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O aborto e o egoísmo do interesse


Por Marcus Aurelius


Conversando com alguns adolescentes sobre vários assuntos, acabou que esbarramos no tema sobre aborto. Um deles, o mais eloquente e falante, logo declarou:

- Um feto não é uma pessoa, não tem sentimentos, não tem consciência. Se uma mulher tem relação sexual e engravida sem querer, não há problema algum em ela abortar. Ela tem o direito de escolher se terá um filho ou não, ainda mais se ela não tiver condições de cuidar da criança. Daí, o melhor mesmo, se ela quiser, é fazer o aborto.


Enquanto ele falava foi impossível dissociar esse conjunto de palavras que nada mais são do que frutos de um discurso criado e moldado, muitas vezes dito e repetido em escolas, universidades, imprensa e até mesmo no lar, sem que ele passe por qualquer crítica ou argumentação.


Me dispus então a apresentar alguns contrapontos sob esse raciocínio mimético, os quais compartilho aqui também com você.


A variável da maternidade


Sempre recorrente nas palestras de orientação sexual, a questão do aborto é tratada como um assunto relacionado a saúde e proteção da mãe. A mãe, segundo o que se prega nessas palestras em longos discursos, como progenitora tem o direito total e inalienável sobre o seu corpo e em tudo que nele se cria, inclusive o feto. Tendo a propriedade de seu corpo, a mãe tem o direito de decidir se quer dar ou não continuidade a uma gravidez, afinal, é o corpo dela que será alterado para sempre por conta da gestação e ela será responsável por cuidar da criança uma vez que, na sociedade em que vivemos, os pais em geral não assumem a paternidade e deixam a mãe, pobre e sem condições sequer de cuidar de si mesma, em uma situação deplorável onde a criança e mãe vivem em grande sofrimento. Logo, impedir que isso ocorra ainda quando a criança é apenas um feto (sem sentimentos e consciência), se trata de um gesto humanitário, digno e moral, pois assim se evita um fatídico sofrimento que se dará logo mais daqui a apenas 9 meses ou menos.


Isso, vale frisar, é o que se prega e foi exatamente o que um dos adolescentes me disse. Mas analisando esse argumento, algo que está em seu cerne é a condição financeira da mãe e sua disposição em cuidar da criança.


Enquanto feto, os sentimentos de afeição e cuidado ocorrem a mãe logo que ela se dá conta da gravidez. Esse é um fenômeno natural e instintivo, impossível de se evitar mesmo naquelas de mais duro coração. Mas, em uma sociedade moralmente decadente como a atual, os interesses da mãe são incentivados a serem impostos acima dos instintos mais profundos, que por sua vez são habilmente substituídos por uma síntese racional que demove a mãe sobre seus sentimentos quanto a criança, levando seu interesse para sua própria e exclusiva subsistência.


Seguindo esse raciocino, apresentei o seguinte questionamento ao garoto:

- Bem, se o problema todo é a condição de vida da mãe, o que impede por exemplo, da sua mãe lhe ‘abortar’ agora? Veja só, se ela perde o emprego, fica em uma condição difícil para lhe criar, passa por dificuldades e tudo mais e decide lhe matar para aliviar as contas e o sofrimento dela, o que haveria de errado nisso? E olha que estou usando o seu mesmo argumento.


Essa pergunta retórica tem uma resposta óbvia que, embora não tenha sido dada pelo jovem, leva a reflexão sobre o argumento do interesse ‘supremo’ da mãe e traz também o interesse do feto. Nesse tipo de discurso, jamais falam do interesse do feto, pelo contrário, é comum que declarem que o feto nada mais é que uma massa celular disforme e que, portanto, não tem interesse, opinião e consequentemente, direitos.


No entanto, o feto certamente se formará e virará uma pessoa caso tenha condições suficientes para que sua gestação seja conduzida até o nascimento. Nascido, o caminho natural é que ele cresça, se desenvolva e tenha tantos direitos pela vida quanto qualquer um. Mas havendo o aborto, é claro que nada disso ocorrerá e aquela pessoa estará para sempre impedida de viver por conta da decisão da mãe ainda quando ele era apenas um feto.


Outro ponto que se pode apresentar sobre essa questão é que a sociedade tem (ainda) como imoral o ato do assassinato de um indivíduo por qualquer motivo que seja. Por isso matar uma criança nascida, como no caso do adolescente, simplesmente porque a mãe não quer cria-la, é tido como um crime torpe (interesse próprio em detrimento do outro) com o agravante de ser realizado sob alguém que não tem chance de defesa.

Mas qual a diferença de se aplicar esse preceito moral, do direito à vida, sobre uma criança nascida e não fazer o mesmo naquela que ainda é um feto? Para mais esta pergunta retórica, a resposta é uma só: não há diferença alguma. E isso nos leva a um segundo contra-argumento sobre a questão do aborto.


O tempo da vida


Há uma diferença clara de um feto para uma criança e desta para um adulto: o tempo. Tendo-se o tempo, o feto se desenvolve, forma um bebê e logo nasce para seguir o curso natural da vida.


Independente do feto até tantas semanas de gestação ter ou não consciência, alma, espírito ou qualquer outra característica, tudo para ele é uma questão apenas de tempo e condições para que se desenvolva e logo esteja ao lado de nós, interagindo conosco.

A intervenção nesse processo com o objetivo de interrompê-lo (aborto) se assemelha, por exemplo, ao desligamento de aparelhos médicos que mantém uma pessoa viva após uma fatalidade. Uma pessoa nessa condição, de feto ou paciente inconsciente em uma UTI, muito se assemelha no estado de vulnerabilidade. Ambos necessitam de apoio de alguém para sobreviver, ambos carecem de cuidados para que o tempo corra e eles se estabeleçam em plena saúde, e ambos estão a mercê de pessoas que tem o poder sobre suas vidas, mas não o direito de tirá-las delas.


Em resumo, a diferença do feto para um adulto é quase que simplesmente o tempo. Se é imoral matar uma pessoa por um motivo qualquer, ainda mais imoral é assassinar essa pessoa só porque ela ainda é um feto ou um paciente inconsciente no hospital.


O paradoxo do pai

Ainda assim, há muitos que perderam quase todo sentimento de cuidado pelo próximo – uma das consequências do afastamento espiritual de Deus – e vivem quase que dedicadas a si próprias. Para essas pessoas, um aborto não é nada mais que um procedimento médico, mas tudo muda quando elas mesmas são colocadas sobre o fio da foice da morte.


Façamos o seguinte exercício. Imaginemos que uma pessoa como essa seja posta em uma máquina do tempo e enviada ao passado, de encontro a uma jovem mãe que está indecisa se deve ou não continuar com sua gravidez.


É certo que essa pessoa irá orientar essa mãe com todos os argumentos que tanto nos bombardeiam hoje. Digamos que ela tenha sucesso em motivar a mãe a realizar o aborto e assim ela o faça. E após algum remédio ou procedimento de curetagem, lá está o feto, morto e fora do ventre, sem chance alguma de se desenvolver.


Agora, experimente dizer para essa pessoa, que voltou no passado, o seguinte:

- Aquele aborto era o seu pai.


Se o pai dessa pessoa foi morto antes de nascer, o que será dele daquele momento em diante?


Aos que se renderam ao egoísmo, que se deixe tentar responder esse paradoxo temporal.