• Evandro Pontes

METAL BRIDGES: os melhores álbuns de metal de 2020



Foi ao ar ontem na Rádio Shock Wave o Metal Bridges especial apresentando os melhores álbuns de 2020.


Eis aqui a playlist:


Ozzy Osbourne, "Under the Graveyard" do álbum Ordinary Man


AC/DC, "Realize" do álbum Power Up


Anvil, "Legal at Last" do álbum de mesmo nome


Apocalyptica, "Ashes of the Modern World", do álbum Cell-0


Trivium, "IX/What the Dead Men Say" do álbum de mesmo nome


Sepultura, "Isolation" do álbum Quadra


Testament, "WWIII" do álbum Titans of Creation


Demons & Wizards, "Invincible" do álbum III


Grave Digger, "All of the Kingdom" do álbum Fields of Blood


Kataklysm, "The Killshot" do álbum Unconquered


Ensiferum, "Andromeda" do álbum Thalassic


Saltatio Mortis, "Loki" do álbum Für immer frei


Mors Principium Est, "Loss in a Starless Aeon" do álbum Seven


Lamb of God, "Memento Mori" do álbum Lamb of God


Wolfheart, "Ashes" do álbum Wolves of Karelia


Primal Fear, "I am Alive" do álbum Metal Commando


Dark Tranquility, "Phantom Days" do álbum Moment


2020 está longe de ser um ano como foi 2018, 2013 ou 2008 para o heavy metal, mas dados os acontecimentos, não foi um ano ruim.


Foi um ano de muitos lançamentos e na média geral, bons lançamentos que me obrigaram a excluir da lista, por diversas e variadas razões, bandas grandes e importantes como Deep Purple (Whoosh!), Blue Öyster Cult (The Symbol Remains), Rage (Wings of Rage), Fates Warning (Long Day Good Nights), Paradise Lost (Obsidian), Sodom (Genesis XIX), Soilwork (A Whispf of the Atlantic), In Extremo (Kompass sur Sonne), Jorn Lande (Rock and Heavy Radio II) e Mushroomhead (A Wonderful Life).


Não são bandas que começaram ontem: são gigantes do heavy metal que ainda estão na ativa e enfrentaram o ano de 2020 com todas as suas dificuldades para manter a chama do heavy metal acesa.


Bandas top da nova geração também ficaram de fora da lista, como Dawn of Solace (Waves), Bring Me the Horizon (Post Human: Survival Horror) e Bleed from Within (Fracture); além de novos velhos conhecidos, como o British Lion (The Burning).


De modo geral, portanto, 2020 foi um ano extremamente produtivo e com álbuns bons, alguns até acima da média; mas nada revolucionário (no sentido não "progressista" do termo) surgiu em 2020. Não vi nenhuma revisão de estilo ou ousadia com proposta de estilo ou subestilo novo.


Em anos como 2008 e 2013 trabalhos como Twilight of the Thunder God do Amon Amarth, Fiction do Dark Tranquility combinados com o Black Ice do AC/DC e o Nostradamus do Judas Priest nos obrigaram a repensar o heavy metal e o rock como um todo.


Amon Amarth e Dark Tranquility tinham cruzado fronteiras ao passo que AC/DC e Judas Priest mantiveram o núcleo da escola mais vivo do que nunca, soltando talvez o que podem ter sido clássicos tardios, ao nível de trabalhos centrais do estilo como Back in Black e British Steel.


Em 2013 esses limites foram re-testados e praticamente consolidados. O próprio Amon Amarth com o Deceiver of the Gods ao lado do mesmo Dark Tranquility com Construct abriram caminho para desafios como o de Omnium Gatherum com Beyond ao lado do Orphaned Land com All Is One: todos esses deram os traços finais nas linhas desse novo metal, deixando com o semi-deus Lemmy a responsabilidade de criar o aftershöck como o clássico tardio que manteve as linhas básicas do metal longe de uma fuga pop ou de pedágios desnecessários para o mainstream musical que o metal culturalmente combate.


Mas coube mesmo ao demiurgo Black Sabbath, com o seu 13 a tarefa central de ensinar às gerações seguintes, com o End of the Beggining (daqui partimos, aqui chegamos; nós que aqui estamos, por vós esperamos...), qual o Caminho que ninguém deve se desviar. Se o Black Sabbath fosse um Papa do estilo, 13 seria a sua mais importante Encíclica.


Em 2018 o estilo conheceu uma estupenda melhora técnica, mas 2019 e 2020 foram anos de manutenção.


Nada novo foi introduzido e não houve evolução no estilo, mas sim um enorme trabalho de colheita de ótimos resultados musicais plantados em 2008.


Para sedimentar aqui por escrito, portanto, o que foi esse ano de 2020 no heavy metal, dividirei o texto em três escalões para fazer breves comentários e algumas indicações para os álbuns que marcaram 2020.


Primeiro Escalão


Acho não só injusto como penoso definir um único álbum como "o melhor de 2020". Há 5 trabalhos que podemos destacar com de primeiro escalão - candidatos a "melhor do ano", cujo desempate sempre é definido por critérios pessoais, dos quais abro mão aqui.


Nesse primeiro escalão eu identifiquei AC/DC, Primal Fear, Lamb of God, Wolfheart e Dark Tranquility.


Essas bandas lançaram álbuns verdadeiramente excepcionais, legítimos candidatos a "melhor álbum do ano".


AC/DC soltou o maravilhoso Power Up.



Clássico tardio da mítica banda australiana em sua quase-formação original, tem, ao meu ver, em "Shot In the Dark" a sua grande marca.


Já o Primal Fear, com Metal Commando sedimentou-se no "Bald Metal" como uma espécie de legítimo irmão mais novo do Judas Priest. "I Am Alive" é o trabalho de excelência deste álbum.



Lamb of God, com seu death metal puro, lançou o álbum Lamb of God cujo ápice é "Memento Mori", uma canção de doom/death de primeiríssima linha ao lado de tantas outras canções ótimas.



Mas em 2020 meu coração dividiu-se entre Wolfheart e Dark Tranquility. Foram os álbuns que mais ouvi este ano (ao lado do Lamb of God), mas confesso que minha admiração por Tuomas Saukkonen me obrigaria a definir Wolves of Karelia como o melhor álbum de 2020. Opinião pessoal, apenas, baseada no que sinto ouvindo cada álbum deste de primeiro escalão. Disse que abriria mão da opinão pessoal aqui, mas abri a mão dentro do bolso.


Saukkonen, a mente brilhante por trás do Wolfheart

Wolves of Karelia é um álbum magistral, com canções em que vão do ótimo ao surpreendente. "Hail of Steel" e "Ashes" são pérolas maravilhosas e desta vez, ao contrário do álbum anterior (Constellation of the Black Light), Saukkonen evitou canções longas de mais de 6 minutos. O resultado é impressionante.



A distância desse álbum para o Moment do Dark Tranquility é mínima; inexistente mesmo em vários momentos. Dark Tranquility entregou ao final deste ano uma verdadeira obra de arte que inclui capítulos como "Phantom Days", "Transient", "The Dark Unbroken", "A Drawn Out Exit" e "Failstate" - sem contar a capa do álbum, que conta com um lindo trabalho do designer gráfico Niklas Sundin (vale a pena conferir outros trabalhos de Sundin aqui).



Segundo Escalão


Os álbuns de "segundo escalão" são ótimos trabalhos. Além dos 11 que inclui no Metal Bridges Especial de Ano Novo, há outros doze que estão no mesmo nível.


Duas razões me obrigaram a deixar esses álbuns de fora: a primeira, de natureza pessoal - preferi os álbuns que coloquei no programa; a segunda, de natureza profissional - o tempo de programa me permitia somente aqueles, me obrigando a deixar de fora os outros dez.


Nada que uma segunda edição não resolva.


De toda forma, estes 23 álbuns, mais os 5 do primeiro escalão, mais os 4 do terceiro escalão formarão, por assim dizer, a essência da segunda temporada do Metal Bridges em 2021.


Vamos incluir também álbuns lançados em 2019 e que não tivemos tempo de tocar em 2020, a saber: Jinjer, After the Storm, Ancient Bards, Swallow the Sun, Sekhmet, Zehmet, Tygers of Pan Tang, Tyr, Children of Bodom e Dream Theater.


Além desses teremos os especiais em homenagem a Eddie Van Halen e Neil Peart, além do especial surpresa que vai abrir o ano, seguido de um especial em dois programas para comemorar 1 ano de Shock Wave Radio.


Ocasionalmente, podemos preparar especiais temáticos - meu humor ditará se haverá ou não algo especial em datas festivas.


Sem delongas e após comentar brevemente sobre o álbum do John Michael "Madman" Osbourne, vou comentar os dez álbuns que não integraram o programa de ontem, e depois falar sobre aqueles que integraram, antes de falar dos quatro álbuns de terceiro escalão de 2020.


Sim: é impossível falar sobre o heavy metal em 2020 sem comentar o Ordinary Man do Príncipe das Trevas, Ozzy Osborne.


Os dois singles lançados em 2019 apontavam para um grande álbum para 2020: "Straight to Hell" e "Under the Graveyard" mostravam que o melhor Ozzy dos anos 1980 estava ali, vivo e ativo.


Mas quando sai o álbum e vem a tona as parcerias do Madman com Elton John e Post Malone, tudo o que de positivo vinha junto com as demais canções como "All My Life" e "Goodbye", compensou-se (negativamente) em três peças musicais medonhas.




É uma parceria que dá um resultado que pode até estar a altura de um artista meia-boca como Elton John, mas está distante demais de um homem que foi responsável por trazer ao mundo coisas como "No More Tears", "Perry Mason", "Shot in the Dark", "Bark at the Moon" e "Mr. Crowley".


As três canções em parceria com Post Malone (que eu nem sei quem é esse porra) e com Elton John fizeram um brilhante álbum cair para um segundo escalão, ofuscando a verdadeira parceria que importa neste álbum: Slash.



Sem contar Chad Smith e Duff MacKagan, mais duas parcerias surpreendentes no Ordinary Man, o pedágio para o pop via Elton John venceu, no marketing, o trabalho dos velhos companheiros de estrada - só que não venceram no conteúdo, na audição, onde esses velhos companheiros (esses sim) permitiram mostrar ao mundo que Ozzy está mais vivo do que nunca, enquanto alguns tentam "matá-lo" para o metal.


E é esse sopro divino que ainda move Ozzy, que alimentou o gigante Steve Harris, com o seu British Lion a dar ao mundo o sensacional The Burning. Neste caso e diferentemente do Princípe das Trevas, Harris pagou zero pedágio ao pop.



Pude conferir in loco este ano no Gramercy de NYC a performance ao vivo (antes da pandemia) deste gênio do metal.



Sem palavras, famiglia, ver Harris entregar ao vivo um dos melhores álbuns de 2020.



Com menos de 300 pessoas na casa, só não foi possível entrevistá-lo por problemas de agenda, mas deu pra conferir "da grade" a performance do maior baixista de todos os tempos. Harris, com seu British Lion, sem inovar e retomando aquele metal dos anos 1970, emplaca no The Burning um dos melhores álbuns do ano, "sem novidades".


E quem também soltou um álbum maravilhoso em 2020 foi o Soilwork.



Estando também entre os melhores de 2019 com o Verkligheten, Soilwork voltou com um meio-álbum, meio-EP: a canção título de quase 20 minutos é acompanhada de mais 4 petardos perfeitos. Mais duas canções e a certeza de se tratar de um álbum e não de um EP subiria o Soilwork para o primeiro escalão do ano.


Nessa linha de trabalhos maravilhosos que oscilam entre o "sem novidade" (British Lion) e o "tiro curto" (Soilwork) tivemos o Anvil, Sepultura, Testament, In Extremo, Paradise Lost e Sodom.


Todas essas bandas lançaram álbuns maravilhosos e alinhadíssimos com as estruturas tradicionais de heavy metal.


O Anvil, como sempre, fiel ao seu estilo, nos deu o Legal At Last, uma obra de arte do proto-thrash metal.



A porrada é forte nas letras também: crítica pesada à liberação da maconha, o Anvil mostra como essa merda apenas agravou os problemas que já existem por causa dela, a começar pelo tráfico ilícito.


Brindamos também o Sepultura no início de 2020: de volta ao seu melhor estilo, o "Bald Metal" de Derek e Andreas faz um ótimo re-congraçamento com o thrash metal dos anos 1980/1990.


Essa mesma fórmula é seguida pelos míticos Skolnick/Billy/Peterson do Testament, que lançou o sensacional Titans of Creation.



O mesmo aconteceu com a tradicionalíssima banda alemã de Tom Angelripper, o Sodom, que soltou o ótimo Genesis XIX.



Graças também ao competentíssimo Trivium, o thrash metal teve no What Dead Man Say um gigantesco pilar na atualidade.



No degrau ao lado do thrash metal, na fronteira do estilo do Trivium onde reina o death metal, duas bandas mantiveram a escola criada nos anos 1980 na Flórida pelo "imortal" Chuck Schuldiner, que nos deixou precocemente em 2001 por causa de um câncer.


O canadense Kataklysm e o escocês Bleed from Within (quasae-conterrâneos dos igualmente demiurgos do melodic death metal do Carcass) fizeram muito bonito nos cuidados da guarda do estilo de Schuldiner. Carcass, diga-se de passagem, também soltou um EP em 2020, o Despicable.





Unconquered do Kataklysm é um belo exemplar de death/melodeath.



Fracture, do Bleed from Within, não ficou muito longe: baita álbum, correto, forte, preciso - uma jóia. Foi um dos que mais ouvi em 2020.



Já Paradise Lost manteve muito vivo o estilo do Doom Metal/Gothic Metal.



O Obsidian é um exemplo bastante paradigmático da vivacidade do Gothic Metal, que diga-se de passagem foi "inventado" pelo próprio Paradise Lost.


"Mantendo estilos" tivemos também o Grave Digger, Mushroomhead, In Extremo, Trivium, Demons & Wizards e Apocalyptica.


Vale a pena aqui começar pelo Demons & Wizards, que lançou III.



Sabe-se lá porque cargas d'água o Blind Guardian se afastou totalmente do seu estilo original e se tornou uma banda bastante enfadonha. O último trabalho, Legacy of the Dark Land de 2019, uma espécie de masturbação sinfônica, está completamente distante do melhor metal sinfônico (do Rage do Lingua Mortis) e tornou o Blind Guardian, a brilhante custodiante de Tolkien no metal, uma bela de uma mala sem alça musical.


Blind Guardian nunca acertou a mão como o Apocalyptica, que diga-se de passagem soltou o Cell-0, um álbum também de resgate, depois dos álbuns-pedágio Worlds Collide e Shadowmaker (intermediados pelo bom 7th Symphony).




O Apocalyptica resgatou-se em 2020, assim como fez Hansi Kürsch com o estilo original do Blind Guardian, mas fora desta casa.


Hansi Kürsch, um dos fundadores do Blind Guardian, com vontade de fazer coisas como aquelas que ele fazia nos anos 1990 (como Nightfall in Middle Earth e o clássico Imaginations from the Other Side), chamou o amigo John Schaffer do Iced Earth, que remontaram o dormente Demons & Wizards para lançar esse brilhante álbum de auto-resgate de um estilo que não deveria ter sido abandonado pelo Blind Guardian de então (o Iced Earth, até onde parece, segue firme e forte pelo que se ouviu do Incorruptible de 2017, um belo recado para quem quis sair fazendo "testes" e se fodeu, como o Paradise Lost e o Blind Guardian).


III é portanto um álbum de resgate, coisa que faz de maneira brilhante, ousando arriscar aqui ser este o melhor do Demons & Wizards.


Grave Digger, por sua vez, nada precisava resgatar. Incorruptíveis, soltaram o Fields of Blood "sem novidades": folk/power metal de primeiríssima.



E por falar em folk metal, os tiozões do InEx (In Extremo) mandaram muito bem no estilo que nunca abandonaram com o Kompass sur Sonne.



Da mesma escola do InEx, os incansáveis do Saltatio Mortis lançaram também o brilhante Für immer Frei, "sem novidades" e bastante redpillado.



No new metal/nu metal dos anos 1990, o Mushroomhead, brilhante banda de Ohio (pra mim, maior que o co-irmão Slipknot) apresentou-nos o sensacional A Wonderful Life, mantendo, ao lado do We Are Not Your Kind de 2019 do Slipknot, esse estilo bem vivo. E aqui, confesso, pela primeira vez vi o Slipknot soltar um álbum melhor que o do Mushroomhead: We Are Not Your Kind é superior ao A Wonderful Life, sem que isso tire o brilhantismo desse álbum. É que nesse último álbum de 2019 o Slipknot caprichou demais.



Já no progmetal bem ao estilo do Dream Theater, o Fates Warning soltou também o ótimo álbum Long Day Good Night, um prato cheio para quem curte esse tipo de metal com levadas de jazz.




E no estilo que Primal Fear brilhou, os poloneses do ExLibris lançaram o Shadowrise, um baita álbum de power metal no melhor estilo Judas Priest "Bald Metal".




Tarefa essa que também foi cumprida pelo Iron Savior, que soltou o Skycrest no início de dezembro, "sem novidades".



E até aqui, meus amigos, vimos nesse segundo escalão álbuns sensacionais, mas sem inovação de estilo.


Quando falamos de estilos inovados, muito além dos estilos renovados, a nossa atenção se voltou para o Dawn of Solace, Mors Principium Est e Ensiferum.


Dawn of Solace é um side project de Tuomas Saukkonen com Mikko Heikillä. Só não coloquei Waves entre o primeiro escalão porque Saukkonen tem apenas uma bunda e dar a ele duas cadeiras seria desnecessário, embora essencialmente justo.



Saukkonen está em outro nível. Trabalha muito, em várias bandas ao mesmo tempo e só entrega trabalhos que estão muito a frente de seu tempo. Waves é foda. Saukkonen é um gênio e neste álbum executa sozinho todos os instrumentos, deixando a Mikko apenas os vocais limpos. Saukkonen é muito foda.



Já o Mors Principium Est, quase no mesmo nível do Dawn of Solace, lançou o Seven, um álbum de melodeath paradigmático, sem inovar no estilo mas mantendo-o em pé com muito garbo e elegância. Hoje, sem a Finlândia, o heavy metal não seria o mesmo.



Obrigado Finlândia, obrigado, que também nos deu Ensiferum, que em 2020 nos deu o Thalassic, um álbum excepcional de folk/melodeath.



E antes de partir para o terceiro escalão, eu não poderia deixar de comentar sobre mais um lançamento da especial banda Bring Me The Horizon.


Ok, then. Vamos lá - they ain't heavy metal, ok? Pois bem, isso eles mesmos cantaram no Amo de 2019.


O Music to Listen~... de 2019 também é um álbum experimental completamente fora do estilo. No Amo o heavy metal flertou com vários outros estilos, inclusive o eletrônico, mas o bom e velho metal estava lá: "In the Dark" (um puta riff), "MANTRA" são trabalhos no melhor estilo do That's the Spirit e do Sempiternal.


E aqui em BMTH é absolutmente clara a diferença entre a liberdade de atuar em outros estilos e a vontade de pagar pedágio. BMTH não paga pedágio; eles estão "defecando e caminhando" para isso - BMTH simplesmente usa outros estilos assim como um metaleiro pode acordar um dia a fim de usar gravata sem perder a sua atenticidade. E essa autenticidade do BMTH está clara no Post Human: Survival Horror.


O Post Human: Survival Horror traz peças fundamentais como "Dear Diary," (com vírgula mesmo), a maravilhosa redpill "Parasite Eve" e as divertidas "Obey" (com Yungblud) e "Kingslayer" (com Babymetal). O video de "Obey" é um lixo, mas a música e a letra são ótimas.


Ao contrário de bandas como Blind Guardian e Paradise Lost que comentamos acima, que tem a mania de sair do estilo e voltar com o rabo entre as pernas, o BMTH entra e sai do estilo com conforto e sem culpa na consciência.


Por isso, é impossível falar do metal de 2020 sem lembrar do Post Human: Survival Horror.



Terceiro Escalão


Chamei de terceiro escalão quatro trabalhos que saíram em 2020 e que, ao meu ver, são ótimos trabalhos, mas guardam alguma característica negativa ou triste por parte de quem os lançou.


Começo pelo menor de todos os problemas, o Heavy Rock Radio II - Executing the Classics, de Jorn.


Jorn Lande é um dos maiores vocalistas da história do heavy metal e do rock como um todo. A técnica, a potência, a correção, a clareza vocal o tornam um músico que está no nível de um Dio, a sua maior e declarada influência.


Desci o Heavy Rock Radio II ao terceiro escalão não apenas por se tratar de um álbum de covers. Mais: Jorn entrega um álbum excepcional pela sua correção, mas não pela sua inovação. Diferentemente do Covered in Blood de 2019 do Arch Enemy, Jorn é fiel ao estilo de cada música que executa.


Veja por exemplo a ótima versão de "Lonely Nights" de Bryan Adams: Jorn refuga de avançar com o estilo de Dio sobre o de Adams e mais se ouve Adams do que Dio. Jorn é fiel ao estilo do autor original nas versões que executa. Não é o que se vê quando Alissia White-Gluz enfrenta "Shout" do Tears for Fears ou "Aces High" do Iron Maiden. Neste ponto, a coragem de Alissia contrasta com a covardia de Jorn, que, sabemos, poderia muito bem trazer Adams ao estilo de Dio ao invés de pagar pedágio ao estilo de Adams: terceiro escalão, até para uma proposta de álbum de covers, que mesmo sendo um ótimo trabalho, é um downgrade em relação ao Heavy Rock Radio de 2016, que trouxe "Dont Stop Believin' " do Kansas e "Hotel California" do Eagles para o mundo de Dio. Era que isso se esperava desse 2º volume, que não aconteceu.


Heavy Rock Radio II - sim, bom; mas terceiro escalão.



Os problemas mais preocupantes, entretanto, vêm de Rage, Deep Purple e Blue Öyster Cult.


Nas três bandas o problema é de mesma natureza: tratam-se, visivelmente, de três projetos em franca decadência.


Wings of Rage é um bom álbum, mas muito distante de quem já foi pai de Trapped, Black In Mind, End of All Days e o já descendente (mas ainda maravilhoso) XIII.


Não conto aqui o projeto Lingua Mortis, o ápice, na minha opinião, do Symphonic Metal, ponto em que o Blind Guardian ficou os anos 2000 inteiros tentando, até se perder nessa última porcaria de 2019 que forçou Hansi Kürsch a procurar suas raízes com Schaffer no Demons & Wizards.


Ao meu ver, a saída dos irmãos Efthmiadis, dois grandes amigos pessoais com quem falo de vez em quando até hoje, foi uma cagada que Peavy só conseguiu recuperar a partir do Carved in Stone em 2008, o melhor álbum após uma série de trabalhos insípidos.


Wings of Rage é parte desse up & down que o Rage vive desde os anos 1990. Wings of Rage ainda está bem longe do End of All Days e Peavy precisa de muito para voltar ao nível do Rage que ele construiu nos anos 1990.




Esse é exatamente o caso do Deep Purple.


Deep Purple já foi uma das melhores bandas de hard rock e heavy metal do mundo.


São criadores do estilo ao lado do Black Sabbath.


São heróis. Seguem trabalhando aos 70 anos de idade, soltando álbuns a cada 2 ou 3 anos, álbuns maravilhosos, excepcionais.


Deep Purple criou monumentos da história da humanidade como "Smoke on the Water", "Perfect Strangers", "Child in Time", "Highway Star", "Burn", "This Time Around" e por ai vai.


É parte da História da Arte com palácios musicais como Machine Head, Burn, In Rock, Perfect Strangers.


Deu ao mundo gente como John Lord, Ritchie Blackmore, Ian Paice, Ian Gillan, David Coverdale, Glenn Hughes e, recentemente, Steve Morse e Don Airey.


Não é qualquer coisa.


E por isso, a responsabilidade de manter o nível é gigantesca.


Não cabe a uma banda desse tamanho um trabalho do nível de Whoosh! - é um álbum que não faz jus ao Deep Purple, sequer, do Perpendicular, do Abandon ou do Now What!


Desde a saída de Blackmore, que foi substituído por Joe Satriani na tour do The Battle Rages On em 1993, o Deep Purple vem tentando se reencontrar na combinação Steve Morse-Ian Gillan (desconto aqui o hiato de Gillan em 1990 quando o Deep Purple teve que contar com John Lynn Turner no Slaves and Masters).


Do Perpendicular à despedida de John Lord no In Concert, o Deep Puple manteve-se coeso e entre as maiores bandas do mundo.


Com a saída de John Lord em 2003, substituído por Don Airey, que gravou Bananas (este, um álbum bem fraco), o Deep Purple desandou em dois álbuns menores (Rapture fo the Deep e inFinite) e um bom álbum (Now What!).


Mas dessa fase pós-Lord, Whoosh! seja talvez o capítulo mais triste desta ladeira em que o Deep Purple se encontra desde 2003 e, sobretudo, desde 2012 (ano da morte de Lord).


Bom - mas terceiro escalão.


Fecho esta longa resenha com o bom álbum The Symbol Remains do Blue Öyster Cult.


É com quem fecho este terceiro escalão, que mostra um bom álbum por quem tinha obrigação de entregar algo ao menos "ótimo".


É menos do que se espera de quem já deu à luz para "Godzilla", "Astronomy", "(Don't Fear) The Reapper" e "Burnin' For You".


Foram duros anos aqueles dos 1990 para o BÖC, que ficou ai boas três décadas perdido com uma ou outra coisa interessante, como o Curse of the Hidden Mirror de 2001.


E foram 20 anos longe dos estúdios até essa volta em 2020 com The Symbol Remains.


Sim, muita coisa mudou e eles estão voltando agora. Parece que eles não puderam perceber o que mudou. O mítico Buck Dharma entregou um ótimo álbum, mas que ao contrário dos clássicos dos anos 1970 como Secret Treaties, Agents of Fortune, Spectre e as pauleiras dos anos 1980 como Cultosaurus Erectus, Fire of Unknown Origin e Club Ninja, o The Symbol Remains precisaria de um "Godzilla" pra chamar de seu. "That Was Me" faz esse ensaio, mas "Tainted Blood" não precisava entrar para manchar "Edge of the World" e "Florida Man".


"The Alchemist" mostra que BÖC voltou pelo caminho certo, desde que deixe pelo caminho pedágios como "Tainted Blood" e "Box In My Head".


Espero que o BÖC não pare e que essa seja uma volta definitiva para nos brindar com trabalhos a sua altura e não a altura de seus imitadores e copycapts.




2021, tudo indica, há de ser um grande ano para o heavy metal.


É o que o Metal Bridges acredita.

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