• Alexandre Nagado

Fahrenheit 451 - O livro

A incursão em um mundo distópico e perigoso, onde o consumo de literatura é proibido e punido com fogo.

Em uma época indeterminada, o Estado tem controle rígido sobre o comportamento, o entretenimento e o modo de pensar das pessoas. Vivendo de forma alienada, atuando em peças teatrais virtuais, interagindo com telas que ocupam toda a parede, seguindo um script social rígido e vivendo despreocupadamente, as pessoas abriram mão de suas liberdades em troca de conforto e proteção estatal. No entanto, há regras a serem obedecidas, sob a ameaça de punições severas. Uma dessas proibições é a leitura de livros que, ao serem descobertos, devem ser imediatamente queimados pelos agentes do governo. Vem daí o título do livro, pois 451 graus na escala Fahrenheit (ou cerca de 233 graus na escala Celsius) é a temperatura no qual o papel entra em combustão.

Para combater o crime de se consumir literatura de qualquer tipo, existem os Bombeiros ("Firemen", em inglês), cuja função foi corrompida para, ao invés de apagarem incêndios, provocarem grandes fogueiras para queimar livros onde quer que se descubra que estão sendo escondidos.

Um desses bombeiros é Guy Montag, que vive de forma pacata com a esposa Mildred, uma mulher geralmente fútil com a qual ele divide uma existência vazia. Mas ele se orgulha do seu trabalho de destruir livros e aparenta ser o típico cidadão devidamente doutrinado para uma função. Na corporação, tem a amizade e confiança do chefe Beatty, um homem que demonstra ainda mais orgulho da função que desempenham dentro do sistema. A única coisa que aflige Montag é o Sabujo Mecânico, uma máquina caçadora que auxilia as corporações em suas missões. Mal sabia ele que sua vida repleta de certezas simples estava prestes a desmoronar.


A vida de Montag começa a mudar quando ele conhece a adolescente Clarisse McClellan, uma jovem pertencente a uma família que aparenta não se encaixar nos padrões vigentes. Cheia de vida e imaginação, Clarisse atiça a curiosidade de Montag sobre livros e ele começa a se questionar sobre o governo e suas regras implacáveis. O que Montag viria a descobrir é que a missão de um bombeiro pode chegar a limites extremos, destruindo com chamas não apenas livros, mas também seus proprietários.


Montag também conhece o velho Faber, um apaixonado por livros, com quem inicia uma perigosa jornada de posicionamento contra um sistema que ele enfim descobre ser opressor e extremamente cruel. Isso irá destruir sua vida tranquila e iniciar um pesadelo, mas ele não irá se entregar sem luta.

Grande obra de Ray Bradbury (1920~2012), Fahrenheit 451 é um livro cujo conteúdo sempre vem à tona quando se debate um Estado totalitário e avesso à cultura e à formação intelectual. Foi vertido em filme por François Truffaut (1932~1984) em 1966 e teve uma versão moderna lançada em 2018 pelo canal pago HBO. Seu enredo é uma das maiores referências quando se fala em um futuro distópico, ao lado dos romances 1984 (de George Orwell) e Admirável Mundo Novo (de Aldous Huxley).


Passado tanto tempo de sua primeira publicação, em 1953, Fahrenheit 451 é uma obra atemporal, que mostra como o consumo desenfreado de entretenimento vazio pode escravizar as pessoas e privá-las de senso crítico e de como a livre informação é vista como perigosa e subversiva para regimes autoritários.

O texto do livro é ágil, a progressão de acontecimentos deixa a história sempre interessante e a trama toda é contida em um espaço relativamente curto. Um "romance barato", como o próprio Bradbury define, com humor e excessiva humildade. É naturalmente uma grande obra, concisa e de mensagem poderosa, tendo sido traduzida em várias línguas e reeditada muitas vezes ao longo de décadas. A presente edição conclui com um delicioso posfácio escrito por Bradbury. Nele, é contado sobre as condições em que Fahrenheit 451 foi escrito, suas motivações e ideias. E avança no tempo, tecendo comentários sobre o filme de François Truffaut, inclusive dando um spoiler sobre uma alteração no destino de uma personagem que o deixou contente. Depois, conclui com uma "coda" (de "cauda", ou seção final) onde o autor comenta sobre as pessoas que o procuravam em nome de agendas identitárias ou ideológicas, reclamando de personagens, palavras ou ideias que poderiam soar preconceituosas ou restritivas para pessoas muito sensíveis.


Ray Bradbury odiava esse tipo de pressão para mudar obras a fim de atender agendas ideológicas e supostamente de defesa de minorias que se sentem "desconfortáveis" com um monte de coisas. Ele via essas pessoas que o procuravam como sendo o protótipo do tipo de gente que, em Fahrenheit 451, começava rasgando (ou alterando) parágrafos, depois páginas, depois livros inteiros, calando mentes e liberdades. O escritor teve contato com os militantes chamados atualmente de SJW (Social Justice Warriors), e sentiu na pele a aflição de que seu antigo romance, afinal, tinha algo de assustadoramente profético. Suas mensagens podem ganhar grande visibilidade no cinema ou na TV, mas é em sua forma original que a história tem seu impacto mais profundo e duradouro, por lidar com o imaginário e provocar reflexões na leitura silenciosa e imersiva, como todo bom livro.


Título: FAHRENHEIT 451 Título original: FAHRENHEIT 451 (1953)

Autor: Ray Bradbury

Tradução: Cid Knipel Formato: 13,6 x 20,8 cm, com 216 páginas Editora: Biblioteca Azul (versão 2019)


- Resenha publicada oficialmente no blog Reflexo Cultural e revisada pelo autor para postagem no Shock Wave News.

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