• Dica HQ

FREDRIC, WILLIAM E A AMAZONA

Os quadrinhos nunca mais foram os mesmos após 1954... graças a Deus!



Os franceses Jean-Marc Lainé (roteiro) e Thierry Olivier (desenho) revisitaram a história da indústria dos quadrinhos americanos focando em duas pessoas bem diversas: o psiquiatra alemão Fredric Wertham e o psicólogo americano William Moulton Marston.


Wertham era especializado em psiquiatria infantil e desde 1942 estudou a influência das histórias em quadrinhos na psicologia das crianças e dos adolescentes, o principal (e talvez único) público-alvo dos comics à época. Ele também publicou alguns artigos a respeito e livros, sendo o mais célebre “Sedução do Inocente” (quase consegui comprar uma vez, pois é raríssimo).


Atualmente, há uma moda de condenar o Comics Code Auhority e jogar a culpa toda da sua criação em Wertham. E Lainé e Olivier parecem querer se aproveitar dessa moda. Vamos a alguns pontos.



Para quem não está inteirado sobre o assunto, o Comics Code Authority é um conjunto de regras de autorregulamentação que as editoras se impuseram a si mesmas para que o Estado não interferisse no mercado. Criado em 1954, a Comics Magazine Association of America (CMAA) determinou que apenas aqueles quadrinhos aprovados por um “juiz” da CMAA poderiam receber o selo de aprovação, significando que não teriam violência, horror, criminosos saindo-se vencedores, não continham nudez, e outros requisitos. Por muitos anos foi requisitado pelos distribuidores para entregar nos pontos de venda. A partir dos anos oitenta, a exigência foi-se abrandando.


E por que tal aconteceu? Por causa do Dr. Wertham?


A partir dos anos quarenta, os pais e associações começaram a reclamar dos quadrinhos dos gêneros criminal e de horror, que representavam ¼ do mercado. De acordo com dados oficiais, em 1954 eram vendidos 20 milhões por mês desses tipos de publicações (na época, as histórias em quadrinhos vendiam dezenas de milhões de unidades devido ao preço, que era na casa dos centavos).


Devido às reclamações e manifestações públicas em relação aos quadrinhos, houve uma primeira tentativa de autorregulamentação por parte das editoras, que falhou por miseravelmente. Em 1953, o Senado americano, através de seu Comitê do Judiciário, informou que iniciaria o Subcomitê do Senado sobre Delinquência Juvenil para o fim de estudar se os quadrinhos tinha alguma relação com a crescente quantidade de crimes cometidos por jovens nos EUA . As audiências do Subcomitê ocorreram nos dias 21 e 22 de abril e 04 de junho de 1954. A mesa de senadores era compostas por: Robert Hendrickson, William Langer (republicanos), Thomas C. Hennings, Jr. e Estes Kefauver (democratas).


Durante as audiências, foram levantados diversos dados, pesquisas, convocações de especialistas (Fredric foi um deles) e foram apontados diversos títulos que existiam na época, sendo o mais violento e de forte impacto Shock Suspenstories da EC Comics, em que eram contadas histórias de crimes, que às vezes envolviam crianças, mutilações, adultérios etc. Para quem tiver curiosidade, tente encontrar Shock SuspenStories #22 leia – é impactante mesmo para um adulto.


Um dos momentos mais interessantes (as audiências foram transcritas, resultando em centenas de páginas, que um dia espero conseguir ler por completo) foram as conversas com três grandes cartunistas: Joseph Musial, que a partir de 1956 desenharia as tiras de The Katzenjammer Kids (no Brasil, “Os Sobrinhos do Capitão”); Walt Kelly, criador das tiras de “Pogo”; e o grande Milton Caniff, criador das famosas tiras de “Terry e os Piratas” e ““Steve Canyon” – espero que um dia publiquem no Brasil como publicaram “Príncipe Valente” – e cuja arte influenciou toda uma geração de desenhistas posteriormente. E todos eles concordaram que liberdade também traz responsabilidade.


Os quadrinhos de horror não eram apenas daqueles tipos com “Contos da Cripta”, mas horror mundano, com pessoas mutilando pessoas, marido matando mulher, filho matando pais, espancamentos etc. Os quadrinhos criminais eram aqueles que envolviam bandidos, gângsteres, ladrões e nem sempre as autoridades policiais saiam vencendo. Alguns mostravam as técnicas reais de um ladrão. Havia outros que se baseavam em biografias de personagens reais. Havia rumores na época que os roteiristas, quando estavam sem ideias, dirigiam-se a uma delegacia para ler os boletins de ocorrência.


Recorde-se que não havia indicação etária na época. Histórias em quadrinhos sempre eram vistas como “literatura infantil”.


Histórias em quadrinhos eram o único motivo da delinquência juvenil? Todos os participantes das audiências (incluindo o Dr. Fredric Wertham) foram unânimes: não. Podia tão somente ser um dos tantos elementos que poderiam levar uma criança ou adolescente ao cometer atos criminosos.


Ao final das audiências do Subcomitê, os senadores chegaram à seguinte conclusão: ou as editoras se autorregulamentavam ou eles proporiam uma lei federal. Lembrando que os americanos em tais épocas priorizavam a liberdade, incluindo a liberdade de mercado, e repudiavam a ideia da intervenção do Estado, além de temerem de ferir a Primeira Emenda da Constituição Americana. Se fosse no Brasil, o nosso Congresso Nacional não teria dúvidas em criar leis e mais leis e decretos para regulamentar o assunto.


Porém, não pode ser negado que o Dr. Wertham exagerou um tanto: ele quis abranger outros tipos de quadrinhos, chegando a criticar Superman. E também aproveitou o Subcomitê para publicar seu livro, que saiu justamente dois dias antes do início das audiências.


Curiosidade: no Brasil, nos anos sessenta, as editoras de histórias em quadrinhos também criaram um conjunto de regras imitando o Comics Code Authority: "Os Mandamentos das Histórias em Quadrinhos".


Agora, vamos falar do mais polêmico dos polêmicos: William Moulton Marston, vulgo “Charles Moulton”, foi nada menos nada mais que o criador da Mulher-Maravilha. Agora, como um psicólogo, criador do polígrafo (sim!), foi-se dar com quadrinhos?

Marston era casado com Elizabeth Holloway Marston e amante de Olive Byrne e os três conviviam na mesma casa e participavam da mesma vida doméstica. Ele teve filhos com as duas. Era feminista. E tinha obsessão pelo bondage (também conhecido como BDSM).


Um texto da Wikipédia sintetiza sua forma de pensar:


(...)
Embora Martston descreva a natureza feminina como um ser mais capaz de submeter-se emocionalmente, em outros escritos e entrevistas ele se referia à submissão como uma prática nobre, sem ignorar que suas implicações sexuais, dizendo:
A única esperança para a paz é ensinar às pessoas que estão cheias de vitalidade e força ilimitada a gostarem serem amarradas... Somente quando o controle de si mesmo por outros for mais agradável do que a afirmação ilimitada de si mesmo nos relacionamentos humanos, podemos esperar uma sociedade humana pacífica e estável... Dar aos outros, ser controlado por eles, submeter-se a outras pessoas não pode ser agradável sem um forte elemento erótico”.
Um dos propósitos das representações do “bondage” seria induziro o erotismo nos leitores como parte do que ele chamava de “treinamento para o amor sexual”...

E ele não ignorava que o público-alvo dos quadrinhos eram crianças (o próprio “Fredric, William e a Amazona” mostra isso).

As primeiras histórias da Mulher-Maravilha haviam várias representações do “bondage”. Por que você acha que a heroína utilizava roupas minúsculas (para o ano de 1941, era escandalizante)? Feminismo, revolução sexual. Por que você acha que ela usava uma laço? Bondage, dominação. E por que era “laço da verdade”? Era uma homenagem à sua invenção, o polígrafo.

Os quadrinhos da personagem só reduziram tais representações feministas e sexuais quando o roteiro foi passado para outras mãos, anos depois.


Porém, não termina por aí. A amante de Marston, Olive Byrne, era filha de Ethel Byrne, ativista feminista e irmã de Margaret Sanger, fundadora da primeira clínica de aborto nos EUA e idealizadora do Planned Parenthood, ONG que se especializou em abrir clínicas de aborto nas áreas mais pobres, principalmente nas regiões de maioria negra. Sanger era uma notória eugenista e, em seus escritos, ela era defensora do controle de nascimentos das raças que ela considerava inferiores.

No quadrinho em análise, há duas páginas que mostra Olive Byrne entregando a Joye Hummel, uma ghost writer de Marston, o livro Woman and the New Race, de autoria de sua tia Margaret Sanger.


Portanto, o que podemos concluir do quadrinho da dupla francesa?

Thierry Olivier desenha muito bem, num estilo bem realista, e tem domínio da narrativa gráfica, pois não se atrapalha ao contar as histórias dos dois personagens em paralelo, nas mesmas épocas.


E também: o Comics Code Authority serviu para “segurar” as sandices que estavam sendo demonstradas em alguns quadrinhos; Marston e muitos outros quadrinistas foram mais responsáveis pela autorregulamentação do que as próprias publicações de Fredric Wertham; e a HQ foi extremamente simplista sobre o assunto. Vale muito pelo trabalho de arte.


FREDRIC, WILLIAM E A AMAZONA: PERSEGUIÇÃO E CENSURA DOS QUADRINHOS foi publicado pela Editora Pipoca & Nanquim em 2021, originalmente lançado pela Editions Glénat em 2020 com o título Fredric, William et L'Amazone.