• Evandro Pontes

Israel irá para 4ª eleição em menos de 2 anos



No último dia 2 de dezembro chegou ao final mais uma tentativa de formação de governo no conturbado Estado de Israel.


Foi a 3ª tentativa em menos de 2 anos.


Desde o desentendimento entre Avigdor Lieberman, um neoconservador do partido Yisrael Beiteinu, com o líder do Likud, Benjamin Netanyahu, nos idos de Outubro de 2018, o Estado de Israel nunca mais se equilibrou politicamente.


Ao longo desses dois anos, a esquerda clássica trabalhista (o HaAvoda) praticamente desapareceu do cenário político israelense. O HaAvoda carrega a tradição política do sionismo socialista desde os tempos de Ben-Gurion e Golda Meir.


Com o surgimento do peresismo (uma espécie de Nova Esquerda Globalista israelense sob a liderança de Shimon Peres e Itzahk Rabin), a esquerda israelense foi se modificando até encontrar guarida em Yair Lapid, que se uniu ao ex-general do Exército Israelense, Benny Gantz, criando uma esquerda isralense de coloração bem identitária.


Essa esquerda quebrou a hegemonia do Likud de Netanyahu. O Likud, junto dos partidos conservadores da chamada "Nova Direita" (como o extinto Baiyt Yehudi, que acabou dando origem à Yamina de Bennet e Shaked) e ao lado dos religiosos Shas e UTJ, controlava a maioria do Parlamento (o Knesset) graças ao pequeno apoio de Lieberman. Esses partidos somados (Likud, Baiyt Yehudi, Yisrael Beiteinu, Shas e UTJ) davam a devida sustentação numérica para Netanyahu.


Com a saída de Lieberman do bloco, o Estado de Israel nunca mais se equilibrou politicamente.


Na última tentativa, Gantz, da Nova Esquerda do Kahol-Lavan (o Azul e Branco) aceitou formar um governo com o bloco de Netanyahu sem precisar de Lieberman.


A tentativa de união durou pouco: Lapid, aliado de primeira hora de Gantz, deixou o bloco da Nova Esquerda e os conflitos da ala conservadora com Netanyahu forçaram a Yamina a se isolar ao ponto de ser praticamente jogada para a oposição. O maior projeto da Yamina, a reforma do Judiciário israelense (a corrupção da inteligência jurídica é o maior problema interno de Israel hoje em dia ao lado da questão dos "assentamentos judaicos na Cisjordânia") foi praticamente desprezado por Netanyahu, jogando seus líderes para o escanteio político dentro da coalizão do atual governo.


Mais uma vez chegado o novo ano após o Rosh Hashaná em setembro p.p., o equilíbrio tênue conquistado por Netanyahu se desfez e o "governo de união" tornou-se insustentável.


Na noite de ontem, o número 2 do Likud, Gideon Sa'ar, anunciou que sairia do partido para tentar viabilizar-se em um partido que deverá ser fundado por ele nos próximos dias.


O quadro político está praticamente estilhaçado e os partidos árabes e de extrema esquerda (que operam unidos) cresceram muito com essa dispersão. Mas não ao ponto de ameaçar a hegemonia do campo conservador na política de Israel, que parece incontestável.


O resultado? Bem - toda a contestação não parece mais ser uma questão de virada do quadro conservador em prol de políticas mais alinhadas à velha ou à nova esquerda: em Israel parece que a decadência da esquerda sionista é definitiva e a da esquerda não-sionista já atingiu o seu teto. A direita é portanto uma realidade duradoura em Israel.


O ponto central é, portanto, a disputa pela liderança no campo da direita.


Netanyahu, cercado de problemas jurídicos (boa parte deles criados pela sua própria esposa), somando-se à sua personalidade centralizadora e vingativa, tem tornado a sua figura politicamente inviável.


Israel quer se manter na direita, mas ao que tudo indica, não mais sob a liderança de Netanyahu. Esse é ponto: a direita deve ficar, mas todos já estão cansados do estilo de liderança do velho Bibi.


A debandada do Likud enfraquece a legenda isolando Netanyahu, fortalecendo outras no espectro político mais a direita. Ganha o Yamina, que virá muito forte nestas eleições, devendo ameaçar inclusive o domínio numérico do Likud.


Mais de um ano atrás, quando eu escrevia sobre o tema em outro veículo, vaticinei sobre o certo e seguro crescimento da Yamina e de Shaked. Esse crescimento está acontecendo e o vaticínio já é uma realidade política em Israel hoje. Dos 5 assentos em mãos da Yamina, já há projeções hoje que calculam que o partido tem potencial para conquistar até umas 25 cadeiras, rivalizando com uma projeção de 29 para o Likud (este conta com 36 cadeiras no Knesset hoje).


O lado negativo é que apesar desse crescimento, a Yamina ainda não pode, numericamente falando, se arrostar à liderança, substituindo assim a forte imagem que Netanyahu ainda possui em Israel. Por seu turno, Netanyahu já esgotou todo o seu capital político e não deverá conquistar a liderança do Knesset no próximo pleito - para ele, game over.


Acompanhar eleições em Israel é absolutamente fundamental, pois Israel tem a capacidade de antecipar movimentos políticos que acabam se consolidando mundo afora.


Se essa situação de fato ocorrer mais uma vez e Israel acabar antecipando tendências políticas, veremos por mais tempo uma direita majoritária à deriva no mundo, em busca de uma nova liderança.


Isso é o que temos em Israel hoje, e é o que poderemos ver no mundo amanhã. E como o poder não aceita vácuos, não descartem uma minoria dominar uma maioria órfã de líder - exceto em Israel, onde o sistema impede que uma minoria tenha qualquer papel de domínio, ainda que por breve período. Israel sempre preferirá a orfandade ao orfanato.


Acompanharei essas eleições com o mesmo empenho visto nas 3 anteriores.


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