• Evandro Pontes

MDB: o “coração” do Centrão


Em artigo anterior, abordei a radiologia do Progressistas, herdeiro do ARENA e partido que carrega o “centro-direitismo” da velha UDN.


Tratei também, alhures, sobre o Psol e em uma outra oportunidade sobre essa nova sigla que surgiu praticamente “do nada” há alguns meses, a UP.


O espectro partidário brasileiro, dominado por forças do Centrão, faz um jogo político em que apenas são permitidas legendas novas de esquerda – isso é simples de entender: quem conhece os esquemas do Foro de SP (tanto do Mensalão quanto do Petrolão e, agora, do Covidão) sabe que a esquerda pode dar a única coisa que interessa ao Centrão, a saber, dinheiro.


É neste binômio Centrão/Esquerda que a política brasileira se assenta, acomodando nesse Centrão a chamada “direita permitida”. Todas as outras tendências do espectro político brasileiro são imediatamente tachadas de “radicais”, “ideológicas” ou “extrema direita” e por isso, proibidas.


Isso se deve à forma como partidos que orbitam em torno do Progressistas, fazem política.


É por essa razão que o Progressistas é a alma do Centrão, como o chamei em texto anterior.


Nesse mesmo texto comentei que o MDB seria o seu coração, deixando no ar para em momento posterior, fazer a radiografia deste.


Pois bem, esse momento chegou. Vamos ao MDB e a explicação de porque ele é o coração do fisiologismo brasileiro.


Alma e Coração


A primeira parte do texto sobre o Progressistas fala dos precedentes políticos do AI2.


Procurei focar ali no setor político brasileiro que deu origem à ARENA.


Lembrei naquele texto: “naquela época, o Brasil vivia uma instablidade partidária gigantesca: havia o PSD de JK ao Centro separando as forças da UDN, à direita e do PTB, à esquerda. Havia outras legendas espalhadas pelo espectro político, com predominância para as legendas de esquerda: PCB (Partido Comunista Brasileiro, de Prestes), PSB (Partido Socialista Brasileiro, de João Mangabeira, que curiosamente nasce de uma dissidência da UDN chamada ED, ou Esquerda Democrática), o PSP (Partido Social Progressista, de Adhemar de Barros) e o PCdoB (Partido Comunista do Brasil, de João Amazonas). À direita e frequentemente alinhadas com a UDN (de onde inclusive saíram, curiosamente, alguns partidos de esquerda), tínhamos o PDC (Partido Democrata Cristão, fundado pelo Catedrático da Faculdade de Direito do Largo São Francisco, Cesarino Junior, que contou entre seus filiados com Plinio de Arruda Sampaio, um dos decanos e ex-candidato a presidência da república pelo Psol e fundador do PT), o PL (Partido Libertador, de Assis Brasil), o PR (Partido Republicano, do ex-presidente Artur Bernardes), o PRP (Partido da Representação Popular, de Plínio Salgado) e o PTN (Partido Trabalhista Nacional, de Jânio Quadros)”.


Parece ter ficado claro naquele artigo como o ARENA formou-se de maneira bastante porosa a ideais progressistas. Nem mesmo o evento antecedente e tido como matriz da “Revolução de Março de 64”, a saber, a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, resistiu ao progressismo: contou com forças adhemaristas com forte simpatia a linhas ideológicas mais à esquerda como as feministas do “União Cívica Feminina” e da “Campanha da Mulher pela Democracia”.


Disso foi possível, na seção seguinte daquele texto, explicar como “Nasce o ARENA”.


Incumbe agora recuperar aquele percurso para explicar aqui como “Nasce o MDB”.


Nasce o MDB


Já sabemos quais as forças partidárias que regiam aquele período anterior ao AI2:


- a esquerda, PTB, PCB, PSB (ED), PSP, PST e PCdoB;


- ao centro o PSD; e


- a direita, UDN, PDC, PL, PR, PRP e PTN.


Para formar o ARENA o núcleo da UDN foi aproveitado, recebendo ainda gente de vários espectros partidários como o PDC, o PL, o PR, o PRP, o PTN, parte do PSD e uma minoria do PTB.


A turma mais a esquerda formou o MDB.


E o MDB foi formado basicamente por uma mescla de PTB com PSD. Curioso notar que alguns conservadores como Mário Martins, da UDN, foram militar no MDB como forma de “protesto” às perseguições empreendidas pelos militares contra o amigo Carlos Lacerda.


A militância de Mário Martins (ferrenho anti-getulista e anti-comunista) custou-lhe caríssimo: seu filho, Franklin Martins, é hoje um dos mais astutos esquerdistas que milita com vigor nas fileiras petistas.


O MDB, criado assim no contexto do AI2, teria sido idealizado como “oposição consentida” sob a sigla MODEBRA (Movimento Democrático Brasileiro), tendo optado, horas antes do registro, pela mudança favorecendo o acrônimo “MDB”.


As disputas internas pela liderança do MDB havidas entre velhos políticos do PTB ligados ao varguismo e com ligações com Jango, foi derrotada pela ala jovem do PSD, a saber, Ulysses Guimarães; o ex-Primeiro Ministro de Jango, Tancredo Neves; Amaral Peixoto; o professor de Direito da PUC/SP, Franco Montoro e o lendário advogado baiano Chico Pinto.


A esse grupo iria se juntar Mário Covas, oriundo não do PSD, mas do PST, o pequeno Partido Social Trabalhista, uma dissidência mais a esquerda do PSD. O PST foi um partido identificado com o sindicalismo de Dutra e por isso, tinha em suas fileiras tanto gente da caserna e que nutria simpatia pela URSS (caso do General Oscar Passos), quanto positivistas da área jurídica (vide o caso do famoso Tenório Cavalcanti, também conhecido como “O Homem da Capa Preta”). Tenório, o deputado que fez ACM urinar nas calças no Plenário da Câmara em 1964, teve seus direitos políticos cassados e não pode militar no MDB, partido de sua franca simpatia.


Já os militantes do PCB e PCdoB, bem como alguns do PSB, tiveram, quase todos, seus direitos políticos cassados. Foram raros os políticos que conseguiram passar incólumes às cassações de 1966, indo parar no MDB e sendo oriundos de partidos declaradamente comunistas ou socialistas. Roberto Freire, que militava no PCB, foi um dos poucos do “partidão” que conseguiu se “renovar” no MDB a partir de 1965. Ainda dentre os raros casos de gente que escapou da “cassação”, tivemos o de Marcos Freire (PSB), que ao lado de Alencar Furtado (ED/PSB) e de Chico Pinto, formaram o grupo dos “autênticos do MDB”. Além desses, o MDB ainda recebeu o socialista Saturnino Braga (PSB), que ia acabar se tornando uma das figuras de proa do brizolismo carioca, passando praticamente por toda a Era Lula filiado ao PT.


Intelectuais como Barbosa Lima Sobrinho (um dos fundadores do PSD) reforçaram o núcleo “ideológico” dessa doutrina “moderada” que era encabeçada pela dupla Tancredo/Ulysses. Esse trio é praticamente a Casa Oracular do isentismo brasileiro e de toda a doutrina isentoleft que circula em núcleos prudentes e sofisticados que vão do PSDB ao Novo.


Notem como os militares foram muito mais simpáticos com políticos comunistas (Roberto Freire, Marcos Freire, Furtado, Pinto, Covas, Sobrinho) do que com políticos conservadores (todos cassados e perseguidos, de Lacerda à Corção – este, nem político era).


E o MDB também contou com políticos vindo da “centro-direita”, como Orestes Quércia, oriundo do PL (o “Partido Libertador” de Assis Brasil).


Assim como a ARENA o MDB, a “oposição consentida”, era também um “balaio de gatos” que contava com gente de todo o espectro político de centro – da centro-direita à centro-esquerda indo até a esquerda (discretamente) mais radical. A ARENA, por sua vez, contando até com adhemaristas como Paulo Maluf, recebia gente da centro-esquerda à centro-direita, mas jamais aceitando esquerdistas mais puros ou militantes de partidos como o PSB, nem tampouco conservadores legítimos, por conta da interferência direta de Filinto Muller, antipático a presença destes.


Assim se convencionou que a ARENA ficaria ligeiramente mais à direita e o MDB, ligeiramente mais à esquerda, dando àquela um ar mais “tecnocrático” e “pseudo-racional” e à este um ar mais “progressista” e “fraternal”. O mito de uma ARENA com aspecto de “alma do Centrão” em oposição ao lado “mais coração” do MDB foi exatamente gestado em fins dos anos 1960 e início dos anos 1970.


Esse aspecto mais “emotivo” do MDB fazer política foi o que os permitiu ter o sucesso eleitoral dos anos 1970, tornando o MDB uma força regional que rende frutos até hoje.


Notem que nestas eleições de 2020, o MDB segue ainda como o partido mais forte no âmbito da política regional brasileira.


O Pacote de Abril e o MDB


Com o Pacote de Abril de 1977 e a preparação para o pluripartidarismo, vários intelectuais do MDB partiram para fundar um partido sindical associado ao novo sindicalismo (este é um outro aspecto da política brasileira que merece outro texto): desse novo sindicalismo, associado aos intelectuais católicos da Teologia da Libertação, surge o PT, o Partido dos Trabalhadores.


Do MDB saem também os antigos donos do PTB para refundá-lo no início dos anos 1980. Da briga entre Ivete Vargas e Leonel Brizola, surge o PDT, fundado por este em razão da vitória daquela na liderança do PTB.


O MDB também fornece membros para a Frente Liberal, dissidência do PDS (novo nome dado a ARENA) e que formaria o PFL, posteriormente renomeado para Democratas ou DEM e que figurou como líder do primeiro governo civil após o fim do regime em 1985 (Tancredo, do PMDB, dividiu o governo com Sarney, que era do PFL e que anos mais tarde, mesmo tendo militado na ARENA, ressurge na política junto ao PMDB).


A volta de exilados permitiu a refundação do PCB, PCdoB e PSB.


E com a reorganização da esquerda entre PT, PDT, PCB, PCdoB e PSB; o MDB converteu-se em PMDB.


Na sucessão do ARENA, tivemos o PDS que ainda forneceu gente para a fundação de dois núcleos de centro: o PL e o PFL.


Algum tempo depois, o núcleo fundador do MDB formado por Franco Montoro, já aliado ao decano MDBista Mário Covas, trouxe o jovem Professor Fernando Henrique Cardoso, que em parceria com o comunista José Serra, congregaram um espectro que combinava social-democracia e neoliberalismo econômico (da linha de Rüstow) para fundar o PSDB no fim dos anos 1980, a mais poderosa dissidência do PMDB.


Desinteressados pelas estratégias de uma política nacional, o PMDB se aproveitou dessa dissidência do PSDB para se firmar como a maior força do Centrão, implementando um duto político que se orienta pela inabalável colaboração entre prefeitos e deputados federais. Essa estratégia perdura até hoje e Bolsonaro, eleito com a promessa de quebrá-la, decidiu neste 2020 fortelecê-la.


Dessa colaboração entre prefeitos e deputados federais, o PMDB tira gigantesco proveito de políticas de incentivo (financeiro) federal a centros regionais de poder.


Desta forma, o PMDB é o partido que melhor articula o poder econômico central (federal) com o poder político local (municipal) – eis a razão de seu desinteresse em política estadual e até mesmo em disputas políticas de âmbito nacional. Seu desempenho sempre foi (ao que parece, isso é proposital) ridículo: candidatos como Ulysses Guimarães (1989), Quércia (1994) e Meirelles (2018) são exemplo de candidaturas que são alvo de chacota eleitoral.


MDB hoje


O MDB nunca saiu do comando da política brasileira, mas foi com Temer que o “manda brasa” (apelido do MDB entre a “velha guarda”) voltou ao foco da política federal. Na verdade, quem lhe trouxe evidência foi Eduardo Cunha, articulador do impeachment de Dilma Rousseff e quem abriu para Temer o caminho do Alvorada.


É um partido que conta com gente como José Sarney, Paulo Skaf, Ibaneis Rocha e o mítico esquerdista Roberto Requião.


O MDB é, pois, a cara de Temer com um jeito de Requião – Centrão emotivo, faz política na base dos piores tipos de acordo de bastidores, revelados em parte com a prisão de Cunha.


Esse partido empresta algum prestígio, hoje, ao bolsonarismo. Nomes como o de Baleia Rossi bem como do próprio Skaf ou Temer, fazem a aproximação que tornou parte do MDB com um pé na canoa do governo, enquanto a outra parte, ligada a Romero Jucá, transita com o PSDB e com outro pé numa ala oposicionista discreta. No Senado essa divisão é clara: Eduardo Gomes, líder do governo, é bem alinhado com o Alvorada ao passo que Simone Tebet transita bem com Tasso Jereissati, enquanto que Fernando Bezerra “corta para os dois lados” (Bezerra é ex-militante do PSB e foi lulista durante boa parte de ambos os governos do PT).


Ao lado do Progressistas, o MDB faz o balanço do que se convencionou chamar de “governabilidade” (é o toma-lá-dá-cá sem “depósito em conta” ou “dinheiro na mala”, mas poroso a “trocas políticas” que envolvam cargos e emendas parlamentares).


Eis ai um dos pilares, hoje, do bolsonarismo fisiológico: reconhecer e respeitar essa máquina de poder local e, obviamente, incorrer em todos os seus riscos políticos e jurídicos. E se você ainda não sabe de quais “riscos políticos e jurídicos” nós nos referimos, recomendamos perguntar ao Eduardo Cunha quais são – o cardiologista do coração do Centrão sabe melhor do que ninguém desvendar esses riscos.


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