como um todo. Assim, ele usa da relação de contiguidade, considerando que os aspectos de um regime são conectados com sua ideia principal e, portanto, dependentes. Pode parecer óbvio que tal conexão existe, mas pode-se questionar a extensão dessa conexão, sua intensidade e se há também semelhança ou relação de causa/efeito entre as características analisadas.

Umberto Eco chega a listar 14 características do que ele define como Ur-Fascismo, ou o Fascismo Eterno. A primeira seria o culto à tradição, conforme ele exemplifica com diversas variantes que mesclam religiosidade com interesses locais. Mas a simplificação de definir o tradicionalismo como parte de um pensamento fascista é absurdo. Basta recorrer a um ícone da esquerda, o filósofo francês Jean-Jacques Russeau (1712~1778) e seu conceito de "bom selvagem", estereotipado no indígena puro, sem influência do homem branco das cidades. É só observar como tribos indígenas cultuam suas tradições e as passam de pai pra filho. Índios são fascistas por natureza? Feita essa indagação, vamos à distante província de Okinawa, no sul do Japão. Seu povo é considerado o mais tradicionalista do arquipélago nipônico, dono de uma rica cultura milenar. Agora, imagine uma cena em que uma avó de 80 anos ensina, a um grupo de pequenos netos, canções e danças folclóricas sobre heróis locais que marcaram a identidade de seu povo. Essa imagem bucólica representa o fascismo?

Outra marca do fascismo, segundo Umberto Eco, é o nacionalismo, o mínimo denominador comum a unir os mais desfavorecidos e ressentidos socialmente em um país. Ele identifica a "necessidade" de imaginar inimigos estrangeiros para unir os nacionalistas em torno do líder de um projeto de poder. No entanto, esta é uma visão estreita e maniqueísta do nacionalismo. No livro A Virtude do Nacionalismo, o israelense Yoram Hazony fala sobre o valor da identidade cultural de um povo e como isso representa uma força positiva capaz de fomentar progresso, tolerância e entendimento entre os povos, em contrapartida à ideia globalista de eliminar as fronteiras e nivelar todos os povos em nome de uma governança mundial. Tal ideia é um dos sonhos do socialismo no século XXI e, de certa forma, Umberto Eco ajudou a fortalecer esse ideal.


Uma educação voltada ao desenvolvimento de um senso de heroísmo é identificada como sendo outra marca do fascismo, associando o comportamento de um herói ao culto à morte. Como se todo herói na concepção "correta" do escritor fosse alguém que espera impacientemente pela morte gloriosa e acaba levando outros a morrer antes dele. Não se fala sobre valores altruístas que nortearam grandes sacrifícios ou mesmo do senso protetor de um pai disposto a morrer por sua família. Se tem valores pautados pelo heroísmo, é um fascista. Conservadores prezam valores e exaltam seus heróis e, por isso, são facilmente jogados no campo fascista pela visão de Umberto Eco.


1984, a obra distópica de George Orwell (1903~1950), é citada também para exemplificar outra característica do Ur-Fascismo. Segundo Eco, fascistas usam a "novilíngua" ou "novafala", conceito presente em 1984 para definir palavras simplificadas ou modificadas para limitar a elaboração de um pensamento complexo e crítico. No entanto, é a direita que tem criticado fortemente a deturpação de palavras e os neologismos utilizados para fins identitários e divisionistas pregados pela esquerda. Cada aspecto pode ser analisado à luz de exemplos que mostram uma diferença enorme entre algo ter potencial para ser exagerada às raias do fascismo ou não. Aceitar cada item listado como sendo uma regra dogmática e sem escala de proporções é desprezar que existem outros horizontes além do que é exemplificado.

Sempre apontado como um pensador de esquerda, Umberto Eco identificou diversos traços presentes na direita e os relacionou ao fascismo, criando assim um tipo de espantalho que direcionasse o pensamento de seus leitores a enxergar o fascismo em tudo o que fosse contra o pensamento coletivista presente no socialismo e no comunismo. O Fascismo Eterno tornou-se um tipo de livro de dogmas de filosofia política capaz de identificar a presença de qualquer movimento conservador e assim tirar sua legitimidade de existir enquanto expressão política. Com uma boa retórica, cria-se um tipo de fascismo imaginário e ao mesmo tempo onipresente em qualquer coisa que não esteja dentro dos parâmetros coletivistas que norteiam o pensamento de esquerda. Não se pretende aqui listar cada uma das características, pois algumas demandam análises muito mais complexas do que simplesmente questionar ou discordar. O livro também não aborda as definições do próprio Mussolini sobre o papel onipresente do Estado na ótica fascista, talvez porque isso mostre sintonia com o pensamento socialista em relação ao papel da administração pública. Ainda assim, há valor em identificar tantos elementos presentes em regimes fascistas, para assim fazer uma autocrítica sobre os limites do que é razoável e do que beira o fanatismo intolerante em qualquer vertente política. A reverência às tradições pode ter um lado belo e lúdico, mas pode descambar para a perpetuação de práticas cruéis ou anacrônicas em relação a uma vida em sociedade civilizada. O assassinato de bebês nascidos com alguma deficiência, prática indígena antiga e só recentemente combatida, é um exemplo disso. Já o nacionalismo pode ser um elemento de união e identidade de um povo, sem necessariamente envolver o desejo de subjugar o outro e incentivar a troca de experiências enriquecedoras. Mas também pode criar paranoia, racismo e xenofobia se for mal direcionado. Tudo, na verdade, pode cair para o mal se não for equilibrado com bom senso, valores morais, espirituais e respeito. E certamente, no campo da militância política de direita, existem os radicais que se encaixam no estereótipo fascista, tendo pouca base cultural, vários ressentimentos e muita fúria contra aqueles que vê como seus inimigos. Esses, entretanto, não representam nem a totalidade e nem a essência do movimento conservador ou de direita.

Analisado criticamente e não como conjunto de dogmas inquestionáveis, O Fascismo Eterno ajuda a entender como se formou e alimentou a visão esquerdista de que todo movimento de direita tem uma raiz fascista. Com a conotação de monstruosidade óbvia que o rótulo carrega, acontece tanto a demonização da direita mais aguerrida, quanto a tentativa da esquerda de calar qualquer oposição através de pessoas apavoradas com qualquer coisa que vagamente lembre algo que pode ser conectado ao pesadelo fascista.


Com todos os seus exageros - e exatamente por causa deles - a obra de Umberto Eco é uma interessante referência a ser debatida nestes tempos de intolerância, perseguição, patrulhamento ideológico e dificuldade de entender como o outro pensa.


Título: O FASCISMO ETERNO Título original: IL FASCISMO ETERNO (1997) Autor: Umberto Eco Formato: 12 x 18 cm, com 64 páginas Editora: Record (versão 2019) - Também disponível em formato eBook Kindle.


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- Nota: Este artigo é um mero exercício crítico de um leitor sem qualquer gabarito ou formação acadêmica para analisar uma obra de um dos mais celebrados intelectuais do século XX. São questionamentos de leitor comum, que estranhamente não costumam ser feitos, tentando entender a origem de ideias que se fazem tão presentes atualmente.


- Texto publicado originalmente em 2019 no extinto blog Reflexo Cultural, de Ale Nagado, e reproduzido aqui com sua permissão.