• Evandro Pontes

Gnosticismo político e culto a personalidade


É falsa a ideia de que uma República cai pelas mãos de um único e solitário tirano.


Quem erode uma nação é o seu próprio povo.


O seu povo escolhe a via da idolatria e ao adorar certos ícones, extrai verdades pseudo-evidentes.


Na Bíblia há uma enorme coleção de pequenas epopeias que mostram o resultado do afastamento da única via Divina em troca dos atalhos da idolatria.


Esse afastamento não natural - aquilo que a filosofia chama de apostasia (do grego ἀποστασία), é uma opção (escolha) pela idolatria decorrente de um ato de rebelião.


O rebelde se afasta de Deus e se aproxima do ídolo e assim comete o que a teologia judaica vai chamar de heresia (do grego αἵρεσις), fazendo aquilo que o livro bíblico predileto da minha avó, estabelecia: na linha do que ordenava a lei ("não se cortem", Deuteronômio 14:1), o Profeta Amós trazia o alerta, Buscai-Me e vivereis (5:4).


O herético (do hebraico min) é aquele que se põe do lado de fora da Fé - torna-se (ou já nasce) um outsider. A leitura talmúdica (do Talmud Babilônico no Guemará do Yevamot 13b) a orientação rabínica é, não forme divisões ["contra o seu próprio povo", completo eu]. Nada diferente do que o grande Moshé Maimônides (ao comentar o Sanedrin do Talmud Babilônico, uma espécie de Código de Processo que define se você sabe ou não o que é laicismo) nos deixou acerca de sua leitura em torno do apikóros/epicurus, desde o Mishná Torah até o Guia dos Perplexos, nestes termos: "o apóstata não tem lugar neste mundo", negando assim a verdade deste mundo ao herege, ao apóstata, ao idólatra, logo, ao apikurista. E sim, esse apikurista/epicurista tem ligações com mesmo Epicuro tratado no Jardim das Aflições de Olavo de Carvalho.


Não há como fazer a ponte filosófica do judaísmo direto para a filosofia contemporânea, sem antes passarmos pelo conceito de heresia para os católicos (algo que Olavo toca en passant n'O Jardim).


Diferentemente da realidade rabínica, a heresia não é apenas uma apostasia, mas é um ato positivo de escolha e um apostolado de contra-Fé.


Logo, a heresia judaica pode até ser agnóstica, mas a heresia católica será sempre e essencialmente gnóstica.


E aqui chegamos na faceta política de uma heresia, a saber, o gnosticismo.


Não há como compreender a questão gnóstica na política sem a ajuda de Eric Voegelin.


O idólatra é politicamente um gnóstico e por isso, sempre será um herege (seja ele judeu, seja católico - mas sempre um herege).


Voegelin, passo necessário para se capturar a profundidade de tudo o que Olavo de Carvalho nos oferece de conhecimento, foi quem cuidou do tema em obras como New Science of Politics e em Science, Politics and Gnosticism. Mas é ao longo dos cinco volumes de Order and History que o gnosticismo político fica nu.


Voegelin, ao mostrar que a gnosis implica em uma falsa profecia de imediata e direta apreensão sobre uma "visão de verdade" imposta (por isso chamamos seus locutores de "impostores") e que não pode ser contestada e que ainda não comporta qualquer reflexão crítica, como se fosse um dom especial, espiritual ou cognitivo de alguém ou de um grupo específico, aponta diretamente para regimes totalitários.


Eis ai como uma heresia se torna uma doutrina política: ela se apodera do único e específico alvo da pura Fé, para deliberadamente substituí-lo.


O famoso "confia" levantado em forma de hashtag nada mais é do que uma heresia transformada em mantra político-gnóstico, retirando do que Amós profetizou ser o único canal de nossa Fé e aceitação sem contestação - "Buscai-Me e vivereis", é a ordem correta. Por isso e não por outra razão todo conservador tem um compromisso de vida com o ceticismo. Sua Fé é única e exclusivamente reservada a Deus e a nada e ninguém mais ("Deus acima de tudo e de todos", diria eu).


O gnóstico, portanto, opera essa substituição herética.


Por isso é que na antiga URSS, a Santíssima Trindade do Pai, do Filho e do Espírito Santo é substituída por cartazetes com Marx, Lênin e Stálin, ou, Marx, Engels, Lênin e Stálin ou apenas Marx, Engels e Lênin (dependendo da época).


Logo, isto:



Se torna isto:



A iconografia nacional-socialista não fica muito longe: transpôs as luzes do Espírito Santo do centro da Cruz para o centro da águia e da outra cruz, a suástica.


E assim, isto:



E incrível e quase imperceptivelmente, isto:

Se torna isto:




Eis a razão pela qual Voegelin, quando notou o que estava acontecendo na Alemanha em seu tempo, não teve outra alternativa que não fosse deixá-la em questão de horas, por questão de sobrevivência.


Uma característica importante do gnosticismo dos Séculos XX e XXI é a operação publicitária feita sobre o ungido, para que o processo de substituição herética se complete.


A esse processo a ciência política convencionou dar o nome de culto à personalidade.


Cria-se em nome daquele que há de substituir hereticamente o divino, uma imagem gnóstica de verdade absoluta e incontestável que brota, literalmente, da cara do ícone.


O ícone político dos gnósticos não pode ser contestado pois para esse idólatra, o ícone é a verdade encarnada. Contestá-lo é pois ir contra essa "verdade", o que torna o cético imediatamente um alvo de perseguição. Isso explica não apenas a perseguição romana aos católicos e judeus entre os séculos I e III d.C., mas também e sobretudo a perseguição católica deste Século XXI.


Eis a razão pela qual a Santa Inquisição punia heresias com rigor: a afirmação herética é obviamente uma terraplenagem para o martírio dentro de uma tirania. Logo, quem a impõe não é o tirano, mas sim o seu povo em êxtase idólatra e gnóstica ("Soltem Barrabás", lembram os católicos acerca de um grito idólatra). Por isso Amós (curiosamente lembrado em uma canção de autoria do saudoso Jeff Hanemann, Die By the Sword) sedimentou: "E morrerão todos os pecadores do Meu povo pela espada". (9:10)


Mindless tyranny, forgotten victims Children slaughtered in vain Raping the maids, in which they serve

Only the words of the Lord!


Die by the sword


Recomendo a leitura na íntegra do livro Amós, antes mesmo que possa continuar nesta leitura, pois deste ponto em diante, prometo piorar muito a sua angústia, leitor aflito, leitora melancólica.


O complemento gnóstico da heresia construída em cima de um culto à personalidade está destruindo o Brasil, nação que foi alijada de seus heróis e no equivocado afã de novos, pratica idolatria gnóstica desde os tempos de Vargas, confundindo constante e perigosamente herói com santo.


Tentaram Jânio, não deu certo. Foi a vez de Jango, também falhou. Um a um dos militares foram testados - com nenhum vingou. Foi a vez de Tancredo: viveu pouco, morreu bem, não transcendeu. Collor foi pego na macumba, mas foi com Lula que a coisa quase deu certo, se não fosse o maldito Foro de SP e seus esquemas de rapina (Mensalão, Petrolão, Eletrolão...).


Mas a massa de publicitários não se cansa e no fundo do baú do Des Triumph des Willens de Leni Riefensthal, a tecnologia foi emprestada para Petra Costa (herdeira de um dos financiadores do esquema de corrupção que alimentou o Foro de SP) e a roda de samsara lulista voltou a girar.


As imagens, cuidadosa e calculadamente esculpidas na tela para ungir o Füher (líder) sindical no calor idólatra das massas, virou peça publicitária de dar orgulho a Riefensthal. Já comentei algumas vezes e estou há tempos para fazer uma análise minuciosa, quadro a quadro, cena a cena, em paralelo, de ambos os filmes: o Triunfo da Vontade e o Democracia em Vertigem. Um dia eu mostro, tecnicamente, como um e outro são a mesma face de uma mesma moeda de mesmo valor onde o Democracia em Vertigem é a versão inflacionada da moeda publicitária Triunfo da Vontade.


Enquanto isso não acontece, compare os quadros abaixo:

Note como a tomada provoca um efeito de vis atractiva (coisa que atrai) em torno de Lula, ao centro: a massa faz um desenho circular em torno do Füher, semelhante ao redeomoinho do Grande Sertão: Veredas, "no meio da rua". Esse efeito circular semelhante ao um halo santo, técnica comum e mais do que manjada em peças publicitárias destinadas a desenvolver um Culto a Personalidade com ares gnósticos e heréticos, é inegavelmente utilizado no Triunfo da Vontade de Petra Costa.


Esse tipo de cena é comum em filmagens de féretros, quando se quer passar a impressão ao espectador de ocorrência de apoteose.


Ao herege, entretanto, é importante buscar esse efeito apoteótico quando o alvo de Fé (ou contra-Fé) ainda pode ser idolatrado em vida. Não por outra razão os comunistas mumificam seus ídolos: Lênin, Stálin, Mao são autoícones e produtos de um ritual de idolatria religiosa do qual só a Marx foi autorizada a transcendência carnal.


Riefensthal tenta buscar esse efeito n'O Triunfo nas cenas em que há enquadros da chegada do (outro) Füher em Nuremberg:




Aqui o efeito "circular" fica até mais claro, sob outro ângulo:



O aspecto circular se repete e a Riefensthal só não foi possível fazer o enquadro semelhante àquele "kibado" por Costa, por pura falta de recursos materiais naqueles anos 1930, coisa que outros regimes não se ressentiram ao reproduzir a técnica:


Esse tentou usar bastante a técnica e durante o seu tempo, teve a ajuda do genial Serguei Einseintein, que em Outubro (1927), deu o primeiro passo para a apoteose de Lênin - transformá-lo antes em herói:



O regime manteve a técnica:



E até exportou para outros regimes, que mantém esse mesmo recurso visual:



O regime até melhorou os recursos:



E este repassou a técnica para os vizinhos:



Com essa foto, quase voltamos ao Füher (líder) sindical Lula. Eu ainda chamo a atenção para estas adaptações "locais" e "culturais":



Que por sua vez levam a isso (mulheres sortudas...):





E, finalmente, a isto (homens maus, abaixem...):




Ah, já sei leitor cético - já entendi, leitora incrédula: você deve estar se perguntando "qual a diferença das imagens acima, para esta?"




Ou, talvez, para isto:



Ah, leitor, a diferença está aqui, oh:




Veja aqui, leitora cética:




Nenhum dos ídolos acima mostrados antes dos americanos, leitor, leitora, vocês hão de encontrar prostrados de joelhos orando diante de Deus ou de um Santo. Mas vai ser normal você ver isto:




Ou isto:





Pois eles, líderes heréticos é que são o objeto de culto e alvo da Fé (na verdade, contra-Fé).


Ufa, ainda bem que no Brasil temos isso:



Opa - peraí: um instante!


Você leu com atenção o que eu escrevi no começo deste texto?


Você interrompeu a leitura no ponto em que solicitei para ler o Livro de Amós antes de chegar até aqui?


Ah, agora eu compreendo porque você não está compreendendo.


No gnosticismo não basta o líder assumir e "usurpar" a posição divina. Aliás, isso sequer acontece se o povo não quiser. O líder "recebe" do povo herético essa função.


No gnosticismo político, versão platônica do pensamento herético, é o povo que empurra o escolhido para algo que, se ele não quiser, vão lhe botar outro no lugar, que então aceite.


O povo das tiranias abdica Deus antes de abraçar seus ídolos.


O povo americano sabe separar Deus de seus heróis e resiste a abandonar Deus.


Assim, jamais tolerarão que seus heróis se invistam de apoteose que tira do povo a capacidade de reconhecer o lado humano de um Jefferson que tinha escravos (e filhos com escravas) enquanto lutava timidamente contra a escravidão; ou de Trump, que como nosso Pedro de Alcântara, dá-se a gostar de certos prazeres mais que a média geral dos humanos no limite da imperfeição.


É na saga do herói que novos heróis surgem. Buscar novos Deuses ou novos Santos ou Profetas em substituição aos verdadeiramente divinos, é heresia.


Por isso que Bolsonaro, ajoelhado assim, tal qual faz Trump, assim como faziam Dom Pedro I, Dom João VI e Dom Pedro II por aqui e Thomas Jefferson, George Washington, James Monroe, John Adams lá nos EUA, ao se curvar diante de Deus, mostra a sua total falta de talento para "isso" que estão tentando empurrá-lo a assumir.


Bolsonaro não vem sendo orientado por gente mal preparada - o PR vem sendo instruído por verdadeiros enviados de Baphomet; gnósticos e heréticos que, ao fim e ao cabo e assim como desejava Jorge Oliveira politicamente; uma massa amorfa quer vê-lo transformar-se no "novo Lula", que ele jamais foi e, certamente, nunca será (nem politicamente, nem gnosticamente).


Essa massa de anônimos migrou do gnosticismo lulista para criar, de abril pra cá, um gnosticismo bolsonarista que ele, Jair Bolsonaro, não vai aceitar.


Creia apenas em seus olhos e agora volte às suas orações, leitor. Isso não é um convite, é uma ordem (Escutai a palavra que contra vós tem pronunciado o Eterno, ó filhos de Israel, contra toda a família que tirei da terra do Egito, dizendo: dentre todas as famílias da terra só a vós tenho conhecido; por isso de vós cobrarei todas as vossas iniquidades).






FELIZ NATAL, mas apenas para aqueles que acreditam em um único e Eterno Deus.


Aos demais, é meu dever desejar que ardam no Inferno, para todo e sempre.


Amém!

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