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  • Dica HQ

KEN PARKER VOL. 2, de Berardi & Milazzo

E os italianos se deleitam com o faroeste americano.



O segundo volume da nova edição de KEN PARKER traz duas histórias: “Os Cavalheiros” e “Homicídio em Washington”.



OS CAVALHEIROS (I Gentiluomini)


A primeira se passa em 1870, mas tem um prelúdio que ocorre em 1865, final da Guerra de Secessão, o qual nos apresenta o Capitão Kirk Collins dos Confederados e sua amarga e traumática derrota. No tempo presente, Collins continua sua luta contra os ianques, mas em outros termos, através da revolução e da guerrilha, ao lado do jovem Mark Buttler.


A dupla se une ao bando de Lou Hendrik, um bandoleiro que já fora da famigerada quadrilha de William Quatrill (quadrilha que realmente existiu). Para financiar sua guerrilha contra o atual estado de coisas, eles queriam roubar um trem; claro que Hendrik e seus subalternos queriam apenas fazer o que sabiam fazer melhor: roubar.



No trem, Ken Parker estava de viagem para Washington, passando por Omaha. E ele conseguiu sobreviver ao descarrilhamento que o bando perpetrou. Porém, sua sobrevivência não o impediu de ser nocauteado pelos criminosos antes de eles partirem. A partir daí, será uma longa viagem para Parker para recuperar seu rifle roubado, o rifle de seu avô, levado a tiracolo por Lou Hendrik – além de tentar resgatar uma mulher sequestrada.




O que me chamou atenção nesta história foi ver algo que está um tanto difícil de encontrar nos quadrinhos atuais (seja de qualquer gênero) e na cultura pop em geral, que são os vilões maus, realmente maus. Homens sem escrúpulos algum, que não veem problema em ameaçar tanto um homem possivelmente armado quanto uma moça indefesa. Daquele tipo que o leitor fica pensando quando eles irão ser finalmente presos ou mortos.



Também me chamou atenção o nome “Pinkerton”. Em algum momento, os ladrões confundem Parker com um agente da Pinkerton. A Agência Pinkerton realmente existiu: fundada em 1850 em Chicago pelo escocês Allan Pinkerton, era uma empresa que oferecia serviços de investigação, segurança e até mesmo “fura-greves”, infiltrando-se em sindicatos trabalhistas para desbaratá-los. Ficou conhecida por ter desbaratado uma tentativa de assassinato do presidente eleito Abraham Lincoln graças às diversas táticas da agente Kate Warne, que ficou acordada durante toda a missão, o que deu o slogan “We Never Sleep” e o logo de um olho a aberto à agência.



A Agência Pinkerton ficou tão célebre entre os norte-americanos que influenciou a cultura popular, sendo várias vezes referenciada em livros, filmes, música, televisão e videogames. O escritor de romances de mistério e policial Dashiell Hammett foi um agente da Pinkerton entre 1915 e 1922.


A Agência Nacional de Detetives Pinkerton foi comprada em 1999 pela sueca Securitas AB.



HOMICÍDIO EM WASHINGTON (Omicidio a Washington)


Finalmente na capital americana, Ken Parker se dirige à casa de Ely Donehogawa, Comissário de Assuntos Indígenas, para pedir auxílio na questão das invasões dos brancos em terras indígenas – Parker compreendia muito bem a situação dos índios e do desrespeito aos tratados assinados. De acordo com Parker, mineradores criavam situações e atiçavam os índios para que eles tivessem uma desculpa para expulsá-los de suas terras, onde foram encontrados vestígios de zinco e prata.




Após discursar no parlamento e enfrentar uma turba política que defendia a expansão do homem branco para as terras do oeste, Ely Donehogawa acaba se tornando alvo de uma conspiração. E Ken Parker passará por tremendas dificuldades par defender seu nome e a causa indígena. Além disso, temos a participação de um agente da Pinkerton.




Esta segunda história daria um ótimo filme, com vários efeitos dramáticos e algumas “licenças poéticas” em relação a personalidades históricas. O gancho no final é daquele tipo que deixa o leitor pensando "E agora?".


Na introdução do volume, o editor comenta sobre o personagem Donehogawa. Ele realmente existiu: indígena, nascido Hasanoanda, chamado Ely Samuel Parker, recebeu o nome de Donehogawa (“Guardião das Portas do Oeste da Antiga Casa dos Iroqueses”) em 1852 ao ser feito líder da tribo dos Senecas. Formou-se em Engenharia, exerceu a diplomacia entre as tribos e o governo americano, e participou da Guerra Civil Americana chegando ao posto de Tenente-Coronel sob o General Ulysses S. Grant.





Após a eleição de Grant para presidente (1869-1877), Ely foi nomeado Comissário de Assuntos Indígenas, cargo este que exerceu entre 1869 a 1871. Após o período, saiu da carreira política e preferiu o mundo dos negócios, investindo no mercado de ações. Todavia, em 1873, perdeu sua fortuna na depressão econômica de 1873-1877, período conhecido como The Panic. Até a sua morte, em 1895, nunca chegaria a recuperar sua antiga fortuna.




SOBRE A LEITURA


Por fim, KEN PARKER é uma ótima leitura para quem busca ação, aventura, diálogos intrigantes, quebras de expectativa, drama etc. Giancarlo Berardi foi sempre um ótimo escritor, do tipo que agrada todos, incluindo quem não é fã de temática faroeste.


Apesar de muito elogiado pelo seu estilo artístico, não acho o desenhista Ivo Milazzo tão excelente assim. Gosto de como ele presta atenção aos detalhes, mas ao mesmo tempo seu traço não me anima, às vezes parecer estar mais rabiscando do que criando, além do exagero de nanquim. Não sou nenhum artista para ter um juízo completo sobre o assunto, mas acho que há desenhistas melhores na Itália (e nem estou me referindo ao mestre Sergio Toppi). Mas serve ao propósito da história, o que já é muito bom.


Uma última coisa: quem gosta de ler acompanhado de música temática, há uma trilha sonora para Ken Parker no Spotify. Clique aqui para ouvir. Enjoy!


KEN PARKER VOLUME 2 foi publicado em 2021 pela Editora Mythos, reunindo os números 3 e 4, originalmente lançados em 1977 pela Sergio Bonelli Editore.


Nota: 4,5/5,0.