• Evandro Pontes

Israel e Biden: qual o segredo de bastidores?



A ideia de que Israel se prejudicaria diante de um governo Biden não é 100% precisa. Nem tampouco (e assim muito menos) a assunção pura e simples de que os acordos de paz supostamente entabulados por Trump poderiam naufragar com Biden.


Pois bem: se você não sabe quem é Yossi Cohen, logo você não tem condições de entender nem de julgar o gesto de reconhecimento de Bibi Netanyahu para Biden.


Cohen é diretor geral do Mossad, o serviço secreto mais letal do planeta.


"Y" (transliteração da letra hebraica ['] - yod e equivalente ao número 10), como Cohen é conhecido nos corredores do deep state israelense, é responsável por uma verdadeira revolução no Mossad.


Cohen consolidou a transformação do Mossad prioritariamente em uma agência diplomática, além de suas funções já conhecidas de inteligência e segurança.


O respeitado diretor do Mossad talvez seja, hoje, o único homem que detém a integral confiança de Bibi Netanyahu e é frequentemente mencionado nos mesmos corredores que o conhecem por "Y", como o verdadeiro sucessor de Bibi no Knesset (o parlamento israelense).


Antes de falar um pouco mais sobre "Y" e sobre essa nova prioridade do Mossad, é necessário que o leitor se inteire a respeito da política de Israel dos últimos dez anos e saiba porque o Mossad tomou esse rumo mais voltado para a diplomacia e menos voltado para ação tática. A diplomacia, saibam, é a forma pela qual Israel passou a externar e instrumentalizar as vantagens que sempre teve no campo da inteligência.


Israel da década de 2010


Bibi Netanyahu tornou-se o kingpin da política israelense. E por um simples motivo: Bibi foi capaz de equacionar todas as forças políticas israelenses (exceto os árabes e a extrema-esquerda) em torno de si.


Israel é, grosso modo, divido entre: (i) conservadores religiosos (reunidos em partidos religiosos como o Shas, da comunidade Sefaradí e o UTJ, da comunidade Ashkenazí e em movimentos como o Yamina de Bennett e Ayelet Shaked, bem como os kahanistas do Otzma); (ii) neoconservadores (liderados por Avigdor Liebermann e que comanda e cuida dos interesses da comunidade russa da grande Alyiah pós-queda da URSS); (iii) o centro fisiológico (que reúne políticos de seu próprio partido, o Likud ["união" em hebraico] e; (iiii) os liberais e libertários (como Moshé Feiglin, um libertário pró-maconha do Zehut e a turma do Kulanu, um partido extinto em 2020 por fusão com o Likud e que defende pautas liberais típicas da new left). Bibi ainda conseguiu trazer para o seu entorno Yair Lapid, líder do refundado Yesh Atid ("Temos um Futuro" em hebraico).


A esses que Bibi conseguiu reunir, ainda há (como descartados por Bibi): (i) a esquerda tradicional do Partido Trabalhista, ligado à tradicioanl central de trabalhadores de Israel, o Histadrust; (ii) a extrema-esquerda de partidos como o Hadash ("Novo" em hebraico); e (iii) os árabes, como o Balad e Ta'al, que hoje, unidos à extrema-esquerda israelense, formaram a Frente Unida (Joint List). Os partidos árabes tem em sua plataforma a completa destruição do Estado de Israel.


O caldo começou a entornar quando Lapid abandonou o governo e começou a reunir forças de oposição para interromper a hegemonia de Bibi. Isso obrigou Lapid, centrista secular, a buscar forças na esquerda do Meretez e do HaAvoda (o partido trabalhista de Israel liderado pelo medalhão da esquerda israelense, Avy Gabbay e a controversa Livni).


A manobra só se completaria quando o Chefe Supremo das IDF (Israeli Defense Forces ou Haganá), Benny Gantz, iniciasse sua carreira como político na centro esquerda, reunindo assim essas forças de centro-esquerda junto com Lapid para tentar derrubar Bibi.


O golpe de misericórdia partiu dos neocons, especificamente de A. Liebermann, que em conflito político com os conservadores religiosos do Shas e do UTJ (e, em alguma medida também contra os kahanistas do Otzma), rompeu com Bibi e retirou-lhe a maioria no Knesset, empurrando Israel para 4 eleições seguidas sem uma definição de maioria, onde Bibi se via isolado com os conservadores e com o "alto rabinato". Bibi evitou por muito tempo se aproximar dos kahanistas, mas com a crise política aumentando, sentiu-se obrigado a mover-se mais para a direita do espectro político nos últimos cinco anos.


A solução ocorreu quando a inesperada união do social-democrata e centro-esquerdista Gantz sinalizou para Bibi um "governo de união". Lapid e Liebermann, vistos como traidores por Bibi, foram ejetados do centro de poder e desde meados deste ano, Israel é governado por um consenso esquerda-direita, qual seja, por um gigantesco "Centrão" político.


O Mossad


Note que Gantz, oriundo das IDF, carrega consigo uma ideologia bem marcada pelo socialismo sionista de Peres. O neosocialismo fundado por Peres-Rabin nos anos 1990, que renovou o velho socialismo de Ben-Gurion, Dayan e Meir, manteve a coesão das tropas do IDF, que antes da fundação do Estado de Israel, funcionavam como forças de segurança privada dos kibutz, as fazendas coletivas dos primeiros anos de Israel.


A direita urbana e os conservadores tinham suas próprias forças, o Irgun, que acabou sendo banindo de suas ações de segurança e chegou até a ser considerado um grupo terrorista depois do evento do Hotel King David.


Parte do Irgun se juntou à Haganá (as forças de segurança dos kibutzim) durante a guerra de Independência, formando assim as IDF. Outra parte migrou para a política e fundou o partido Herut ("Liberdade" em hebraico) que veio a se tornar o que hoje é o Likud.


Outros emprestaram sua expertise para Ben-Gurion, que criou um escritório diretamente ligado a ele, nos idos dos anos 1950, para trabalhar com "contra-terrorismo". Ali criava-se o Mossad, a expressão máxima do deep state israelense, pois suas funções não descritas em lei alguma e nem mesmo em documentos oficiais.


Mossad em hebraico significa meramente "O Instituto" e seu medalhão traz uma inscrição em hebraico retirada de Provérbios 24:6: "Porque com sábia estratégia lutarás tua guerra, e a vitória resultará da superioridade dos conselhos".


Por anos o aspecto de contra-terrorismo preponderou sobre o diplomático. O diplomático sempre esteve presente, contudo: sem Mossad, não teria ocorrido o tratado de paz em Begin e Saddat, por exemplo.


Durante esta década Bibi-2010, entretanto, o aspecto diplomático passou a preponderar, sobretudo após a Guerra de Gaza. E é aqui que entra "Y" e os tais "acordos de paz" do "Plano Trump".


Y e o Plano Trump


Sem o Mossad não haveria plano de paz nem com o Bahrein, nem com os Emirados Árabes Unidos e nem com o Sudão.


Todo o plano ostentado por Trump foi costurado por Cohen por mais de uma década.


Cohen (ou "Y") é fluente em inglês, francês e, sobretudo, árabe. Cohen, ao longo de sua carreira, teve mais apreço pelas funções diplomáticas do que pela visão clássico-romântica do "espião do Mossad".


Figura frequente nos países árabes, Y conseguiu fazer aproximações importantes com os governos do Egito, da Jordânia, do Catar e da Arábia Saudita, próximos passos desse amplo plano de sedimentação da paz no Oriente Médio. Além desses países, Cohen tem proximidade com Oman, onde conseguiu azeitar uma visita de Bibi em 2018.


Y é descrito por pessoas que conviveram com ele como alguém paciente, duro e determinado e com um QI perto de 150. Pelos adversários, é reconhecido como um negociador justo e paciente.


A derrota de Trump traz apenas uma única modificação a esse plano de Y: Irã. Mas para a avaliação da atual administração, o Irã está longe de ser uma ameaça real a Israel, dada a ampla rede de coalizão montada por Cohen dentro dos países árabes. Cohen obteve enorme sucesso ao isolar o Irã dentro do mundo árabe. Uma reação intempestiva do Irã o isolaria mais ainda no mundo árabe, quiçá, poderia provocar até uma reação de sunitas contra o xiita Irã.


O jornal Jerusalém Post, que raramente erra em suas análises políticas, considerou Cohen, em 2019, como o judeu mais influente do mundo.


Nessa mesma época Cohen deu uma palestra em Herzliya, uma espécie de "Vila Madalena de Tel-Aviv" salientando que o momento histórico atual apresentava uma janela de oportunidade única para resolver o problema israelo-palestino e que isso dependia essencialmente da remoção de Abbas como representante da Autoridade Palestina.


Guarde bem essa declaração pública de Y, pois ela tem 100% a ver com a sinalização que Bibi deu a Biden.


De Cohen a Y


Yossi Cohen serviu nas IDF em 1979, ano em que Begin e Saddat selaram o acordo de paz entre Egito e Israel. Nessa época as IDF tiveram forte atuação na fronteira com o Líbano, bem como no contra-terrorismo palestino.


Isso levou o jovem Cohen a migrar, anos depois, para o Mossad, onde desenvolveu brilhante carreira como negociador.


O nome não nega a influência de Cohen e membros de sua família aparecem como fundadores do tradicionalíssimo bairro do Mea Sharim em Jerusalém. Sua família ainda tem forte influência no mercado financeiro e em casas como Goldman Sachs.


Cohen, quando criança, foi membro de uma organização religiosa conhecida como Bnei Akiva. O mote da Bnei Akiva é "Bíblia & Trabalho" e isso basta para que possamos notar as suas estreitas ligações com o sionismo socialista que alçou Ben-Gurion ao poder na Israel nascente pós-guerra da Independência.


A educação religiosa de Cohen teve profundas raízes socialistas e a sua afiliação religiosa Masortí não deixa qualquer sombra de dúvidas sobre suas prováveis convicções políticas.


Biden ou Trump?


Cohen é politicamente o oposto, por exemplo, de Hazony. Comungam de ideais políticos adversários, ousaria dizer.


Como único homem de confiança de Bibi, que formou com Gantz um governo completamente fisiológico para resolver os impasses eleitorais de 2019/2020 e os problemas no entorno da região, o vigor conservador de Trump, que pode agradar os kahanistas e a partidários do Shas e do UTJ (e em certa medida até os neocons ligados a Liebermann), pode representar um quebra na estratégia de paz desenhada por Cohen, que, em boa parte é herdada do peresismo e é profundamente alinhada com os ideais políticos de Gantz.


A dúvida que hoje paira sobre o Knesset é se Biden estaria disposto a se alinhar com Arábia Saudita, Egito, Jordânia e Catar, isolando assim Irã e, localmente, congelando Muhammed Abbas do Fatah palestino. Se Biden topar, ele será "o" homem para Bibi.


Caso Biden opte por se alinhar ao Irã e se afastar da Arábia Saudita e dos sunitas, Cohen poderá vê-lo como um aliado a menos, mas jamais o colocará na fileira dos "inimigos".


O rumor de que Biden teria recebido votação maciça da comunidade judaica nos EUA pode ser uma sinalização de que Biden poderia ceder às estratégias de Cohen (assim como Trump o fez), já que o próprio Bibi, muito provavelmente orientado por Y, não demorou em cumprimentar Biden, sob o risco assumido de ganhar um unfollow no Twitter.


Não apenas a orientação de Y deve ter pesado na decisão de Bibi, mas a "sinuca de bico" em que hoje ele se encontra, em sua coalizão com Gantz para viabilizar a tal "governabilidade" (algo que Bolsonaro está repetindo no Brasil).


O mérito da "Estratégia Y"


Quem me acompanha há mais tempo e leu o Virtude do Nacionalismo de Hazony, que pude traduzir, sabe o que eu acho dessa estratégia de linha peresista.


O propósito desta matéria foi meramente informar o leitor de porque Bibi se apressou em cumprimentar Biden.


Não estou fundamentando eventual acerto dessa estratégia (vez que, pelo contrário, o exemplo de Peres mostra, sim, o desacerto dessa linha de negociação baseada no "enemy of my enemy can be my friend").


E se você se der ao trabalho de olhar o mundo sob as lentes de Bibi, vai entender porque (errado ou não), Bibi não tinha outra opção que não fosse essa.


Não - Bibi não é "o cara". Nem Biden.


Y "é o cara".

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