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  • Alexandre Nagado

Meritocracia, justiça social e a finalidade de uma boa formação

Atualizado: Mar 8

Reflexão sobre um tema controverso e um modo de seleção por competência que pode estar em vias de extinção.

Meritocracia é um sistema de hierarquias e promoção que privilegia os melhores e os mais capacitados em diferentes áreas. Ideologicamente, foi definido na década de 1950 pelo sociólogo Michael Young como sendo um modo de organização que privilegia o mérito individual.


Com ou sem uma denominação específica ou conscientização, é a meritocracia que tem impulsionado a humanidade através das eras. Os seres humanos diferem muito entre si, e as capacidades não são equivalentes. Os melhores sempre impulsionam o mundo e todos os grandes nomes da ciência, das artes e dos esportes foram pessoas que romperam limites pelo talento, esforço e capacidade.


Porém, para grande parcela da sociedade que é simpática ou influenciada pela esquerda, a meritocracia foi se tornando um verdadeiro palavrão, um termo ligado à exploração e à injustiça social. Mas, será mesmo?


Uma das formas de combater a meritocracia tem sido a criação de cotas raciais para ingresso em universidades. E sobre isso, há muito o que se discutir. Qual o sentido de corrigir uma injustiça histórica criando outra? E os negros, pardos e índios que conseguiram ingressar na faculdade por mérito e esforço próprio antes das cotas serem criadas? E será que todos os negros, pardos e índios são pobres?


Imagine filhos de artistas ou profissionais negros ou pardos bem sucedidos, que ganharam muito dinheiro e tiveram uma vida confortável, com acesso a estudos em colégios de ponta. Esses também têm direito a usar cotas, mesmo sendo teoricamente capazes de conseguir pela via normal, por terem tido os mesmos privilégios de acesso à educação que brancos de boa situação financeira. E essa é somente uma das distorções de um sistema que separa e privilegia pessoas pela cor de pele ou etnia.


E os que vivem na linha da pobreza, mas são brancos? Um tratamento diferenciado para aumentar as chances de ingresso na faculdade que levasse em conta a posição social eu acharia mais justo do que levar em conta cor de pele. E, sem querer continuar muito nessa questão, quero apontar algo que ninguém parece notar: E a sociedade, como fica?

As chances no horizonte não são iguais para todos.

Mas será que baixar as exigências - e a qualidade - é a solução?


Fala-se muito em inclusão social, em corrigir injustiças históricas e em criar categorias com maiores proteções do Estado, mas ninguém parece se preocupar com o retorno que os formados irão dar para a sociedade. Sim, porque a faculdade não é um fim por si só, é uma forma de capacitar profissionais de nível superior para prestarem um serviço profissional na sociedade. E não seria justo querer que esses profissionais tenham e busquem cada vez mais excelência e qualidade?


No ensino público, o sistema de aprovação permite que o aluno seja promovido ao nível seguinte com uma nota média igual ou maior que 5, quando a nota máxima é 10. Ou seja, basta que prove, via avaliações e trabalhos, que aprendeu pelo menos metade do que deveria. Levado isso à universidade, significa que um médico ou engenheiro pode ser aprovado sabendo metade do que um profissional pleno saberia. Assim é no ensino público. Será que exigir menos não dá espaço para que a qualidade tenha uma queda?


Os justiceiros sociais precisam pensar mais em qualidade e excelência do que somente em inclusão social e diversidade. Um exemplo: Imagine se um parente de um desses militantes estiver precisando de uma cirurgia urgente e, dentre os médicos disponíveis, há um que jamais perdeu um paciente e é constantemente apontado como modelo de excelência, enquanto outros dois acumulam processos por imperícia. Qual deles o justiceiro social escolheria? Pediria o melhor para salvar seu filho ou perguntaria a cor de pele de cada um deles pra escolher o que foi socialmente mais prejudicado em sua vida? E não estou aqui dizendo que o melhor não poderia ser negro, e sim dizendo que o critério de mérito, quando a coisa aperta, é o que vai ser decisivo. É hipocrisia dizer que não.


A universidade não é um fim em si para compensar, somente no final, as injustiças sociais sofridas anteriormente.


O preço quem vai pagar é a sociedade. Mas o esquerdismo não enxerga nada além de ideologia. Conheci um caso que vou relatar, sem no entanto dar nomes. Em uma entre tantas universidades públicas, há um serviço que oferece moradia estudantil gratuita a jovens que vêm de outras cidades e não têm condições financeiras de se manter, o que é louvável, claro. Mas, um dos critérios para manutenção do privilégio é que o aluno seja aprovado em todas as disciplinas a cada semestre. Reprovação em um certo número de matérias implica na expulsão ou desligamento do programa social de moradia estudantil. É uma regra conhecida e cuja ciência é assinada por cada um que ingressa. Certa vez, houve um número recorde de expulsões por nota. Aí, houve uma grande movimentação estudantil, que convocou jovens de outras cidades para ocupar o campus.


Um dos prédios da faculdade foi tomado por manifestantes, que montaram acampamento para pressionar a direção a não expulsar ninguém. Foi redigido um manifesto contra a meritocracia.


Em certo ponto da carta, tornada pública, os estudantes diziam que era errado exigir nota mínima de quem havia vindo de colégio público e isso era uma forma de preconceito social. Queriam que a exigência de nota cinco fosse abolida. Isso queria dizer, na prática, que um aluno com nota 2 ou 3 (ou até zero) poderia não apenas continuar morando de graça na faculdade, como poderia se formar, caso tivesse vindo de escola pública. O vitimismo estava chegando a níveis irresponsáveis.


Não sei que fim levou a história de cada um dos alunos, apenas soube que alguns foram mesmo expulsos e outros conseguiram na justiça o direito de ficar. Não importa, o que me escandalizou mesmo foi o teor da carta aberta dos alunos, que tratavam a meritocracia como um câncer da sociedade. Para um militante de esquerda, certamente é, pois é muito melhor não ser cobrado de nada, com o Estado todo-poderoso cuidando de tudo. Ao invés de lutar por mais qualidade e um melhor nivelamento de conhecimentos para os alunos, preferiram lutar para que a universidade afrouxasse ainda mais suas exigências.


Imagine jogar no mercado um engenheiro formado com nota zero. Diploma não traz histórico escolar e ele iria tentar o mercado de trabalho. Digamos que, num golpe de sorte, desenvoltura na entrevista de contratação ou com muitas indicações, conseguisse trabalhar na área em que se formou. Que tipo de erros primários um profissional desses poderia cometer? Até onde seria possível ignorar a necessidade de mérito? Até alguém morrer por causa de um erro grosseiro de um profissional muito mal formado?


Pela neurociência, sabemos que uma criança pobre (branca ou negra) que se alimenta de forma precária, terá um desenvolvimento intelectual prejudicado em relação a um rico ou de classe média. Isso terá impacto em sua vida estudantil e a deficiência não poderá ser corrigida na fase adulta. A correção de rumo tem que ser feita o mais cedo possível. Depois, não adianta compensar e querer cobrar menos nota sucessivamente até essa pessoa, que realmente foi prejudicada e não teve as mesmas chances, conseguir se formar na faculdade. Sair formado e totalmente despreparado porque tentaram corrigir as injustiças sociais (reais e terríveis) diminuindo as exigências sobre a pessoa é algo que vai prejudicar a sociedade, inevitavelmente.


A solução não é mágica e certamente não vem por decreto do Estado. Claro que seria muito melhor que o ensino público fosse melhor trabalhado, para que seus alunos chegassem com maiores chances de pleitear vaga em universidades públicas.


Não tenho as respostas para resolver essa desigualdade de chances, mas tenho a certeza de que não é no final da preparação do profissional que as deficiências serão corrigidas magicamente via decreto de inclusão social.


CONTRAPONTO:


Veja uma história em quadrinhos de Toby Morris que aborda o assunto sobre meritocracia, mas do ponto de vista de quem considera o critério injusto. Os quadrinhos apresentam questões sérias que precisam ser melhor equilibradas, mas não ao custo de uma diminuição de qualidade no ensino ou do nível de exigências no critério de qualidade. Para conferir a HQ completa, clique aqui.