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Globo de Ouro é cancelado

Após protesto de atores e convite a boicote, prêmio dado pela Associação de Correspondentes Estrangeiros de Hollywood perdeu a parceria da emissora NBC

Imagem: Google

No último ato de "canibalismo liberal" de Hollywood, a NBC cancelou a transmissão do Globo de Ouro de 2022, já que estúdios como Netflix, Amazon e Warner Media cortaram relações com a Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood (ou HFPA, abreviação em inglês) por acusações de corrupção e falta de diversidade. Questões éticas relacionadas aos benefícios financeiros dados a alguns membros, como uma estadia em um hotel em conexão com uma viagem em Paris, também influenciaram a ruptura.


Conforme relatado pelo jornal Los Angeles Times, essas questões levaram várias empresas importantes, incluindo a controladora da CNN, a anunciarem que não participariam de nenhum evento relacionado ao Globo até que as reivindicações fossem devidamente tratadas.


“Continuamos a acreditar que o HFPA está comprometido com uma reforma significativa. No entanto, uma mudança dessa magnitude leva tempo e trabalho, e acreditamos fortemente que o HFPA precisa de tempo para fazê-la da maneira certa. Logo, a rede de TV NBC não irá transmitir o Globo de Ouro de 2022”, comunicou a emissora em nota na segunda-feira (10).


A rede NBC ainda acrescentou: “caso execute o plano, temos esperança de poder transmitir o programa em janeiro de 2023. Convidamos nossos parceiros do setor à mesa para trabalhar conosco na reforma sistêmica que está muito atrasada, tanto em nossa organização quanto no setor em geral”.


A reportagem da revista Times descobriu que a NFPA não tem membros negros e questionou sobre os benefícios recebidos por alguns membros provenientes dos milhões que a NBC paga pelo direito de transmitir o evento, que tradicionalmente tem sido um dos mais bem avaliados no calendário de prêmios.


Este ano, no entanto, as classificações de prêmios em toda a linha, incluindo os Globos, caíram devido a uma confluência de fatores, principalmente pela pandemia de Coronavírus. O programa, apresentado pelas atrizes Tina Fey e Amy Poehler, foi assistido por 6,9 milhões, a menor classificação desde que o programa foi transferido para a NBC nos anos 1990.


O HFPA procurou sufocar as críticas prometendo trazer jornalistas negros, aumentando suas fileiras de 87 para 100 membros. Mas essa solução — e subsequente reportagem baseada em conversas internas — apenas exacerbou o problema. O ex-presidente da HFPA, Philip Berk, foi afastado da organização após encaminhar um e-mail que descreveu o Black Lives Matter como um “grupo de ódio”.


A Netflix anunciou na semana passada que não se envolveria em nenhuma atividade com a HFPA “até que mudanças mais significativas sejam feitas”. Anteriormente, os publicitários já estenderam um ultimato semelhante à organização.


Em um dos escândalos mais famosos, o grupo homenageou a atriz Pia Zadora pelo filme “Butterfly”, de 1981 — que foi criticado pela maioria dos críticos — depois que seu marido rico, o bilionário israelense Meshulem Riklis, os levou para uma exibição em Las Vegas.


A emissora CBS foi outra grande empresa que desistiu de exibir o show. Na época, a Dick Clark Productions se envolveu na produção da transmissão, primeiro produzindo os prêmios para distribuição e, posteriormente, negociou acordos de TV com a rede a cabo CBS e depois, em 1993, com a NBC.



Protestos


Tom Cruise participou da ação de “sinalização de virtude” devolvendo os três Globos de Ouro que ganhou como melhor ator por suas atuações em “Jerry Maguire” (1997) e "Nascido em 4 de julho" (1990), além do prêmio de melhor ator coadjuvante por "Magnólia" (2000).



Scarlett Johansson emitiu um comunicado, publicado pela revista Variety e pela emissora CNN, pedindo à comunidade do entretenimento que pare de participar de eventos patrocinados pela HFPA. Veja a seguir:


“Como atriz que promove um filme, espera-se que a pessoa participe da temporada de premiações, participando de coletivas de imprensa e também de shows de premiação. No passado, isso muitas vezes significava enfrentar questões sexistas e comentários de certos membros do HFPA que beiravam o assédio sexual. É a razão exata pela qual eu, por muitos anos, me recusei a participar de suas conferências. O HFPA é uma organização que foi legitimada por nomes como Harvey Weinstein para ganhar impulso para o reconhecimento da Academia e a indústria seguiu o exemplo. A menos que haja uma reforma fundamental necessária dentro da organização, acredito que é hora de dar um passo atrás em relação a HFPA e focar na importância e força da unidade dentro de nossos sindicatos e da indústria como um todo”.


No Twitter, o ator Mark Ruffalo, premiado neste ano, escreveu: “Agora é a hora de intensificar e corrigir os erros do passado. Honestamente, como um vencedor recente do Globo de Ouro, não posso me sentir orgulhoso ou feliz por receber este prêmio”.



Suborno


O Los Angeles Times citou outros episódios de possível compra de indicações ao prêmio e trouxe à tona casos do passado em que produções pouco cotadas terminaram favorecidas de forma suspeita. Não obstante, a 78ª edição da premiação foi realizada em 28 de fevereiro passado, dias depois da publicação da reportagem.


Os prêmios principais ficaram com “Nomadland” na categoria de melhor filme de drama, “Borat: Fita de cinema seguinte” por melhor filme musical ou comédia e “The crown” e “Schitt's creek”, levaram como melhores séries de drama e de comédia, respectivamente.


Embora tenha negado as acusações de corrupção, a associação anunciou, uma semana depois da cerimônia, que tomaria medidas para ter uma representatividade mais ampla entre seus integrantes e para melhorar suas práticas administrativas.


Um dos maiores especialistas em igualdade racial dos EUA, Shaun Harper foi contratado como consultor de diversidade estratégica. A empresa Ropes & Gray assumiu a consultoria jurídica com o objetivo de fazer uma “revisão abrangente das políticas do HFPA”. No comunicado, a entidade afirmou “compreender a importância de construir uma organização mais inclusiva” e de se tornar mais transparente em suas operações.


Harper, no entanto, rapidamente anunciou sua saída, dizendo não ter confiança na possibilidade de executar a transformação necessária na estrutura da organização. Da parte de Hollywood, a pressão sobre a HFPA continuou aumentando.


Um grupo formado por 100 das maiores agências de artistas nos EUA e na Europa sinalizou, em 15 de março, que haveria boicote ao prêmio caso medidas mais contundentes não fossem adotadas.


Em carta aberta, o grupo fez um apelo para a associação erradicar “a prática generalizada de comportamento discriminatório, não profissional, impropriedade ética e suposta corrupção financeira endêmica da HFPA, financiada pela Dick Clark Productions, MRC, NBC Universal e Comcast”, envolvendo, portanto, os parceiros da entidade na realização do prêmio.


A Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood anunciou as ações que pretendia tomar. A proposta, que foi aprovada em votação, abre espaço imediato a 20 novos jornalistas membros, com foco em pessoas “não-brancas”. A médio prazo (18 meses), a pretensão é de aumentar o número total em 50%, também com o objetivo de diversificar o perfil do votante da HFPA. Além disso, ficam definidas restrições no recebimento de presentes ou de qualquer outro tipo de benefício que possa enviesar os critérios pessoais do membro para o voto.



Confira a linha do tempo da "crise" no Globo de Ouro


21 de fevereiro: reportagem do Los Angeles Times revela que a Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood (HPFA) não tem integrantes negros e aponta práticas equivalentes a suborno na escolha dos indicados.


26 de fevereiro: o movimento Time’s Up lança campanha de protesto em reação aos fatos revelados pela reportagem.


28 de fevereiro: cerimônia de entrega dos prêmios da 78ª edição do Globo de Ouro é realizada.


9 de março: A HFPA anuncia que tomará medidas para ampliar a diversidade entre seus membros.


15 de março: representantes de artistas sinalizam intenção de boicotar o Globo de Ouro caso não haja mudanças efetivas.


20 de abril: o ex-presidente da HFPA (por oito mandatos), Philip Berk, é expulso da associação após vir a público e-mail no qual se referia ao Black Lives Matter como um “movimento de ódio racista”.


3 de maio: a HFPA anuncia a admissão imediata de 20 novos integrantes, com foco em jornalistas “não-brancos” e ampliação de 50% do número de votantes ao longo dos próximos 18 meses. Benefícios e presentes para membros também ficam proibidos.


7 de maio: Netflix anuncia rompimento com a HFPA por julgar as ações insuficientes. Astros de Hollywood começam a falar publicamente contra a associação. Amazon e Warner Media também anunciam rompimento com a entidade e com o Globo de Ouro.


10 de maio: a emissora NBC anuncia que não irá transmitir o Globo de Ouro em 2022.



Parece que Hollywood está "se cancelando".