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Externalidades e vacina


“Externalidades” é um jargão comum do economês que para o povo dos boletos equivale ao que, na fila do pão, chamam de “efeitos colaterais”.


As externalidades podem ser negativas ou positivas. Quando são negativas, o povão chama isso de “cagada” e os mais jovens de “shit happens”. Quando são positivas o povão chama de “sorte” e os mais jovens de “rabo”.


As externalidades ocorrem quando duas pessoas em uma relação fechada celebram um acordo e certos efeitos desse acordo atingem quem não participou dele.


Há efeitos positivos e negativos.


Um exemplo clássico de efeito negativo é a poluição causada por automóveis: um consumidor e um fabricante celebram um contrato de venda e compra, ambos se beneficiam - o fabricante com o dinheiro do consumidor e o consumidor com o produto vendido pelo fabricante. Mas o consumidor, ao usar aquele bem cedido onerosamente pelo fabricante, faz com que esse bem emita poluentes e atinja, assim, outras pessoas que não participaram do contrato. Eis ai um exemplo de externalidade negativa, cagada ou “shit happens”.


Na externalidade positiva há o que os americanos chamam de “free riding” (carona). Exemplo disso são as ações judiciais coletivas, como as ações de classe (class actions): uma pessoa entra com uma ação contra uma empresa ou sua administração por falhas que esta pode ter cometido. Se condenada a administração, não apenas o acionista que moveu a ação é beneficiado - todos o são, por lei. Eis ai um exemplo de externalidade positiva, sorte ou puro “rabo”.


Quem estudou isso pela primeira vez foi um economista chamado Pigou. Ele usou essa tese para estimular uma serie de outros economistas, na sequencia, a justificar ações de intervenção estatal onde nunca antes houve a presença do Estado. Alguns outros inventaram desculpas para criar tributos, por meio de taxas e impostos, como meio de diminuir os efeitos dessas tais externalidades negativas.


Sobre externalidades positivas: ninguém liga.


Isso sequer da azo a muitos estudos: no máximo alguma coisa de econometria para não desestimular ações pro bono publicae que não sejam baseadas em “caridade”, para não ter que enfrentar o discurso católico.


Pois bem: dada essa introdução, podemos agora falar de vacina.


A vacina é um exemplo de externalidade positiva nas escolas clássicas. Seu exemplo é repetido nas Universidades de esquina Brasil afora. Ensinam assim: se boa parte da população for vacinada, logo vem a tal “imunidade de rebanho” e ai toda a sociedade tira proveito da vacinação da maioria; inclusive a minoria que não quis se vacinar.


O Ministro Paulo Guedes tem olhado para a pratica atual com leitura acadêmica. Pensa assim: as medidas preventivas de lockdown e distanciamento arruinaram a economia. Logo, se todos forem vacinados, as medidas que atrapalharam a economia irão ser postas de lado e logo a economia retomará seu curso positivo, pois todos sairão de casa para voltar a trabalhar e produzir.


Para Guedes a relação entre Estado (vacinador) e cidadão (vacinado) gerará uma externalidade positiva sobre a economia do país. Em outras palavras, a economia do país (como se fosse um ente autônomo) irá se beneficiar da relação de submissão entre o Estado e seus súditos.


Para atingir esse grau de otimismo Guedes descarta variações do vírus, novas cepas, o discurso recente de Xi Jinping e, last but not least, que autoridades sanitárias iammarínicas e barrosianas simplesmente ignorem essa logica do abandono do lockdown frente a uma vacinação geral.


Esta claro que o risco do lockdown permanecer mesmo com vacinação é completo e não pode ser descartado desse calculo.


Portanto, a ideia de que a retomada econômica depende da vacina é, ora ora, economicamente falsa.


Se isso não bastasse, há outros fatores não analisados no ME que redundam em verdadeira preocupação se o Brasil que vivemos é o mesmo que Guedes diz estar de olho. Senão, vejamos:


Neste ano que se passou há uma acelerada queima de ativos.


O crédito disponível esta encurtando e as pessoas esta trocando muito rapidamente bens por ativos líquidos, em especial, dinheiro em conta.


O meio circulante esta ficando escasso. A queda dos juros para estimular o credito não esta surtindo efeito. A produção industrial esta derretendo e a atividade econômica esta parando. As contas do Estado estão em frangalhos. O PIB negativo poderá superar em 1 ano o quem nem Dilma conseguiu em 5. Ao contrario de muitas apostas um cenário inflacionário tem resistido. O desemprego tem atingido patamares nunca antes obtidos na historia do Brasil. As falências e empreendimentos que são fechados por falta de meio circulante estão em níveis muito elevados. Ate o fim do ano, calculo, o desemprego poderá bater na casa dos 25 milhões. O assistencialismo vai cobrar a sua fatura. Uma seria bolha deflacionaria poderá estourar a qualquer instante. Nenhuma privatização ou desoneração vem sendo feita. Pelo contrario: o governo esta torrando bilhões com idiotices - da Aldir Blanc a vouchers milagrosos.


O que esta para acontecer é um estouro de dique sem precedentes.


Não há vacina para isso.


Aliás, vacina é prevenção; jamais meio de cura. E a cura na economia não vem como externalidade de uma prevenção alheia que, sabemos, há de ser ineficaz.


A solução, sabemos, não pode ser revelada. Se revelada, a censura ira cancelar este texto, o veiculo, seu autor o que nos resta de liberdade para constatar:


Per me si va ne la città dolente, per me si va ne l’etterno dolore, per me si va tra la perduta gente. Giustizia mosse il mio alto fattore; fecemi la divina podestate, la somma sapienza e ‘l primo amore. Dinanzi a me non fuor cose create se non etterne, e io etterno duro. Lasciate ogne speranza, voi ch’intrate.
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