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Hamelin é logo ali!

Por João Brito (@joaodehileia)



Imagem: Duncan1890/Getty Image



Não era incomum achar nas casas que visitei anos atrás, toda sorte de livro, filmes e discos de músicas e histórias infantis, ou de peças de teatro, ou até mesmo de poemas e cantigas consagrados como clássicos do público infanto-juvenil. A minha infância, aliás, foi justamente assim: repleta de histórias para assistir, ler ou ouvir contar. Mas recordo-me, aqui, de uma que me faz, de uns dias para cá, um tanto mais reflexivo e até abismado.


Pois havia um conto que narrava de uma distante cidade no coração da Europa, chamada Hamelin, castigada por uma invencível praga de ratos. Para livrar-se da praga, o povo, por meio da prefeitura do lugar, prometeu uma rica recompensa a um forasteiro que se dizia capaz de conduzir toda a chusma para longe daquela cidade com o toque hipnotizante de sua flauta. Contratado, o rapaz saiu a tocar sua música e os ratos o seguiram até serem afogados no fundo de um rio.


No momento do pagamento, porém, a prefeitura caloteou o sujeito, que por vingança tocou novamente a flauta pelas ruas da cidade; dessa vez o alvo do encanto eram as crianças dali que, atiçadas, lhe seguiam rumo ao longe até desaparecerem nas montanhas para sempre.


Algumas versões, como a da Coleção “Conte outra Vez” – aquela que tinha a Xuxa como garota propaganda –, ainda incluem duas personagens: o Rato Surdo, que não ouvia a música, mas tentava em vão salvar outros ratos do afogamento, e o Menino da Perna Quebrada, que virou a única criança de Hamelin apenas por não ter conseguido seguir o restante da molecada seduzida.


Quando a história acaba, dando conta da desgraçada tristeza que se apoderou daquela cidade após a partida das crianças, vejo que a nossa situação não é muito distinta. Isso principalmente devido ao fato de que não me é raro ouvir queixas de pais que não compreendem como perderam seus filhos para as ideologias e modas as mais tresloucadas. Ou até professores que não sabem o porquê de suas lições mais elevadas serem descartadas pelos alunos e substituídas por qualquer tese furada de um discurso chinfrim mais inflamado e apelativo.


É preciso dizer a essas pessoas o que elas parecem não ter compreendido: um som abafou suas vozes; um som vindo de fora e que entrou — não sem consentimento — nas casas, nas escolas, nos clubes, nos estabelecimentos comerciais e até nas igrejas. Um som encaixado como engrenagem de um mecanismo muito maior e mais complexo para cumprir fielmente sua função através de canções, filmes, peças de teatro, programas de televisão, sites de internet, livros, jornais, artigos científicos e tantos outros meios.


Apoderando-se de corações e mentes, esse som – dulcíssimo para quem o ouve – atrai, conduz e, por fim, permite capturar a quem se deixa penetrar por ele, como aqueles apitos para chamar cães, e os leva.


Olhemos à periferia da questão:


Agora mesmo o conjunto incompreensível de zurros muares apelidado “cultura do cancelamento” deve estar a demandar o banimento incontinenti ou a deformação de alguma obra literária ou filmográfica infanto-juvenil sob um argumento qualquer de teor fecal.


Vários são os exemplos disso: o desarmamento de Hortelino e Eufrazino; o remodelamento de Lola Bunny; a atribuição de orientação sexual ao Bob Esponja – exato, uma esponja fictícia; o banimento de Pepe Le Pew, Ligeirinho, Tom e Jerry e todo um mundo de fantasia criado por Doctor Seuss não só de obras futuras, mas das aparições em obras passadas exibidas em certos canais ou disponíveis em bibliotecas (!); além de vários trabalhos dos estúdios Disney excluídos das plataformas de exibição na internet ou com cenas podadas pela própria empresa, ou ainda com advertências que desqualificam a animação.


E no Brasil, esse comportamento simiesco também despeja o produto genuíno de seu movimento peristáltico sobre as nossas cabeças: é anunciada a reedição das obras infantis de Monteiro Lobato com a exclusão de trechos supostamente racistas, segundo especialistas soi disant. Cenas do seriado de comédia Sai de Baixo são podadas pela própria Globo, que o produziu; personagens de teledramaturgia que marcaram época são renegados pelos atores que lhes deram vida... E isso é só o introito que pude dar aqui, de cabeça, sem querer cansar o meu amigo leitor.


Pode isso parecer bobagem, efemeridade, coisas das quais desocupados e saudosistas da infância se ocupam, mas não é bem por aí. O relato acima é apenas um detalhe no horrendo quadro do esfarelamento das artes, em especial, e da cultura como um todo. Nos jornais, a discussão crescente sobre a pressão pela “linguagem” neutra. No celular, alguém reclama de o Rio de Janeiro, antes “A Cidade dos Pianos”, agora ver como nota principal das manchetes culturais a feitura de afrescos na rotunda anal de alguma “cantora” de funk.


Nas redes sociais, uma thread sobre música clássica como parte da trilha sonora de famosas animações e, em resposta, vários lamentos ali sobre a péssima qualidade da trilha sonora anódina, dos efeitos especiais que mais parecem obra de um aluno iniciante num curso de serigrafia do Senai, além da qualidade risível da atuação dos elencos.


Da Notre Dame de Paris ao Palácio Imperial de São Cristóvão, apóstolos da arquitetura moderna propõem projetos de restauração que não causam inveja a uma palafita. E quem, nesse meio tempo, ecoa sua inconformidade, certamente tem o mesmo desfecho que as obras e personagens que citei. Isto é, tem aulas práticas do que é ser sugado pelos “tubos de memória” da sociedade para tornar-se uma “despessoa”.


Assim, a mediocridade é estabelecida no lugar da alta cultura banida. E isso não é por acaso. Pois as notas da composição destrutiva do cancelamento, tendo cumprido seu dever, cedem lugar ao som do aculturamento segundo premissas revolucionárias – que divide espaço com um ou outro arremedo de talento independente –, hoje por meio do proselitismo político mais rastaquera que não encontra mais resistência das novas gerações após anos de sutil cooptação de boa parte dos nascidos nas gerações antecessoras. Eis o que é: o cancelamento e a doutrinação estão aí para atuar em conjunto; uma constrói sobre os escombros do que o outro destruiu.


A situação resultante em nossos dias é tal, que nela o debate público vira a demonstração pronta e acabada da debacle pública. Os pais de Hamelin, que num momento de descuido, deixaram o flautista outra vez tocar. Porém, dessa vez, seus filhos foram levados justamente quando os métodos de constrangimento do talento e de exaltação da incapacidade começam a ser empregados mais agressivamente em pais e mães de famílias do Ocidente, especialmente as da classe média, que começaram a perder o controle sobre o processo de instrução e educação de seus filhos para terceiros.


Os direitos à educação, à cultura, à informação, que tão lindamente enfeitam constituições e leis mil pelo mundo afora pareceu – como ainda parece a muitos – uma chance irresistível de transferência de certas responsabilidades. Mas o que a “letrinha miúda” desses contratos sociais acaba efetivando é a formação de um estado de dependência no qual as pessoas por ele aglutinadas perdem a autonomia e a capacidade de iniciativa; nada mais fazem por si mesmas, pois nada mais buscaram saber por si mesmas.



Imagem: banco de imagens


Esse delivery de conhecimento levou toda a sociedade à uma obesidade de informação e, simultaneamente, a défices acentuados de conhecimento, seja ele pertinente ao campo político, científico, artístico, profissional, espiritual ou histórico.


E como o toque do flautista, que rompia o vínculo familiar em cada lar e levava embora a geração que herdaria o múnus de construir uma grande cidade, toda uma geração de jovens é aglutinada como público cativo de personagens interpretados por pessoas. Estas, já há muito tempo, estão comprometidas com uma causa que não se traduz em expressar sentimentos e impressões autênticos por meio de algum talento extraordinário e digno de consideração.


Não, o que se mostra na tela de nossos televisores, computadores, tablets e smartphones é verdadeiramente um gigantesco maquinário público-privado que se porta mais como uma linha auxiliar da agitprop revolucionária. E que outra diretriz não tem senão erodir a ponte que leva pessoas destes tempos atuais a se unir com todo um legado acumulado pelas gerações passadas e que, direta ou indiretamente influi positivamente na personalidade de cada um que ainda caminha sobre a terra.


No fim, deslocado no espaço e no tempo, o jovem está de tal modo que basta um mote aparentemente bobo e inofensivo para que o acumulado de anos de aculturamento nele contido desperte com todo um ímpeto de insurreição contra o que compõe a sua própria base existencial: a família, o trabalho, o lar, as amizades sinceras, a identidade nacional, a Fé em Deus... Aqui, sabe quem tem razão? Exatamente, ele mesmo: o professor Olavo de Carvalho!


Em suas considerações já nos primeiros episódios do programa True Outspeak, Olavo afirmou que, dentro do movimento revolucionário, existe a característica das gerações mais novas identificarem a si mesmas como legítimas sucessoras das gerações passadas.


Seja renovando a proclamação de velhas ideias, seja condenando publicamente antigas concepções do movimento e propondo alternativas, os novos revolucionários se reconhecem na História, sua deusa, como legatários de séculos de diálogos e formulações intelectuais. Essas remontam à Idade Moderna e lhes permitem estar sempre no centro das questões culturais e políticas ainda que formalmente fora dos cargos e funções-chave do Estado — Zé Dirceu que o diga.


Na contramão, assinala o professor, não há grupo, escola de pensamento ou partido, clube ou grupo de Telegram que se contraponha ao movimento revolucionário dispondo de tamanha coesão histórica. Sendo assim, as obras de opositores do pensamento revolucionário acabam naufragando no esquecimento por escassez de estudiosos interessados e divulgadores honestos e aguerridos em suas gerações seguintes. Faltando-lhe oposição capaz na cultura, a revolução triunfa também nos substratos desta como a política e o Direito.


O retrato do resultado não poderia ser mais tragicômico. Basta rememorar a sessão da Câmara dos Deputados em que o impedimento de Dilma Rousseff foi aberto: enquanto parlamentares da esquerda evocavam o prestígio feito para Carlos Marighella, Olga Benário, Luís Carlos Prestes, Leonel Brizola e outros “santos anjos do Senhor”, os parlamentares da direita e do “centro” saudavam suas bases eleitorais e dedicavam seus votos a familiares e amigos.


Assim é: o toque mágico do proselitismo revolucionário se camufla e intimida quando não seduz, captura quando não conquista, submete quando não é recebido simpaticamente, isola e ultrapassa quem dissona. E se “quem anda com os porcos farelos come!”, como já dizia o ditado, a verdade é que, aqueles que deram ouvidos ao som, parecem estar satisfeitos com tal dieta, como pareciam estar realizadas as crianças atraídas pelo toque do flautista mágico.


Pais, professores, catequistas e tantas outras pessoas importantes à formação de nossos jovens, hoje se deparam com a pesada conta que a realidade cobra. Uns poucos, como o Rato Surdo, sabem a causa do arrastão hipnótico e como ele termina, mas exatamente como no conto eles são desconsiderados por aqueles a quem desejam fazer bem. Outros são como o Menino da Perna Quebrada, ou seja, não são totalmente livres, lamentam que seus amigos tenham sido levados pela força de um feitiço. Feitiço este que ainda o atiça e teima em lhe confundir os sentidos.


Portanto, eis a visão de Hamelin, nossa casa: varrida por um som que isolou o passado, entenebreceu o presente e roubou o futuro. Atente, você que lê, se tal composição contagiante soa ao seu lado ou mesmo dentro de você. A música que arrasta os ouvintes para longe já está bem avançada e não importa o estilo da “melodia” com que o flautista se apresenta, tudo se resume a “Солдаты, в путь, в путь, в путь!” ("Soldados, a caminho, a caminho, a caminho!", em russo).


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