• Shock Wave News

Feminismo, aborto e desejo mimético: afinal, por que matar a criança?

Por Anônimo


Serei honesto com vocês: eu odeio falar de aborto. Compartilho plenamente a opinião do Gatão do canal Brasileirinhos: se você admite que aborto é um tópico para discussão, você já perdeu. Abro parcas exceções para pessoas que julgo estarem enganadas, mas de boa-fé.


Uma vez que identifico que não é o caso, nunca mais retomo o assunto, e peço para que Nosso Senhor Jesus Cristo tenha misericórdia dessa alma. Para mim, defender deliberadamente o aborto é um profundo sintoma de morte interior (que as vezes transparece exteriormente).



Moloque: o “deus” do Antigo Testamento que demandava sacrifício de bebês



Contudo, gosto de estudar o feminismo. Gosto de ler Simone de Beauvoir. Ela é uma mente brilhante, que escreveu com uma clareza e perspicácia que faz Sartre parecer o filho de avó que ele de fato foi. Esta é a impressão que guardei da leitura de “O Segundo Sexo”, que é, nas palavras de uma feminista famosinha nas redes, “a Bíblia do Feminismo”.*


Enfim, comecei a leitura de o “Segundo Sexo”, e a maravilhosa biografia de Sartre e Simone de Beauvoir, “Uma relação Perigosa”. Um dos livros mais deliciosos que já li, cuja leitura, aliás recomendo, já que a Amazon cobra módicos quinze reais.


Aborto e feminismo: como estudar um sem estudar o outro? Afinal, por que o aborto é tão caro ao feminismo? Essa pergunta veio à tona novamente por meio do caso do aborto da menina de dez anos, vítima de estupro, que foi celebrado como uma “vitória” pelas feministas.


Ora, qual o motivo da celebração? A nascitura morta era uma criança do sexo feminino, que estava no sexto mês. Curioso… Penso que, mesmo aos que defendem o aborto nesses casos, comemorar esta morte parece um tanto quanto excessivo.


Aliás, não é a primeira vez que o “direito ao aborto” é celebrado com profunda euforia por grupos feministas. Se o aborto é, como elas alegam, um “mal menor”, por que a comemoração? Parece existir algo mais profundo nessa necessidade de se comemorar o direito de matar os próprios filhos.


Expressões como “hoje comi feto no café da manhã” e “sopa de feto comeremos!”, que vi numa seção de comentários do Facebook, me mostraram que, mais do que se escolher um mal menor, há um verdadeiro desejo pelo sacrifício de bebês. A pergunta inevitável: por quê?


Para melhor responder, vamos abordar o pensamento de um antropólogo verdadeiramente genial chamado René Girard, que descobriu uma característica do ser humano que pode resolver essa questão: O desejo, no ser humano, é mimético. Falaremos disso adiante.



Teoria do Desejo Mimético: queremos o que o outro quer


René Girard percebeu, por meio da análise literária que expôs no livro “Mentira Romântica, Verdade Romanesca”, que o desejo do homem não é linear, mas triangular.

Explico: por que alguém desejaria ter uma Ferrari? Ao contrário do que parece, não é porque é um carro com qualidades infinitamente superiores aos outros. Desejamos uma Ferrari porque outras pessoas a desejam.


Nossos desejos estão sempre atrelados aos dos outros: desejamos o que desejamos porque os outros desejam o que desejamos. Nosso desejo é, portanto, mediado. A relação entre sujeito e objeto possui então um terceiro elemento, o chamado mediador.


Em sua obra, Girard mostra dois tipos de mediação: uma que não causa problemas, e outra que sempre os causa. A primeira modalidade chamarei de mediação remota. Ela ocorre quando, entre o sujeito e o mediador, não existe relação direta.


Exemplo: imagine-se o leitor um jogador de futebol que tem Pelé como inspiração. Ele certamente quer ser tão bom quanto Pelé. Mas, Pelé jogou em outro tempo, está há uns quarenta e seis anos aposentado, e não há quaisquer possibilidades de comparação direta.


Agora, imagine um jogador de futebol que possui um rival direto na disputa de uma posição no time titular. Você leitor, é talentoso, mas seu rival é ainda mais talentoso. Ele sempre consegue a vaga no time, enquanto o que lhe sobra é a função (nobre) de aquecer o banco de reservas.


Pense na inveja que que esta situação lhe causa: quer o lugar no time (que seu rival também quer) mas não pode obtê-lo, já que o concorrente lhe supera. Aqui temos a mediação realmente perigosa, que é a mediação próxima, na qual o mediador atua como obstáculo à satisfação do desejo, gerando um sentimento de inveja e ódio.


Note-se o seguinte: em ambas as modalidades de mediação, o mediador é responsável por despertar o desejo. Mas na mediação próxima, ao mesmo tempo que desperta o desejo, o mediador nega sua realização.


Esta condição, creio das experiências pessoais em que identifiquei essa relação, gera ódio contra si mesmo e inveja destrutiva contra o mediador. Acho que é uma reflexão com a qual René Girard concordaria.


Mas como a Teoria do Desejo Mimético explica o feminismo e o aborto?



Nelson Rodrigues estava correto: o real alvo de ódio das feministas


O genial Nelson Rodrigues sintetizou numa frase comicamente brilhante todas as provocações que se fazem ao feminismo enquanto ideologia e às feministas enquanto suas acólitas: “as feministas querem transformar a mulher num macho mal-acabado”.


Para nossa infelicidade, o genial dramaturgo não teceu maiores considerações sobre as causas desse desejo um tanto quanto… peculiar. É uma pena. Sua argúcia para entender o comportamento humano seria de grande valia para essa tarefa, cuja realização ficou conosco, reles mortais.


Minhas primeiras reflexões sobre feminismo, considerando suas pautas de igualdades de direitos (algumas pautas, em si mesmas, são perfeitamente válidas. Mas é bom lembrar que nem o demônio consegue mentir o tempo todo e nem por isso ele se torna menos demônio).


Isso me fez pensar o seguinte: muito bem, essas pautas são verdadeiras e legítimas, mas qual a necessidade de uma feminista ir abandonando, progressivamente, sua expressão estética feminina? Isso sempre me chamou atenção.


A resposta de Simone de Beauvoir, grosso modo, é que a expressão estética feminina é uma imposição social, o que se traduz na clássica frase “não se nasce mulher, torna-se mulher”, e essa imposição seria opressiva. Isto explica, mas não explica o fato de as feministas aproximarem sua expressão estética… do masculino. Sim, é verdade que nem todas o fazem, e nem com a mesma intensidade.


Entretanto, essa aproximação do masculino está presente em vários outros domínios. Se pararmos para notar, a centralidade do argumento feminista mais raso está no “se o homem pode, por que a mulher não?”. Afinal, não existem, na cabeça desse pessoal, não sei quantos gêneros possíveis? Não seria possível criar uma identidade totalmente nova? Por que o homem?


Ao tomar Simone de Beauvoir como exemplo, algumas coisas chamam atenção. A primeira delas é o fato de que ela tinha uma visão bastante negativa do corpo feminino**. Um trecho da biografia “Uma Relação Perigosa” não deixa dúvidas quanto à sua repulsa.


Para Beauvoir, também, o corpo é inferior. O corpo é um problema, particularmente para uma mulher. Além de aceitar a divisão mente/corpo cartesiana, ela compactua com Sartre em privilegiar o corpo masculino, embora vá mais longe que ele em venerar o falo “como simples e claro como um dedo” e denegrir o corpo feminino com seu útero misterioso.


“O que é uma mulher?”, quer saber Beauvoir. “Tota mulier in utero”, a mulher é um útero. “Oculto, mucoso e úmido, por sua natureza, sangra todo mês, em geral está sujo de fluídos corporais, tem uma vida secreta e perigosa própria”.


Bom, a biógrafa Carole Seymor Jones cita mais elogios do mesmo naipe, mas este trecho é suficiente para exemplificar o que quero aqui. Privilegiar o corpo masculino, venerar o falo, denegrir o corpo feminino, considerando o útero como algo sujo… Interessante, não? Eu diria, à luz da teoria de René Girard, que há uma clara relação de desejo mimético aqui.


Parece-me, e o assunto merece uma análise muito mais detalhada, que o verdadeiro alvo do feminismo é o feminino, essa categoria que se resume a um útero sujo de fluídos corporais. O que a feminista deseja é o falo masculino.


Aqui nasce o desejo mimético: o homem é o mediador, que, por possuir o objeto de desejo, desperta-o, e, ao despertá-lo, passa a atuar como mediador próximo, gerando aquela inveja destrutiva da qual falamos acima.


O triângulo de desejo está aqui completo: temos o sujeito desejante, a feminista, o objeto de desejo, o ser homem (aqui representado pelo falo), e o mediador, que é o homem de carne e osso com o qual a feminista se relaciona diretamente.


Há um agravante da inveja destrutiva, porém: numa relação sexual heterossexual, o desejo da mulher só é satisfeito por aquele falo que ela deseja, mas não pode possuir. É uma reafirmação da mediação masculina. Uma condição psicológica bem triste de se imaginar. Especialmente quando a mulher não atinge o orgasmo na relação sexual.



E o aborto nessa história?


Aqui entra a segunda parte da Teoria de Girard, que é a parte do bode expiatório. Em linhas muitíssimo gerais, uma sociedade dominada pelo desejo mimético levaria a um estado de ódio de todos contra todos (já que ora atuamos como sujeitos, ora como mediadores), levando-a a sua completa desagregação.


Para evitar isso, o jeito é oferecer um sacrifício: escolhe-se algo (ou alguém) que, também pelo desejo mimético, se torna alvo de todos os ódios e invejas daquela sociedade. Uma vez consumado tal sacrifício — sempre de uma vítima inocente — a sociedade volta a se pacificar.


Todas as sociedades possuem o costume de sacrificar aos deuses, mas o costume que mais me chamou atenção é o do bode expiatório judaico, que carrega todos os pecados daquela sociedade. “Agnus Dei, qui tollis peccata mundi”.*** Sim é esse o sentido, se a frase é familiar ao leitor.



Deusa asteca Coatlique: para quem os antigos mexicanos sacrificavam bebês



Bem, se a inveja destrutiva contra o mediador que é suscitada pelo desejo mimético só é aplacada por um sacrifício. A necessidade de matar os bebês se explica, agravada pelo fato de que, como disse acima, a relação sexual heterossexual para uma feminista é uma reafirmação da mediação do homem para com ela.


Então faz todo sentido querer sacrificar o produto de algo que desperta tamanho rancor. O fato de a vítima oferecida em sacrifício ser absolutamente inocente potencializa o efeito catártico do sacrifício. Daí o aborto surgir como uma necessidade verdadeiramente antropológica para esse pessoal.



Conclusão


Até “a que pisa a serpente” aparecer e colocar fim nessa coisa cringe que é matar bebês…


Quero deixar claro que minhas afirmações aqui são meramente especulativas. Não sou antropólogo, psicólogo, ou algo do tipo. Corri os olhos pelas obras de Simone de Beauvoir e Girard, mas de forma superficial e não tenho planos de retomar essa análise.


Acho o insight positivo, contudo: algum antropólogo que tenha conhecimento, mas, sobretudo, estômago para fazer algum estudo nesse sentido talvez tiraria muitos bons frutos e explicaria muita coisa do atual estado de coisas do combalido Ocidente.


Como não tenho nem um, nem outro, e o Ocidente é uma casa em ruínas, na qual o que não falta é coisa para arrumar, preferi focar meus esforços em outras áreas. Mas decidi falar disso diante da hediondez do aborto.