• Gabriel Paculdino

O colapso do Ocidente e a paralaxe cognitiva



Confundir a alvorada com o crepúsculo é um fenômeno corriqueiro dentre aqueles que vivem em estado inerme. Pela falta de meios de ação, o sujeito se vê paralisado, de forma que já não vive mais na realidade, e confunde o fenômeno do agora unicamente por não ter dado a devida atenção ao momento exatamente anterior.


É como um paciente terminal que tem uma breve melhora antes de expirar. Acontecimento comum nos leitos de hospitais, o corpo humano, em seu instinto máximo de sobrevivência, realiza aquele esforço derradeiro antes de se entregar de vez à morte. Por mais que, tendo uma melhora repentina, brote uma esperança, a experiência concreta nos obriga a manter certo ceticismo.


O que se observou como uma guinada à direita no campo político das principais nações do globo nos últimos 05 anos foi justamente isto.


Muito embora haja, de fato, um movimento intelectual, ainda tímido, formando-se no entorno da mentalidade conservadora, não faz parte deste movimento a "conquista" política de figuras como Boris Johnson, Bibi Netanyahu, Donald Trump, ou Jair Bolsonaro, muito menos está completo o árduo trabalho que deve preceder a ascensão de um movimento conservador frutífero.


A eleição de todos estes atores não é, senão, um último esboço de sanidade de um Ocidente desgastado, em frangalhos, pelo inferno no qual o capitalismo liberal foi transformado pelas pautas identitárias e pelo populismo irresponsável.


Não digo isto por pessimismo exacerbado. O digo porque, como bons conservadores, sabemos que a transformação cultural e, posteriormente, política de uma nação dura algo em torno de 30 a 40 anos. É inconcebível que um país como o Brasil, sem cultura conservadora recente, crie tal arcabouço em menos de 05 anos.


Também improvável é que a derrocada causada em nome da democracia, que causou estragos cujas marcas estamos apenas começando a notar, tenha propiciado a eleição de conservadores em países como Estados Unidos, Reino Unido, ou Israel. Isto porque os resultados a serem colhidos depois de décadas de globalismo e progressismo estão apenas em seu começo.


Não podemos esperar que o leigo, o afegão médio - o Homer Simpson - note este fenômeno à primeira vista. Até porque, na maioria dos casos, este ser humano faz parte do projeto mesmo dos progressistas, agindo, por mera inépcia, como agente transformador da sociedade, com a certeza de que trabalha pelo conservadorismo no mesmo instante em que suas ações promovem o exato oposto.


Pe. Sertillanges, em seu "A vida intelectual", diz que:


"O público é primário. Na maioria das situações em que ele predomina, inclusive por deter a superioridade numérica, ele proclama posições convencionais, nunca verdades; ele quer ser bajulado; ele teme principalmente ser perturbado."

Ora, vejamos se não é exatamente isto que vemos ocorrer em nosso Brasil nos últimos tempos. Para além da já notável incapacidade de raciocínio dos socialistas e liberais, agora temos de aturar as patacoadas dos soi disant conservadores.


Olavo de Carvalho, em seus estudos sobre a mentalidade revolucionária, diagnostica este fenômeno como a "paralaxe cognitiva", qual seja, o deslocamento entre o eixo da experiência real da construção teórica defendida pelo mesmo ser pensante.


Isto ocorre com a somatória de dois fatores: o declínio da atividade intelectual e a hegemonia do pensamento revolucionário nos meios acadêmicos. Fato que ocorre em todos os países do ocidente, graças à propaganda comunista maciça presente em todas as escolas, universidades, repartições públicas, jornais.


Assim, um sujeito, ainda que toda a realidade pese em seus ombros, obrigando-o a enxergar as coisas sob uma ótica, insiste em se valer de uma construção teórica que lhe foi imposta por algum dito intelectual, modificando sua percepção da realidade a fim de que ela se molde à teoria mesma que, por imposição, acredita.


Já não se enxerga mais os tropeços dados pelo governo federal. Tudo faz parte de um plano superior - praticamente divino -, que nós, reles mortais, não temos a capacidade de conceber. E a qualquer mínimo ato de ceticismo, insistem, logo, em bradar: CONFIA! Ora, não é este mesmo pensamento que faz os comunistas serem julgados sempre por uma autoridade futura, num juízo que nunca chega?


A política, segundo estes seres iluminados, arte do possível, torna tudo o que toca em pautas progressistas, como se a única saída possível fosse um "socialismo à brasileira". Tudo isso justificado pelos abusos do STF, do Congresso Nacional, quando não de ambos. Mesmo que a decisão tomada erroneamente não envolva nenhum destes agentes, mas a mera inépcia do Governo Federal, afirmam que se o governo fizesse de outra forma, aquilo seria derrubado pelos outros poderes; quando não temos de ouvir a frase mágica "imagina se fosse o Haddad?"


Ora, se tudo faz parte de um plano superior, mas, ao mesmíssimo tempo, tudo o que dá errado é culpa dos outros, faz-se necessário mais do que um "xadrez 5D" para dar nexo causal entre as duas afirmações. No entanto, à menor tentativa de expor tais incongruências, a "direita burra" é logo cancelada e perseguida pela multidão de apoiadores incondicionais do Planalto, como se Gabinete do Ódio fosse.


A massa coordenada pelos "zóio verde" - A.K.A. ZV -, sem nem mesmo perceber, dá à esquerda e seus representantes o fundamento mesmo de tudo quanto tem sido veiculado sobre os ataques articulados a seus detratores. A diferença reside no seguinte ponto: aqui realmente parece que há um tipo de coordenação, pois é impossível que milhares de perfis se pronunciem com exatidão de argumentos, quando não de palavras.


Ocorre que, apesar do que se pensa, tal perseguição é direcionada àqueles que, diferentemente dos já conhecidos caciques da esquerda nacional, estão tentando apenas salvar o país de uma derrocada ainda maior, nos campos cultural e político.


Tudo isto ocorre sob a justificativa de preservar uma natimorta "união da direita", união esta que é o motivo mesmo da frustração de seus efeitos de ordem política. A política e a cultura "de direita" têm, por base, uma ideia de atuação individual e independente, de forma que se torna impensável delimitar o campo de discussão ao que a massa define como aceitável.


Esta ideia de unidade é auto-destrutiva, delimitadora, redutora de horizonte de consciência. Veja que estas características são próprias de uma política e cultura de esquerda, revolucionária, coletivista.


Depois de todo o panorama apresentado, ainda temos de aturar sermos chamados de traidores, esquerdistas, infiltrados. Se isto não é o exemplo máximo de paralaxe cognitiva, não posso dizer mais o que é.


Enquanto isso, o ocidente inteiro vai avançando em suas pautas progressistas. Apesar de ter eleito um governo conservador, o Reino Unido passa pela maior aceleração de pautas globalistas dos últimos tempos.


Bibi Netanyahu já dissolveu seu governo mais de 04 vezes, na tentativa frustrada de tentar uma maioria que o possibilite governar.


Jair, como já noticiamos diversas vezes, tem loteado os cargos de seu governo em troca de uma maioria no Congresso que insiste em não ser alcançada. Tudo isto com Dilmares e seus cupinchas corroendo o que restou de conservadorismo no Brasil desde dentro.


Last, but not least, Trump foi chutado da presidência e de todo o debate público pelo establishment americano, em conchavo com o PCCh, as chamadas big techs e tudo o que há de ruim. A eleição mais fraudulenta da história dos EUA só fechou, com chave de ouro, aquilo que considero como o último suspiro de conservadorismo existente no Ocidente.


O que restou foi um neoconservadorismo com pitadas cada vez maiores de progressismo e acordões, deslocando o espectro político à esquerda com uma velocidade atroz, excluindo de nossa civilização qualquer tentativa de governo que se baseie nos quatro pilares que sempre defendemos: a moral judaico-cristã, o direito romano, a economia de livre mercado e a filosofia grega.


Tudo que um dia se jurava resgatar está sendo varrido para o esquecimento pelos mesmos atores que pretendiam, ou fingiam, deles cuidar. Os gigantes, sob cujos ombros deveríamos estar escorados, foram derrubados em nome da governabilidade.


O trabalho agora é de base, dentro do que Burke chamava de "pequenos pelotões". É do seu bairro, da sua igreja, do seu círculo social que o trabalho deverá ser iniciado. Mãos à obra!

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