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Enquadrada na Direita espertinha

Por Evandro F. Pontes



Quando as lideranças intelectuais saem em retiro para cuidar da saúde, pesquisar para escrever livros, trabalhar em projetos de longo prazo, a turma que vive de seguir pautas (vulgo “direita espertinha”), fica toda “soltinha” nas redes sociais, merdejando imbecilidades coletivas (cuja nomenclatura deu por bem reclassificar essas imbecilidades coletivas para o termo “briefing”).


Nessas horas, alguém precisa suspender o retiro, acender a luz do quarto e dar uma enquadrada na criançada.


Pois bem – larguei o meu retiro para cumprir essa função.


E a enquadrada deste momento diz respeito a uma imbecilidade coletiva que passou a circular desde o instante em que o presidente e matemático Jair Bolsonaro afirmou ontem a tarde: “O Centrão é um nome pejorativo. Eu sou do centrão. Eu fui do PP, fui do PFL… O PP lá atrás foi extinto. O tal Centrão, são alguns partidos que se uniram em favor do Alckmin”.


Não estou aqui inventando falas. O matemático foi absolutamente claro e cristalino: 1. O Centrão é pejorativo; 2. Ele tem essa origem política; 3. Essa gente apoiou o Alckmin contra ele (e até o chamou de “fascista”), ergo, ... ele é Centrão.


Veja bem, leitor arguto e leitora atenta: ele não disse “eu sou conservador mas preciso do Centrão para governar”. Ele disse claramente algo como “o Centrão é uma merda, eu vim de lá e eu sou isso” (estender a conclusão do que o Centrão é, para o que o declarante é, por extensão de pertencimento de um no outro, eu faço questão de deixar a seu cargo, leitor e leitora).


Não há o que tergiversar.


O raciocínio não deixa margem para qualquer dúvida.


Mas eis que o briefing aparece com a famosa narrativa lulista de “não queremos ser virgens em prostíbulo” (e, muito cá entre nós, não sei porque cargas d’água todo exemplo necessariamente precisa envolver “ânus” ou “prostíbulo”, mas isso são outros 500...). A questão central não é a virgindade no prostíbulo, mas a presença em si de uma virgem num lugar onde ela não deveria estar. E essa é a divisão da “pureza” versus a “súcia permitida”. Pensar assim, obviamente, é no mínimo anticatólico.


Litteris, o briefing tem saído com coisas do tipo: “O presidente precisa ‘sobreviver’ e a direita conservadora nunca pode lhe oferecer o que ele precisava para governar”, ou “venezuelanos e cubanos não conseguem se unir para vencer a ditadura que faz o povo comer cachorro e você fica ai brincando de querer ser perfeccionista?”.


A subversão total e absoluta do argumento foi completamente espancada pela inteligentíssima resposta do deputado Dom Luiz Philippe de Orleans e Bragança: “Eu não sou Centrão. Sou de direita e vou continuar sendo o que sempre fui. Minha opção de futuro partido terá que respeitar isso ou fico sem partido”.


Sim, cazzo!


Quando alguém fala “eu sou Centrão” a resposta correta não pode ser “eu sou também porque estou contigo”, mas sim “eu não sou Centrão”.


Mais: o exemplo venezuelano é tão tosco, estapafúrdio, rude, grosseiro e caricato que basta lembrarmos – os termos não são comparáveis pois se Cuba é uma ditadura, o Brasil não é, oraporra! Pior – além de não sermos uma ditadura, a direita está (ao menos teoricamente) no governo e não na mesma posição em que se encontram os “desunidos de Venezuela”.


Esse estupro da lógica comparativa está na base da corrupção da inteligência, como mostrou Flávio Gordon: é a porta de entrada para toda e qualquer fraude intelectual maquiavélica, logo, uma troça sobre o conceito do senso das proporções.


É indubitável que a “direita espertinha” opera dentro do que um intelectual de esquerda acertadamente chamou de dialética da Malandragem.


Antônio Cândido, quando explicava o modus operandi de Leonardo Pataca, o faz para comprovar que o Memória de um Sargento de Milícias não é um romance picaresco, pois Pataca está longe de um Pícaro. Ele é o típico malandro. Explica Cândido, “passando de amo a amo, o pícaro vai-se movendo, mudando de ambiente, variando a experiência e vendo a sociedade em conjunto”. Já Pataca não: “como os pícaros, ele vive um pouco ao sabor da sorte, sem plano nem reflexão; mas ao contrário deles nada aprende com a experiência”.


Logo, a gênese dessa malandragem, que tem sua dialética própria, se articula entre o binômio tolice vs. esperteza – “a tolice, que afinal se revela salvadora, e a esperteza, que que muitas vezes redunda em desastre, ao menos provisório”.


Tergiversar sobre a matemática frase presidencial, confundindo deliberadamente “necessidade de aliança” com “ser daquela mesma espécie” é o típico exemplo atual de dialética da malandragem, funcionando nessa “direita espertinha”, nessa “diretinha do briefing”, que agora merece ser chamada de “centrinho” – fala cretinices todos os dias, apanha por causa delas e não é capaz de aprender com a própria experiência.


A intelectualidade da “direita espertinha”, da “direita cercadinho”, desse “centrinho” ignominioso, tentou fazer tabula rasa da afirmação presidencial para criar um clima de conserto na frase ao dizer “ele precisa se aliar com B, mas é A”, sendo que ele claramente disse “sou B, não sou A, sempre fui B e com B andarei hoje e sempre, pelos séculos dos séculos”.


Essa molecada inconsequente precisa tomar uma enquadrada e ser chamada a responsabilidade: ou exerça seu papel de intelectual que dá suporte a políticos como LPOB, ou assume logo, “eu também sou centrinho, sempre fui isso e só estou aqui para não desmonetizar meu canalzinho ou conseguir uma boquinha com os amiguinhos do centrinho”.


Seria mais honesto.


Mas todos sabemos que se a honestidade não é o forte do Centrão, nem dos prostíbulos sempre presentes nos exemplos, não é isso que vai, justo agora, fazer diferença para quem chafurda no barro e comemora as próprias impurezas, zombando da pureza alheia como um fariseu de Youtube.