• Evandro Pontes

Hora de botar fogo no Caldeirão, famiglia


Passada a palhaçada do pleito regional de 2020, que deu embrulhado de presente ao Centrão todo o controle da política regional brasileira, é hora de voltarmos a falar dos projetos de poder que ameaçarão fortemente as pretensões de Jair Bolsonaro para 2022.


De todas, a mais forte atende pelo nome de Luciano Grostein Huck.


Huck carrega inúmeras vantagens sobre Bolsonaro: trabalha na televisão há pelo menos 25 anos, ocupando o horário que já foi do "Velho Guerreiro", o Abelardo "Chacrinha" Barbosa.


Esses dias ele comemorou "20 anos de Caldeirão". Para que se possa ter uma noção desse feito, o Chacrinha ficou 28 anos no ar com os programas "Buzina do Chacrinha" e "Discoteca do Chacrinha" até fundi-los em um único programa, o "Cassino do Chacrinha", que ficou no ar por apenas 6 anos. Huck já superou nomes como Edson "Bolinha" Cury e Barros de Alencar, ficando atrás apenas do próprio Chacrinha, de Fausto Silva, o Faustão, e do mestre de todos os mestres, Senor Abravanel, o Silvio Santos.


Huck treinou, portanto, por pelo menos 20 anos na Globo (sem contar os 4 anos anteriores na Band) a encaixar uma oratória global: sabe seguir um roteiro, usar as palavras e enganar bem as tias do zap que ficam na frente da TV de sábado a tarde enquanto o leitor de Bolsonaro está começando a sua jornada no boteco da esquina.


Huck segue a linha de um "Silvio Santos global" e sempre fala de pobres, ajuda a reformar casa de gente humilde que ele não conhece, se apresenta de forma simpática com todos, se mostra preocupado com "o sofrimento do brasileiro", é jovem e casado com moça "bela, recatada e do lar" - enfim: é o sobrinho que toda tia do zap sonha ter.


Huck, com esse treinamento, é capaz de falar por horas e agradar massas e multidões. No critério "lotar aeroporto", Huck é ameaça verdadeira ao reinado de Bolsonaro nos corredores de desembarque Brasil afora.


O jovem global ainda teve proximidade política com Marina Silva, anda sendo visto de mãos dadas com Sérgio Moro, faz chamegos para FHC e se quiser, bota Dória "pra mamar". Já recebeu elogios de Maia, de Xico Graziano, do próprio Moro, de Mandetta e, sabemos, até de Paulo Guedes.


E é aqui que mora outra vantagem de Huck: ele também tem proximidade com Guedes e uma infinidade muito maior de caminhos de acesso a outras opções que deixariam a Faria Lima alegre - Armínio Fraga, Gustavo Franco, Giannetti da Fonseca, Mendonça de Barros e até Marcos Lisboa, Samuel Pessoa ou Alex Scwhartsman. Com dois telefonemas, caso queira, chega inclusive em Monica de Bolle ou na improvável Laura Carvalho. Desconto aqui o acesso ao padrasto, Andrea Calabi, economista decano do PSDB e com acesso às figuras mais potentes do globalismo.


No campo jurídico, Huck é da mesma turma do Largo São Francisco que este escriba e é filho do jurista Hermes Marcelo Huck, um mito do direito internacional público. Tem proximidade não apenas com figuras como o ex-Ministro do STF Joaquim Barbosa e Sérgio Moro, mas com toda a patota franciscana, sua alma mater.


Na relação com a imprensa, Huck é indisputável. Estrela da Globo e ex-apresentador da Band, Huck tem trânsito praticamente em todas as emissoras de TV no Brasil e no exterior. Nos jornais, Huck figura como queridíssimo: tem espaço garantido na Folha, onde já escreveu várias colunas, bem como no Estadão e, obviamente, no próprio Globo. Na Veja, é figurinha carimbada e na IstoÉ, um anjo das capas bonitas. É também um queridíssimo do morista Diogo Mainardi, dono do perigoso blog O Antagonista e só é atacado, bem de leve, pela imprensa da extremíssima esquerda. Na direita e na soi disant "imprensa independente", dão a Huck menos crédito do que a qualquer youtuber paspalho que faça lives com mais de 800 desempregados. O mais comum, entretanto, é fingir que ele não existe.


Huck é novo, não tem filiação partidária (embora sua afinidade seja indubitavelmente com o PSDB), é "amigo de todos", bom moço, preocupado com o Brasil, fala bem, é rico e promove o país mundo afora - enfim, tem tudo para que lhe colem o rótulo de "nova política".


Mas esse mesmo político (sim, ele já é político) que conta com o elogio de Rodrigo Maia e FHC, já vem desde 2016 sendo construído como uma "alternativa" da Isentoleft aos dois outros polos de poder político no Brasil: a esquerda raiz (de Boulos, Lula, Ciro e Marina) e o Centrão (que resolveu abraçar Bolsonaro e chutar Alckmin nos fundilhos).


Tudo indica que chegou a sua vez.


Huck deverá sair mesmo como "o homem forte" para 2022.


Até lá, Huck estará com 51 anos e hoje já ostenta um patrimônio próximo de USD 200 milhões, sendo hoje o apresentador de televisão mais bem pago do mundo, segundo a Revista People (recebe em torno de USD58 milhões ao ano).


Huck é também o homem por trás de iniciativas como o RenovaBR e o Sleeping Giants, verdadeiras bazucas contra o conservadorismo e que foram capazes de ferir de morte centenas de pequenas iniciativas culturais a direita, de Olavo de Carvalho a Brasileirinhos.


Huck foi capaz, via RenovaBR + Sleeping Giants, de devastar a "cultura pop" que começou a ser construída em torno de temas conservadores ao longo de 2018 e 2019.


Isso o torna o candidato mais perigoso tanto para o bolsonarismo, quanto para a esquerda (justamente pelo seu potencial não de destruição, mas de ocupar-lhes o lugar sem contestações).


Mas nem tudo são flores na vida do rapaz que também teve muita ajuda do BNDES para atingir parte desse patrimônio, que chegou a ser investido em jatinhos particulares e em investimentos imobiliários curiosos (um dia falaremos deles, ambos, enquanto o governo Bolsonaro faz corpo mole para a promessa de "abrir a caixa-preta do BNDES"). Suas amizades noturnas também são uma dor-de-cabeça, principalmente a proximidade com o parça Joesley "JBS" Batista e com o brother Alexandre Accioly.


Mas nenhuma pode ser tão explosiva quanto as suas óbvias ligações com o amigão Aécio Neves: eis ai o seu verdadeiro ponto fraco (se Joesley e Accioly não acabarem revelando nada mais). E estes pontos são também inflexões para seu novo BFF, Sérgio Moro, cuja suposta proximidade com Aécio ainda é um mistério a ser desvendado.


Politicamente, Huck tem gigantesco potencial para ser mais um COLLOR DE MELLO na vida do brasileiro: pintado como o jovem "outsider" (mas que nos corredores, nunca largou a mão de Aécio, sendo mais "insider" que o próprio Bolsonaro), projeta a sua imagem de "bom moço" para se candidatar ao posto de novo Salvador da Pátria.


Sim. Isso mesmo: Huck será rapidamente transformado em Salvador da Pátria em 2021 e uma carreira de partidos do Centrão vão vender essa tese nas prefeituras que conquistaram - PSD, DEM, MDB, PSDB, PL e até coisas curiosas como Novo, Rede ou PV podem compor uma tropa de choque para apoiar o Novo Collor ou o quasae-Aécio, qual seja, o impoluto Huck.


Mais: Huck não é Alckmin - é infinitamente mais articulado, mais inteligente, mais sagaz, mais estudado, mais influente, mais rico, mais "diversificado" politicamente e, last but not least, mais treinado em oratória e retórica para pobres e neocons.


O potencial eleitoral de Huck no médio e curto prazo podem ser devastadores para quem vai se fiar apenas no Centrão do eixo Progressistas-Patriotas. E neste pormenor, o erro fatal de Bolsonaro foi ter trocado o povo que ele tinha nas mãos, por políticos que o puseram (nas próprias) mãos.


Isso o povo está vendo, e mal educado em questões políticas (graças ao fuzilamento que seus correligionários promoveram contra educadores como Olavo de Carvalho) verá em Huck a alternativa que hoje não existe. Ao insistir com o Centrão Progressistas, Bolsonaro jogará seu capital político no colo de Huck, que vai ostentar a marca de "anti-PT" e "anti-esquerda" com maior eficiência retórica que Bolsonaro, se valendo novamente da companhia de Moro para dizer que combate a corrupção (e assim dizer que a proximidade com Aécio foi só uma "amizade de verão). Mais: Bolsonaro, ao optar por manter políticas progressistas no MDH, cometeu o grave erro da contradição e da incoerência e deu a Huck o mote para ele, Huck, defender pautas que ele sabe fazer melhor do que Bolsonaro (passou anos no calor do Caldeirão apelando para essas "minorias" com eficiência infinitamente maior do que a da fraquíssima progressista Damares Alves, a verdadeira âncora que vai afundar o governo Bolsonaro).


Huck não está sendo atacado em seu ponto fraco pois, do ponto de vista político adotado por Bolsonaro, ele não poderá ser atacado nesse plano: qual seja, de suas relações com o Centrão e com o aecismo. Bolsonaro não pode atacar algo que ele mesmo, Bolsonaro, está ostensivamente cobiçando.


Esse ataque só Boulos poderá fazer. Nem Lula, nem Ciro, nem Marina na esquerda têm essa arma à disposição.


Mas muitos, em 2022, ficarão felizes pois embora Boulos seja o único que possa usar essa arma, sua munição é diminuta, ficando assim toda vantagem eleitoral e retórica com Huck.


E ai? Prontos para ver Huck subir a rampa em 2022 ou você tem alguma outra alternativa estratégica, com ou sem Bolsonaro?


Podem dizer centenas de coisas sobre mim, menos a de que eu não aviso as coisas com a antecedência devida.

2 comentários
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