• Evandro Pontes

Fraudes em Projeções


A política imita o direito empresarial.


Falo isso há décadas e provei em aulas a origem societária dos aparatos políticos.


Pesquisas eleitorais nada mais são do que projeções.


O único texto jurídico sobre análise de projeções no direito empresarial é de minha autoria e foi publicado no vol. 1 da Revista de Direito das Sociedades e dos Mercados de Capitais (RDSVM 1:217-235, Maio de 2015).


Fraudes em projeções são coisas bem antigas. O caso South Sea (conhecido com o South Sea Bubble, ou "A Bolha da Companhia dos Mares do Sul"), ocorrido em meados do século XVIII (foi de 1717-1720), foi alvo da tese do Prof. Stuart Banner (tese que recomendo a leitura) e trata de fraudes em projeções.


O problema do Encilhamento, no Brasil de fins do Século XIX, é de natureza semelhante.


Eike Batista enganou seus acionistas, assim como o fez a Enron em 2000-2002, com base em projeções. A jornalista Bethany McLean foi quem descobriu a fraude nas projeções.


Após o escândalo da Enron os "analistas de valores mobiliários" (também conhecidos como "Casas de Research", dentre os quais no Brasil temos o exemplo clássico da EMPIRICUS) foram alvo de tentativas de regulação. A coisa nunca evoluiu para o âmbito da seriedade.


Os analistas de crédito, que fazem o famoso credit rating e tem o poder de dar "grau de investimento" aos países, trabalham com projeções.


Nassim Nicolas Taleb, em seu Skin in the Game fala bastante sobre esse tipo de profissional que faz projeções e nunca é responsabilizado quando erra, nem mesmo quando o erro é doloso.


Vemos hoje o Ministério da Propaganda comandado pelo Ministro Faria centrando sua publicidade de ações governamentais, de volta aos institutos de pesquisa que medem projeções de "aprovação do PR".


Defendi em meu texto de 2015 (e defendo hoje) que não se proíbam projeções (no Brasil, no âmbito empresarial, o uso de projeções é altamente regulado e restrito e mesmo assim, um cara como o Eike conseguiu enganar o mercado inteiro com base nisso que aqui, no Brasil, é quase proibido). O que precisamos é trazer essa gente que projeta coisas, para o campo da responsabilidade: em muitos casos, para a responsabilidade criminal.


No campo político, a responsabilidade por jogar a confiança do povo de volta para esses institutos de pesquisa e essas casas de projeção de tendência política, deve ser tratada com rigor e, ouso dizer, até com DESRESPEITO.


Não respeitar pesquisas, neste ponto em que chegamos, é essencial para a saúde da democracia e das liberdades.


Saber rechaçar até as pesquisas que te adulam, ai já é um passo maior: é sinal de maturidade política, coisa que não tenho visto quando a casa de projeções te seduz com easy candy.


NUNCA ACEITE DOCES DE ESTRANHOS.


Fica a dica.



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