• Dica HQ

Monsieur Jabot, de R. Töpffer

A História da nona arte é pouquíssimo conhecida, mesmo para aqueles que estão acostumados a folhear, ler e se divertir com as histórias em quadrinhos.


A primeira vez que li algo sobre o suíço Rodolphe Töpffer foi no enorme livro 1001 Comics You Must Read Before You Die (sem versão brasileira até o momento). Ele é considerado o primeiro artista de histórias em quadrinhos – ou quadrinista, melhor – graças à publicação MONSIEUR JABOT, de 1833.



Professor da Universidade de Genebra, filho do famoso pintor Wolfgang-Adam Töpffer, Rodolphe era versado tanto em pintura quanto literatura. Adorava criar caricaturas para divertir crianças. Então, ele uniu duas coisas que gostava e criou uma arte que unia texto e desenho divididos em quadros (também chamados de painéis) numa única página. E fez várias páginas. E, assim, criou Les Amour de Mr. Vieux em 1927. Porém, talvez receoso do que diriam ou talvez visto apenas como entretenimento particular, ele o guardou na gaveta.



Após esse, Töpffer criou Monsieur Jabot. É uma história muito simples, com três quadros por página, que mostra um Sr. Jabot tentando ascender socialmente, porém de forma muito atrapalhada e engraçada, sendo galanteador com damas da alta sociedade e afastando-se de parentes que desconhecem as regras da etiqueta, uma vida de fingimentos em meio à aristocracia. O suíço prende o leitor exatamente pela simplicidade e com suas caricaturas de Jabot. Foi a primeira vez que se uniram desenho e texto de forma lógica para criar a sensação de uma narrativa contínua.



Monsieur Jabot inspirou o artista ítalo-brasileiro Angelo Agostini a criar o seu As Aventuras de Nhô-Quim, ou Uma Viagem à Corte, de 1869, considerada a primeira história em quadrinhos do Brasil.


Há duas interessantíssimas curiosidades sobre Rodolphe Töpffer que valem muito mencionar.


A primeira é que quem o inspirou a publicar seus desenhos foi ninguém menos que o alemão Johann Wolfgang von Goethe. O poeta, romancista, dramaturgo, filósofo, diplomata, estadista etc. conheceu o suíço através de seus assistentes, Fréderic Soret e Johann Peter Eckermann, que, preocupados com o mal humor constante de seu mestre, já em idade avançada, mostraram-lhe os trabalhos de Töpffer. Não só Goethe saiu do seu péssimo estado como enviou elogios ao artista de Genebra:


Deve-se admirar no mais alto grau como a força de imaginação do desenhista recria continuamente um espectro como esse, denominado M. Jabot, no ambiente apropriado, sob as mais variadas formas, e como sua pena espirituosa fixa do modo mais singular esse indivíduo impossível, como se fosse verdadeiro.



Goethe enviou mensagens elogiosas para o quadrinista entre 1830 e 1832, ano em que faleceu. Com tal aval, em 1833 Monsieur Jabot ganhou cópias e iniciaram-se as vendas, conquistando o público europeu; chegou até a ganhar uma versão “pirateada” em inglês, intitulada The Adventures of Mr. Obadiah Oldbuck, infelizmente para o autor.

A segunda a curiosidade é que as obras de Rodolphe Töpffer foram publicadas no Brasil graças a um detalhe surpreendente: o Brasil possui um dos descendentes da família Töpffer: André Caramuru Aubert, sobrinho tetra-neto de Rodolphe. Em sua biblioteca particular estavam guardados os prováveis originais de Monsieur Jabot e outras obras, deixados pelo seu pai, Jean Aubert. Com a organização de André C. Aubert e tradução de Flávia Lago, a Editora SESI-SP lançou entre 2017 e 2019 as obras Monsieur Jabot, História de Monsieur Cryptogame, Monsieur Trictrac, Monsieur Vieux Bois e Monsieur Crépin. E ainda há mais para ser publicado.

É claro que, quando se fala sobre a História das HQs, há que se explorar outras questões e fatos, como as pinturas da pedra lascada, a Tapeçaria de Bayeux ou a Biblia Pauperum, mas, por enquanto, foi Genebra quem viu nascer a Arte Sequencial propriamente dita.



Eu recomendo a leitura, não somente pela questão histórica, mas para se divertir como Goethe se divertiu. Aproveite que a HQ do tio tetravô de André C. Aubert está disponível com um preço relativamente em conta!


Caso queira ver resenhas de outros quadrinhos, visite o meu Instagram: @DicaHQ.


MONSIEUR JABOT foi publicado pela Editora SESI-SP em 2017.


Nota: 3,5/5,0.