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O Chamado de Seu Zito

Por Evandro Pontes

Imagem: reprodução

Ontem, conforme anunciado por este canal, deu-se o encontro organizado por quatro legendas (MDB, PSDB, DEM e Cidadania), com a presença de 3 ex-presidentes (FHC, Sarney e Temer) mais os presidentes das respectivas legendas, para tratar do Novo Rumo para o Brasil.


O encontro ocorreu online e houve muita expectativa na fala dos três mosqueteiros do acordão com Bolsonaro.


De forma geral, as manifestações dos três ex-presidentes oscilaram entre o ridículo e o desprezível.


Enquanto assistia cada um falar, minha alma era invadida de uma piedade em relação a duas (talvez seis) figuras responsáveis por gerir o funcionamento dos dois extremos que preparam a totalidade daquilo que está no verdadeiro interior de FHC, Sarney e Temer – seus respectivos proctologistas e dentistas.


Que situação horrorosa não deve ser a do dentista de FHC, não? E o proctologista de Sarney, então? Tenho pena dessas pessoas, já adiantando que queiro deixar Temer de lado nessa questão (interprete como quiser, leitor).


Tornava à minha mente as advertências de Cícero sobre a dignidade na senilidade: Quibus enim nihil est in ipsis opis ad bene beateque vivendum, eis omnis aetas gravis est – qual seja, “a quem passa a vida fazendo merda, é na velhice que chega a cobrança” (tradução minha).


Escapou de muitos (talvez, todos a exceção deste jornal) a fala do ex-multi-Ministro Nelson Jobim.


Doutor Jobim é uma figura única na política brasileira hoje.


Uma águia de visão única com uma experiência que simplesmente ninguém tem no Brasil. No auge de seus 75 anos de idade, ostenta, ele sim, uma senilidade ímpar.


Fala firme e conteúdo preciso, Jobim mostra que seu QI acima dos 140 pontos percebe coisas que mais ninguém tem visto no Brasil.


Jobim é o único que transitou pela cúpula dos três poderes da República: foi presidente do STF e do temido TSE; foi deputado federal por vários mandatos onde dominou a CCJ; foi também Ministro da Justiça no momento político mais delicado do segundo governo de FHC e, last but not least, foi Constituinte em 1987 e o relator da Emenda de Revisão 3, entre 1993-1994.


Jobim é o autor da célebre revelação, 30 anos depois, de que alguns artigos foram enxertados na Constituição sem que tivessem sido votados em plenário. Não coincidentemente, um dos artigos enxertados é o 2º, que diz: São Poderes da União, independentes e harmônicos entre si, o Legislativo, o Executivo e o Judiciário.


Sim leitor, o fundamento constitucional da crise que vivemos hoje (e sempre) é um enxerto ilegítimo de Jobim no texto constitucional, do qual hoje ele se coloca como senhor feudal de sua interpretação.


Como anunciamos aqui, a nota assinada por Bolsonaro e redigida a quatro mãos por Temer e Alexandre de Moraes tem como grande articulador o Doutor Jobim – ele mesmo, o kingpin do art. 2º, o Godfather da “harmonia dos poderes”.


A declaração do Ministro para que não restem dúvidas:



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1987: O grupo liderado pelo Doutor Ulysses bolou uma estrutura política voltada para o parlamentarismo.


Falhou – então a turma colocou esse texto do art. 2º lá para acionar um parlamentarismo branco toda vez que o sistema não põe nos lugares certos os seus representantes. É disso que se trata a “harmonia” entre poderes, o “diálogo” entre lideranças. É por isso que Collor não faz parte desse clube.


Doutor Jobim, na entrevista de 2003, salientou que isso “faz parte do jogo democrático”. Veja: do jogo democrático deles, no qual só eles podem jogar e dizer como se joga.


Pois bem – na fala de ontem, Doutor Jobim foi absolutamente preciso na sua “visão de jogo”. Falou em disfuncionalidade.


O ex-presidente do STF e do TSE notou, de forma como tenho notado há anos, que o Poder Judiciário se politizou, assim como o Poder Legislativo se judicializou. Usou até o sacrossanto nome de Moreira Alves para defender que o STF se afaste da política. No mais, essa invasão (e não “inversão”) de funções, ao seu ver, desintegrou o que ele chama de jogo democrático e que Temer, mui espertamente em sua fala, lembrou de seus encontros às escondidas com Ministros do STF como parte desse jogo, afastando extemporaneamente críticas que lhe fizeram no passado.


Ao meu ver, essa invasão é consequência (e não causa) de que o brinquedo que opera o “jogo democrático” quebrou. Mas isso são outros 500 que não vou tratar aqui. Voltemos ao Doutor Jobim.


Trata-se de um homem temido e respeitado, acima de tudo.


É temido e respeitado por gente que você, leitor, teme – quer um exemplo? O Ministro Gilmar Mendes teme e respeita o Doutor Jobim; Alexandre de Moraes item. O que falar de um homem que é temido pelos homens que você teme, leitor? Entendeu o tamanho da encrenca?


Portanto, sim, estamos diante de um dos verdadeiros “donos da bola” no Brasil. Depois de já ter passado pela cúpula dos três poderes, o Doutor Jobim está hoje na cúpula do mercado financeiro – ocupa o cargo máximo na administração de uma das instituições financeiras mais temidas e respeitadas do mundo, o BTG. Doutor Jobim é Presidente do Conselho de Administração desse banco, onde Temer fez, um dia antes, uma palestra esclarecedora que nós já tratamos aqui neste jornal dias atrás.


Em sua fala ontem, Doutor Jobim, além da questão da disfuncionalidade dos poderes (algo que se liga, de forma subliminar ao art. 2º da Constituição, enxertado por seu grupo sem que isso tivesse passado pela votação em plenário), falou também da palavra.


Temer, na sequência, pegou o “gancho” do Doutor Jobim para tratar desse problema da palavra, que na distensão dos desagravos verbais, deixou claríssima a questão da obrigatoriedade do politicamente correto da qual já tratamos aqui também. Sim, o Doutor Temer, o mesmo que já avisou, antes de derrubar Dilma, que verba volant, scripta manent.


Contudo, escapou de todos menos deste jornal a explicação que o Doutor Jobim dá para a origem desses problemas de disfuncionalidades no Poder.


Doutor Jobim dá nome, endereço, RG e CPF: Severino Cavalcanti, também conhecido no interior pernambucano como “Seu Zito”.


Muito bem – saber quem foi “Seu Zito” dá a chave para entender o que está ocorrendo hoje, pois é em “Seu Zito” que o Doutor Jobim ancora todos os problemas políticos que estamos vivendo no Brasil desde o surgimento do escândalo do Mensalão.



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Tenho a vantagem de acompanhar política já há algum tempo e com especial atenção para o meu estado (São Paulo) e dois outros estados que moram no meu coração: Pernambuco e Paraíba.


Conheço razoavelmente a história política desses três estados e posso aqui lembrar com alguma autoridade de anos de observação quem foi Seu Zito.


Severino Cavalcanti é um político “das antigas” e singrou o poder desde os tempos de JK. É um político tipicamente nordestino – origem razoavelmente humilde, Severino era filho de roceiros do agreste pernambucano. Sem estudo e fervorosamente católico, alçou-se à política local pela UDN.


A UDN local, sobretudo a nordestina, tinha nada ou muito pouco a ver com aquela UDN brasiliense e a de caráter nacional. Essa era de fato a UDN “mais Brasil, menos Brasília”.


Seu Zito se notabilizava por fazer boa e convincente política local, aquela mesma que ainda vemos ter herança no nordeste dos tempos do Partido Conservador do Império. Como Prefeito da pequena João Alfredo e, posteriormente, deputado estadual em Pernambuco por sete mandatos, notabilizou-se por posições sempre alinhadas à ala mais tradicional da Igreja Católica.


João Alfredo, próxima de Bom Jardim no semiárido pernambucano, é conhecida por duas coisas: é um dos maiores polos de carpintaria do Brasil, além de ser um grande polo de pequenas propriedades rurais congregando um número razoável de feiras livres e pontos de distribuição de alimentos na divisa com a Paraíba. João Alfredo e Bom Jardim é lugar de “gente séria” e que “não brinca em serviço”.



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Com o fim da UDN, Seu Zito de João Alfredo seguiu carreira política no ARENA e com a extinção desse, manteve-se no PDS, como representante do semiárido na ALEPE (Assembleia Legislativa do Pernambuco). Com a implosão do PDS, ficou ciscando em legendas menores oriundas dessa implosão, como o PPR, até passar um tempo no DEM (então PFL) e acomodar-se no PP.


Aquele PP dos anos 2000 sacou suas figuras de proa para se aliar ao PT e, dessa aliança, nasceu o Mensalão. O esquema, já conhecido por todos, organizou o recolhimento de propina em estatais como Correios para comprar votos em projetos de interesse do PT e do Foro de SP no Congresso brasileiro, revertendo, igualmente, parte das divisas dessa propina para o próprio Foro de SP.


Já tratamos disso quando falamos do histórico do PP.


O PP foi, nessa época, uma espécie de “secretário do PT” no Mensalão e, sem ele, não teria havido verbas para o Foro de SP e para os projetos de poder na América Latina. PP e Mensalão são uma única coisa.


Entretanto, o PP não contava apenas com bastiões e gente chique da casta parlamentar de Brasília – o PP também abarcava essa gente “tacanha”, “cafona” e “anacrônica” de um passado distante e oriunda da antiga militância local pelo UDN, que virou ARENA e que detestava fazer parte dos acordinhos internos e externos do partido. Era uma gente avessa às políticas do partido e dos bastidores que o partido transitava.


No meio dessa gente estava lá Seu Zito.


E Seu Zito liderava um bloco de parlamentares do PP que não gostava e não tolerava essa aliança com o PT, fruto dos conchavos de “nominata”. Seu Zito não topava, tampouco, esses esquemas de verbas coordenados pelo então deputado e seu correligionário e conterrâneo Pedro Correia, o homem das nominatas e dos assuntos de interesse da “pessoa jurídica” do PP.


O então deputado Pedro Correia vinha da elite pernambucana, diferente do Seu Zito.


Seu pai havia sido ativo colaborador do DOPS do Estado Novo e um grande apoiador de Getúlio Vargas, político odiado entre os católicos do sertão e do agreste. Foi Vargas que botou as “volantes” atrás de outro famoso pernambucano, Virgulo Ferreira da Silva, o Lampião. Os conflitos vêm de longe, vem de muito longe e vão bem além do papel de Arraes, um “estrangeiro” no meio pernambucano (Arraes era cearense, embora trineto de gente que tomou parte na também complicada Revolução Pernambucana que visava atingir Dom João VI e, posteriormente, Dom Pedro I naquele tempo) e seu conflito com Cleofás, getulista/udenista.


As famílias Correa de Oliveira Andrade e Cavalcanti se toleraram politicamente por mais de um século, mas não era incomum vê-las do mesmo lado defendendo opiniões divergentes, como no caso Cleofás/Arraes – unidas contra Arraes, os Cavalcanti, na verdade, não tinham muito apreço por getulistas de modo geral (caso de Cleofás). Essa complexidade faz parte das peculiaridades políticas do nordeste, em especial de Pernambuco e isso só se compreende pelo grau de catolicismo de cada uma dessas figuras. Os Cavalcanti sempre ostentaram grau elevado de devoção.


Importante, após essa nota, nos mantermos nos anos 2000, quando Cavalcanti, que tinha posições próprias e firmes no Congresso, se desgarrou das lideranças do PP, quando estas se aproximaram do PT.


Seu Zito era famoso por ter uma posição muito firme e combativa contra o aborto.


Foi, talvez, um dos mais furiosos deputados pró-vida da história do Brasil.


Seu Zito também era fustigado na questão do casamento gay: combateu, onde pode, todas as propostas legislativas sobre o tema, da qual sempre se colocou contra, defendendo abertamente os cânones 2357 a 2359 do Catecismo da Igreja Católica.


Foi também, por essa razão, um dos mais ferrenhos defensores de uma vedação total e absoluta de uso de recursos públicos para as famosas “Paradas do Orgulho LGBT”.


Além disso, defendia o fim da imunidade parlamentar para os casos de “crime comum”, incluindo o crime de corrupção. Seu Zito também foi autor de um PL que assegurava um subsídio estatal para o que ele chamou de “mãe crecheira” – uma espécie de ajuda de custo para viúvas com filhos menores de 6 anos, que precisariam trabalhar para reforçar o orçamento da casa em virtude da ausência do marido.


Católico fervoroso, procurava sempre se manter em dia com os sacramentos e a sua devoção mariana. Sua posição como deputado é lembrada no interior pernambucano no affair Miracapillo, ocorrido em 1980.


Por conta do 7 de setembro, o povo da cidade de Ribeirão, no interior de Pernambuco, pediu ao pároco da região, um italiano de nome Vito Miracapillo, então integrante da famosa Teologia da Libertação, para realizar a Missa de Vigília da Natividade de Nossa Senhora. A Vigília da Natividade de Nossa Senhora e a Independência do Brasil caem no mesmo dia e o pároco negou o sacramento aos fieis, alegando que não faria missa em um país que não era independente (o padre italiano entendeu, por uma interpretação que não se compreende até hoje, que o regime militar de então fazia do Brasil um país “não independente”).


Seu Zito, então deputado estadual, foi acionado e sua luta levou à expulsão de Miracapillo.


Em 2012, com a ajuda de Tarso Genro e de padres ligados à Teologia da Libertação, o decreto de expulsão de Miracapillo foi revertido e a ele foi concedido novo visto para permanecer no Brasil, caso desejasse.


Por esses atos (e muito menos por suas filiações partidárias ou pela sua ausência absoluta de erudição formal), podemos dizer que Seu Zito era um conservador de verdade?


Acho que sim.


E é ai que mora o detalhe do Doutor Jobim explanado ontem.



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Quando o escândalo do Mensalão estourou pela boca de Roberto Jefferson, um dos integrantes do esquema e que se mostrou insatisfeito com a divisão do butim, aquela parte do PP que não fazia parte do esquema passou a ser chamada de baixo clero.


Eram deputados que, não integrando “o esquema”, circulavam nos corredores de Brasília com a sua “desimportância” – por opção própria, nada tinham a reivindicar do “esquema” do qual não participaram sponte propria.


Mas os pilotos do esquema (sobretudo os do PP) ainda os tinham dentro do partido, o que era uma vantagem dupla – podiam participar do esquema com um número menor de gente pra dividir o butim, mantendo, por liderança, a mesma quantidade de votos.


Jair Bolsonaro, a época no PP, integrava essa turma de deputados junto com Seu Zito, que não aceitava se sujeitar ao esquema com o PT.


O momento político, ao fim do mandato de João Paulo Cunha, um dos capturados no esquema do Mensalão, era extremamente delicado. No início de 2005, quando “a vaca já tinha ido para o brejo”, os integrantes do “esquema” exigiram que a presidência da Câmara saísse das mãos do PT e migrasse para os aliados, para distensionar o que poderia se tornar uma gigantesca “tratorada” no “esquema”.


O PT não recuou e resolveu lançar, para a sucessão de Cunha, o famigerado Luiz Eduardo Greenhalgh.


Greenhalgh é um velho conhecido de quem mais de 40 – pego no primeiro esquema de corrupção do PT, o Caso Lubeca, foi também o advogado do partido que acompanhou as investigações a respeito do assassinato de Celso Daniel. Greenhalgh circulava no meio político como um dos mais fieis aliados de Zé Dirceu.


A vitória de Greenhalgh significava, a época, que o PT estava dobrando a aposta e não só não ia recuar das acusações do Mensalão, como ia aprofundar o esquema tendo um plenipotenciário de Dirceu sentado na presidência da Câmara. O próprio PT lançou uma alternativa mais “light” a Greenhalgh mas que assegurava o “esquema”: Virgílio Guimarães, fundador do PT, era integrante da ala do PT mineiro mais próximo de Dilma Rousseff do que de Dirceu. Assegurava o “esquema” pois foi justamente Guimarães que apresentou Marcos Valério para a turma do PT.


Como reação, os aliados resolveram pinçar uma “oposição interna” para mostrar força perante o PT. Seu Zito seria “usado” pelos cabeças do PP para “enquadrar” o PT. Um segundo candidato do PP também foi lançado para que a queda de braço com a dupla petista contasse com os dois maiores nomes do “baixo clero” da época. Esse outro nome, ninguém lembra, foi o do deputado Jair Messias Bolsonaro.


E foi nessa disputa com Greenhalgh que Seu Zito surpreendeu e se tornou presidente da Câmara dos Deputados. Guimarães e Bolsonaro não foram ao segundo turno e a disputa entre Seu Zito e Greenhalgh, todos considerados “situação” na época, caiu como verdadeira bomba não apenas no PT, mas também no PSDB: o tiro para tentar enquadrar o PT saiu pela culatra do PP, literalmente.



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Voltemos para 15 de setembro de 2021 e para a fala do Doutor Jobim. É esse fato de 2005 que o Doutor Jobim se refere expressamente como o início do problema das disfunções nos poderes que levaram a um estado que ele salientou que todos os demais chamavam de “crise institucional” e que ele, com palavras moderadas, apenas lia como uma sucessão de cagadas nos arranjos “democráticos” desse pseudo-parlamentarismo que ele e mais meia dúzia liderada pelo Doutor Ulysses, criaram em 1987.


A gestão de Seu Zito foi um verdadeiro desastre para o esquema e foi o anúncio de que o gatilho do art. 2º da Constituição, criado por Jobim/Ulysses ia falhar.


Foi ali que o “esquema” definitivamente implodiu – Seu Zito assumiu em fevereiro de 2005 e Jefferson deu com a língua nos dentes três meses e pouco depois, em junho de 2005, após o esquema vir a tona na Veja, em maio de 2005. Não há como dissociar a eleição de Seu Zito do estouro da bomba do Mensalão quando Dirceu dobrou a aposta e perdeu em fevereiro de 2005 o cargo mais importante para o seu “esquema”.


Não mais que de repente, a eleição de Lula estava em risco por conta de uma cagada estratégica monumental de Zé Dirceu.


Era absolutamente crucial tirar de lá Seu Zito. O “esquema” não resistiria até o fim de seu mandato, em 2007, portanto, tirá-lo dali o mais rápido possível era fundamental para a sobrevivência não apenas do PT, mas de todos.


A CPI dos Correios já estava aberta na Câmara e contava com o apoio integral de Seu Zito.


A presença de Marcos Valério no escândalo assegurava que PP, MDB e PSDB não escapariam de um rolo compressor que já se formava rapidamente na Procuradoria Geral da República, capitaneada pelo PGR Antônio Fernando de Souza, que botou o “esquema” pra quebrar.


Para usar um termo usado pelo principal “ás de Temer” anos depois (Jucá), “era preciso estancar a sangria”.


O sistema escolheu quem “ia rodar” e o PT entregou Zé Dirceu, Cunha, Genoíno, André Vargas e Delúbio. No PP, Pedro Correa, Pedro Henry e José Janene não sobreviveriam politicamente. No MDB, José Borba liderou a parte da legenda que seguiu no petismo e foi dragado por essa turma no pós-Ação Penal 470. O derrotado Greenhalgh, apesar de não figurar como figura de proa no “esquema”, retirou-se da vida pública depois disso.


Mas era necessário ter na presidência da Câmara alguém que assegurasse esse consenso e, de certa forma, “estancasse a sangria” a tempo de garantir a eleição de Lula no ano seguinte.


O sucessor era homem da base aliada, igualmente e não integrante formal do PT. Era também nordestino, da Alagoas de Renan Calheiros: Aldo Rebello. Caindo Seu Zito, Aldo assumiria (como veio a acontecer, ao vencer o candidato do DEM/PFL, Zé Nonô). Rebello era do PCdoB na época, mas hoje está no PSB mais próximo desse grupo de Jobim do que da turma de Lula.


Já tinham tudo em mãos, mas só faltava tirar o líder do baixo clero, aquele “conservador anacrônico” e alvo de chacotas e zombarias pela elite psdbista, da posição a qual ele havia sido alçado como símbolo de uma retaliação ao PT (algo que o Doutor Jobim tentou fazer analogia em face da eleição de Bolsonaro ontem a noite).


Pois bem – e como isso foi feito?



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Uma união de partidos formada por PSDB, DEM (naquela época PFL) e Cidadania (naquela época PPS), com o auxílio de uma ala enorme de deputados do MDB derrubou Seu Zito e entregou a presidência da Câmara para Aldo Rebello, que, com o tempo, caminharia do lulismo para o mdbismo, acompanhando a companheira Marta (Aldo e Marta fizeram o mesmo percurso do petismo para o mdbismo após perderem as eleições para Kassab em São Paulo em 2008).


Esse grupo PSDB/DEM/Cidadania, reunido, criou o termo Mensalinho, para estourar de forma ad hoc um suposto esquema de propinas liderado por Seu Zito e que nada tinha a ver com o esquema que todos eles estavam envolvidos. O nome Mensalinho foi proposital, embora nem o aspecto mensal constava na denúncia contra Seu Zito.


O factóide foi lançado em uma viagem armadilha: mandaram Seu Zito para uma reunião na ONU em Nova Iorque e quando ele estava por lá, jogaram na imprensa amiga acusações de um dono de restaurante que alegou ter sido “achacado” pelo presidente da Câmara, que exigiu propina de dez mil reais para que uma unidade desse restaurante fosse instalada na Câmara.


Ali começava o plano armado pelos mesmos partidos que costuraram o evento de ontem e que, não coincidentemente, estiveram por trás da nota de rendição de Bolsonaro e, não coincidentemente, estavam também presentes no jantar da zombaria contra Bolsonaro: todos eles aliados aos mesmos veículos de imprensa de sempre, que espalharam a nota de rendição, o vídeo do jantar e as mentiras contra Seu Zito.


Ali, Seu Zito começava a ser tirado da jogada como forma de trazer de volta ao Brasil a “governabilidade”. Essa jogada garantiu a eleição de Lula no ano seguinte.


Doutro lado, Seu Zito negava as acusações e se dizia vítima, ele próprio, de uma extorsão, de um achaque político e não o contrário como insistia a imprensa de sempre. O próprio dono do restaurante disse com todas as letras que o “Mensalinho” de fato existiu, mas que ele não tinha provas.


Tudo isso aconteceu no lapso de dois dias, enquanto Seu Zito estava em Nova Iorque, na ONU. Foi no feriado de 7 de setembro de 2005.


Ao voltar para o Brasil, no dia 9, pediu afastamento de sua posição como presidente da Câmara para se defender das acusações, nenhuma delas provadas até hoje.


Dez dias depois, Seu Zito renuncia ao seu mandato parlamentar com a célebre frase em terceira pessoa: “infelizmente atraí forças antagônicas, poderosas e destruidoras: é a elitezinha, essa que não quer jamais largar o osso, insuflou contra mim seus cães de guerra”.


A “elitezinha” e seus “cães de guerra” estavam lá, em 13 de setembro de 2021, reunida na casa de Naji Nahas rindo de Bolsonaro. Reuniu-se depois no seminário Um Rumo para o Brasil ontem mesmo, destilando mais um pouco de escárnio no “baixo clero”, de onde o presidente Jair Bolsonaro é oriundo.


Doutor Jobim explicou de maneira lógica de onde vem esse ódio dessa tal “elitezinha” formada por PSDB/MDB/DEM/Cidadania, que ostenta com políticos incultos oriundo de um conservadorismo de baixo clero a aversão de quem é a favor daquilo que Seu Zito combatia – a mais aberta e imoral putaria, seja no sentido político, seja no sentido literal.



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Seu Zito foi um homem honesto e leal.


Quando notou o tamanho do “golpe”, teve a hombridade típica de um devoto de Nossa Senhora de sair de cena calado, falando o óbvio apenas – a “elitezinha” agia novamente.


Nenhuma das acusações de “mensalinho” foram provadas até hoje.


Nenhum processo foi aberto contra ele, que recebeu uma “punição” de mais de dez anos de ostracismo da vida política e cancelamento na vida social, até retornar a sua posição como político local em João Alfredo, no agreste pernambucano. Venceu facilmente as eleições e foi festejado pelo povo local, enquanto o Poder Judiciário impugnou-lhe o mandato com base em uma interpretação da Lei da Ficha Limpa de que a renúncia ao mandato questionado equivaleria a uma condenação transitada em julgado. É eleito novamente quando cumpre sua última função como político, entre 2009 e 2013.


Tentaram ridicularizar e colar em Seu Zito a pecha de que se tratava de um político com ideias atrasadas e, acima de tudo, desonesto.


Apesar de nunca terem apresentado provas, a pecha colou porque o povo aceitou e até o Judiciário o “cancelou” sem provas – usaram sua “renúncia” como prova dentro do bordão “quem cala, consente”.


Doutor Jobim, ao ancorar o momento atual do Brasil na eleição de Seu Zito em 2005, mostra o âmago de nossos problemas, que, na verdade, estavam nas pautas que Seu Zito carregava.


Seu Zito morreu ano passado, em 15 de julho, no meio da pandemia, mas em virtude de uma série de acidentes caseiros sofridos em avançado processo de senilidade atormentada pelo diabetes; muito diferente da senilidade vista ontem.


Não foi à toa que Doutor Jobim lembrou de Seu Zito – o mesmo grupo que arrancou de Jair Bolsonaro a rendição que faz o país retornar mais uma vez aos “esquemas”, derrubou Seu Zito no dia 9 de setembro de 2005 (eu, particularmente, não acho que essas datas sejam mera coincidência).


Em 2006 Lula foi reeleito, mas isso hoje pouco importa, pois já está mais do que provado que dentro do “esquema”, não há a menor diferença entre eles. FHC, na sua fala, procurou deixar isso muito claro.


O homem que transitou pelos três poderes e lembrou de como a “elitezinha” tirou Seu Zito do poder em menos de 10 dias, anunciou, no dia 15 de setembro de 2021 para 31 ouvintes (sim, eu estava presente na live com outras 30 pessoas apenas), qual será o Novo Rumo do Brasil.


O Novo Rumo do Brasil é o mesmo velho rumo de sempre, mas com um futuro muito pior e mais sombrio – eles vão implementar o parlamentarismo com o cuidado de que nunca mais um sujeito como Seu Zito corra o risco de tomar a cadeira na Câmara ou um como Bolsonaro, no Alvorada.


Seu Zito era tosco, rude, nada erudito, porém honesto, franco, sincero, determinado, obstinado, devoto e fervoroso defensor de uma certa espinha dorsal moral que não se viu ontem nesse tal rumo que querem dar ao Brasil.


A diferença entre Seu Zito e Jair Bolsonaro, entretanto, é que Seu Zito saiu calado e não fez acordo com ninguém. Como se diz lá no agreste, Seu Zito “morreu atirando e em pé”.


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