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Fatalismo à brasileira

Por Jacira S. L. Neto


O ano era 2018. E em meio ao choque que o país teve ao ficarem evidentes para a comunidade nacional e internacional o nível de corrupção que havia se tornado o núcleo principal da atividade política – não apenas incidental, como ocorre em todos os países –, foi realizada uma das mais complexas campanhas presidenciais da história pós golpe republicano.


Tínhamos um presidiário concorrendo por meio de seu procurador, uma ex-ministra do presidiário, um ex-ministro do presidiário, o ex-governador de São Paulo que por mais tempo governou o estado durante toda a história nacional (o santo), o militar polemista e alguns candidatos menores.


Com o passar do tempo vimos que a disputa seria entre quem mostrasse mais energia no combate ao esquema corrupto que desnudou parte importante do sistema política e empresarial do país, pois na corrupção à brasileira temos corruptos, corruptores e outros vícios todos imiscuídos, o que torna até uma tarefa trabalhosa detalhar a ampla teia de interesses e relações entre as redes criminosas.


Por conta de tal domínio, restou claro a população brasileira, que para evitar o caminho da Venezuela (o espantalho que a grande mídia e parte significativa da direita usou para exemplificar o que aconteceria se não “mudássemos de rumo”) precisaríamos de alguma alternativa.


Mas a raiva sempre esteve lá.


Afinal de contas, devido nossa profunda e antiga história de injustiças – de todos os tipos imagináveis–, onde a lei sempre era aplicada “a depender do paciente” como dizem os juristas, e quando o paciente faz parte do sistema oligárquico a lei basicamente não serve, basta considerar o caso célebre no caso do tráfico de drogas, onde a abjeta polícia de São Paulo trata traficante da zona oeste como drogado (os ditos usuários), enquanto que quando o drogado (usuário) quando é da zona leste é tratado como traficante, ou no caso do filho da desembargadora que matou atropelado policial em uma blitz da lei seca, e que foi solto pelos companheiros de tribunal da sua mamãe, a lista de casos esdrúxulos é gigantesca, como todos bem sabem.


Todas essas graves negligências para com a justiça, paulatinamente, transformaram a sociedade brasileira num povo sem alma, que usa o embuste da festa, do sorriso fácil e principalmente da profunda sodomia existente em nossa sociedade desde os tempos coloniais (a quantidade de padres com famílias, filhos de senhores de terras com as escravas, assim como uma certa tolerância para o degredo social disso decorrente).

Modernamente, essas características da sodomia brasileira estão presentes em fatos como: (a) termo a maior parada de pederastia do mundo; (b) o turismo sexual ser uma realidade inescapável de nosso país; (c) o alto consumo de drogas em nossas cidades, grandes e pequenas, que cria uma massa de zumbis que não temos solução além de reza e algum tipo de auxílio espiritual e psiquiátrico (casas com drogados, acabam adoecendo todo o grupo familiar); (d) televisão e internet que só reforçam aspectos hiper sexualizados de tudo e de todos (um rápido mergulho no mar de chorume que é o Twitter mostra o que parcela importante da população brasileira está sedenta); (e) o fato que parte importante de nosso povo se apoie em programas imbecilizantes como o Datena ou Balanço Geral, mostram o tamanho do buraco em que nos enfiamos...


Essa mistura, junto à uma profunda estafa com o estado de coisas que a quadrilha petista, juntamente com o Foro de São Paulo, havia deixado em nosso país, tornou viável uma figura tão frágil como Bolsonaro.


Bolsonaro é frágil, porque dentre todos os presidentes que o golpe gerou, ele é o único que não tinha uma expressividade anterior ao período eleitoral, todos os demais à tinham, seja pelo fato de terem sido políticos importantes em seus estados, seja por serem de algum grupo oligárquico importante, seja por estar no SNI como nos tempos da ditadura militar de 1964-1985.


Bolsonaro não faz parte de nenhum desses esquemas. Militar medíocre, político ruim (sempre defendendo interesses corporativistas), além de ser um dos muitos beneficiários da enorme máquina de transferência de renda da população pobre para a elite cleptocrática de funcionários públicos e empresariado sabujos do Estado. Sim, Bolsonaro faz parte desse grupo, dê uma pesquisada sobre de onde vem a sua fonte de renda.

Mas a raiva estava lá.


Junte a isso o fato que o nosso país, da transição período imperial período republicano, foi tornando-se uma nação de covardes, de pessoas fracas, sem determinação, e por isso mesmo, a ideologia de transferir toda e qualquer responsabilidade ao Estado foi tornando-se a regra. Aqui nada pode ou está fora do Estado, de forma muito mais inteligente e profunda, conseguiu-se, no Brasil, desenhar um estado de tipo fascista, muito mais sofisticado do que o tentado por Mussolini. Mais sofisticado pois uma pequena parcela da nossa população consegue enxergar o nosso sistema social como ele de fato é.


Foi a raiva que nos fez não olhar para as enormes vulnerabilidades de Bolsonaro, perceber o quão pérfido é essa bajulação aos militares e militarismo em tudo, uma vez que se pressupõe que são homens feitos, e, portanto, deveriam saber se defender, sem precisar que senhoras esquálidas, ou senhores mais pra lá do que pra cá, defendam a sua “honra”. Honra essa que eu sempre me perguntei onde estava?


Até porque, quando vamos ao detalhe, poucos são os episódios realmente louváveis dos militares brasileiros, salvo uma parte do que aconteceu na maldita Guerra do Paraguai, e parcialmente pela participação brasileira na Grande Guerra de 1939-1945.

De resto, o papel dos militares no Brasil sempre foi o de ter que fazer as “escolhas trágicas”, e em todas as vezes, optaram pelo que era melhor para eles e não para o povo (esse conceito tão difícil de definir).


Os episódios de Canudos, da Ditadura do Estado Novo e da Ditadura Pluripresidencial de 1964-1985 mostram do que os militares brasileiros são capazes de fazer para defender os seus interesses, que só raramente se confundem com os interesses do povo. Basta ver que se beneficiou nesses momentos, quem vivia melhor e principalmente, porque vivia melhor.


As respostas sempre estiveram lá, mas como a raiva também estava, a capacidade de julgamento restou prejudicada, e a ira justa que deveríamos mover para nos vindicar dos traidores do povo, obliteraram a prudência (uso da reta razão) e nos fizeram olhar para o abismo.


Um pouquinho de lábia para cá e lá, uma bravata acolá, foram reconfortando as almas, enquanto projetos e ideias claras do que e do como fazer as mudanças tão ansiadas e pedidas foram ficando para escanteio. E parte importante de nós tolerou isso, e por favor, não me fale do tal “plano de governo”, porque aquele documento pode ser no máximo identificado como uma “carta de intenções”.


Junte com a maravilhosa capacidade retórica do posto Ipiranga, que conseguiu enganar muitos por algum tempo, mas que hoje resta sem nenhuma credibilidade no mercado financeiro (ninguém sério leva muito a sério o que PG fala, até porque ele é muito ruim de resultado, seja pelas inexistentes privatizações, seja pela reforma da previdência que ainda permite tratamento diferenciado à uma série de categorias, seja pela sua dificuldade de apresentar projetos que vissem de fato destruir o estado varguista. E entenda, quem é do mercado financeiro precisa se movimentar muito mais por informações de qualidade e predição – isto é, usar o conhecimento acumulado para prever passos de empresas e governos...).


Eleito foi Bolsonaro, numa campanha que juntou uma série de eventos que torna desnecessário entretenimento para altas emoções. Houve de tudo, desde as acusações usuais, o pastor-candidato (nesse ano não era um quadrilheiro como o de 2014), a esquálida e seus colares ridículos, o invasor de propriedade e incitador da baderna, e houve o imponderável, e pelo que parte importante da população não esperava, houve o hediondo crime de tentativa (e quase efetividade) do assassinato de Bolsonaro.


Choque. A população percebeu até onde se poderia ir por conta da política, ou melhor, para onde a política de destruição nacional escolhida pela elite brasileira desde o golpe republicano estava nos levando. Foi feita uma espécie de campanha militarista (não a civilista como a dos tempos de Rui Barbosa) para ocupação de cargos eletivos. A população correspondeu, e tivemos a suposta “onda conservadora” ou “onda da direita” ou ainda “onda militarista” Brasil afora.


Pura balela, bastou serem investidos de seus mandatos, e já tivemos o ridículo espetáculo dos deputados que acreditam no “comunismo light” ou idiotices do gênero, a esquerda brasileira jamais cometeria um erro desses. Sobretudo erro do ponto de vista simbólico, uma vez que a Ditadura Comunista Chinesa em nada tem a ver com os valores e costumes da população brasileira (nós não comemos cachorro nem jumentos, embora parte de nossa população possa ser facilmente identificada com eles).


Ficamos à mercê das muitas bravatas, da bajulação de militares que nada fizeram para impedir o espólio que o povo veio sofrendo durante a dita “Nova República”, exata e precisamente porque eles são parte do esquema! Quantos militares tiveram que se ver as voltas com um “sinto informar, mas você foi desligado do nosso quadro de colaboradores” ou frase similar. Eles nunca passaram por isso, não compreendem o quanto isso machuca, ainda mais quando o país se vê mergulhado em crise econômica há pelo menos 6 anos, porque os crescimentos econômicos sob Temer e no primeiro ano de Bolsonaro, nem de longe conseguiram dirimir parte importante do descalabro econômico que a quadrilha petista gerou, diga-se de passagem com amplo apoio da sociedade brasileira (lembre-se, leitor, poucos setores da sociedade tinham coragem de criticar a quadrilha, e com razão, haja visto o que ocorreu com o prefeito de Santo André).

Nesse fatalismo, toleramos uma reforminha da previdência, que em nada alterou a perversidade de o Estado brasileiro ser o grande gerador de desigualdades e fundamentalmente o executor de uma política de transferência de renda dos pobres para os ricos.


Toleramos um governo que não tinha nenhum projeto para a educação (falarei com mais detalhes da minha área em artigo que estou revisando). Toleramos um governo que foi reticente na proposição de privatização das muitas empresas que só existem porque os pobres são espoliados para poder manter a existência de tais empresas.


Toleramos um governo que não desenhou uma nova política de subsídios para a agricultura, para no médio e longo prazo diminuir a capacidade de captura política de um dos setores importantes da economia brasileira, assim como impedir que tal setor capture a economia brasileira (que é o que está acontecendo, boa parte dos grandes ruralistas brasileiros não hesitariam um instante sequer em vender toda a soberania brasileira para QUALQUER potência estrangeira que pague o valor certo, quem se acostuma a viver no padrão que esta facção da elite brasileira vive, esquece o que é o Brasil real).


Toleramos um governo que se elegeu com discursos contra a banalização dos direitos humanos, que em nossa sociedade tornou-se o direito dos bandidos de barbarizarem e ainda serem bajulados por funcionários públicos, com a criação da excrescência que a Dilmares chefia. Toleramos a existência de uma Secretaria Nacional de Cultura, quando na verdade deveríamos ter tirado o Estado de toda e qualquer iniciativa cultural.


Toleramos um ministro fraco e débil a frente de área tão importante quanto o Ministério da Ciência e Tecnologia, e estamos vendo o preço cobrado pelo fato de Bolsonaro não ter a menor ideia nem do que é ciência, tampouco tecnologia, e menos ainda possui interesse de se cercar de quem entende, para que lhe dê os subsídios técnicos corretos para a tomada de decisão.


Deixe-me abrir um parêntese para falar sobre o que a inépcia científica do governo está custando ao nosso país.


A pandemia é uma realidade, estamos claramente em tempos de guerra biológica, e o vírus tendo ou não sido criado em laboratório, fato é que o Partido Comunista Chinês agiu DELIBERADAMENTE com vistas a esconder o que estava acontecendo, e deixar essa praga se espalhar pelo mundo. Isto é inequívoco.


Pois bem, logo no início de toda essa situação, alguns países rapidamente colocaram seus times científicos para se debruçarem sobre o que estava acontecendo. Alemanha e Estados Unidos da América foram dois dos primeiros países a desenvolverem testes rápidos com boa acurácia.


Não vou entrar aqui nos detalhes experimentais das razões para se querer alta acurácia em experimentos, e no caso dessa praga, isso seria fundamental para fazer os processos de rastreio dessa praga, e compreendermos de forma acurada como ela estava se espalhando em nosso país.


Ocorre que por motivos da sua escolha retórica em nível internacional, Bolsonaro optou por uma espécie de comportamento de sabujo de certos líderes, enquanto hostil a outros, e no caso de Angela Merkel, que é uma política extremamente calculista, a relação é quase nula, então dela não poderia esperar grande ajuda ou socorro. Pois a Alemanha já em 16/01/2020, por meio dos trabalhos de Dr. Christian Drosten desenvolveu teste para identificar a praga de origem chinesa.


Contudo, por ter escolhido a sua posição de sabujice, poderia ter requerido a Donald Trump (figura que ele bajula até hoje, e que nunca correspondeu em nenhum sentido) uma colaboração com o FDA que em 04/02/2020 aprovou o teste para detecção da praga.


Nada foi feito, e nesse momento ainda estávamos com alguma vantagem temporal, pelo fato de não haver voos diretos do Brasil para a China. Esse erro foi estrutural para toda a resposta brasileira à crise provocada por essa praga. A sua péssima assessoria científica (se é que ele tem uma) ajudou a transformar uma coisa ruim, numa tragédia, porque sem os testes confiáveis e com boa acurácia, não conseguimos saber de modo mais exato o que de fato estava acontecendo, e não fomos capazes de controlar, ainda que parcialmente o espalhamento do vírus.


Nesse interim, orientado por dementes e com sua postura absolutamente paspalha o presidente resolve fazer aquele pronunciamento terrível falando em “gripezinha” (se equiparando ao médico que adora abraçar estupradores homicidas) e ao invés de falar ao povo sobre como teríamos que enfrentar essa terrível quadra da história de nossa gente, optou por falas desconexas, e sem relação com o que todo o resto dos entes estatais brasileiros estavam falando, incluso o seu ministro da saúde de então. Deixou o povo tonto por um lado, e a mídia exasperando as pessoas por outro, e chegamos nessa situação absolutamente abjeta em que estamos.



À deriva. Sem rumo. E com a sensação de que o velho sistema patrimonialista oligárquico, quando retomar o poder de forma explícita (porque implicitamente nunca saíram do poder) terminará de controlar todas as últimas formas que a sociedade poderia encontrar para se defender, ainda que de modo desengonçado, do Estado.

Nesse fatalismo que a “direita inteligente” que Bolsonaro entende liderar, estamos cada dia mais nos colocando numa encruzilhada ainda mais terrível do que a que estávamos quando a Dilma foi retirada.


A sensação que fica é que o abraço do Dragão não será muito bom para a pobre fauna brasileira.