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  • Dica HQ

O COLECIONADOR, DE SERGIO TOPPI

Uma obra de Sergio Toppi é sempre difícil de comentar, imagine resenhar.



Apesar de ser um dos mais renomados quadrinistas do século XX, inspiração para sujeitos como Walter Simonson, Dave McKean e Frank Miller, o milanês Sergio Toppi é pouquíssimo conhecido no Brasil e só há poucos anos suas obras estão sendo adaptadas por editoras brasileiras.


Raramente o autor trabalha mais de uma vez com o mesmo personagem, preferindo não destacar nenhuma de suas criações, descartando-as logo depois de usá-las. Em O COLECIONADOR, encontramos a única exceção.



O personagem principal não tem um nome (exceto um falso), mas sua presença distinta já o identifica no ato: veste trajes impecáveis, possui um bigode garboso para o século XIX e um chapéu que oculta parcialmente seus estranhos olhos. Ele é rico, com diversos empreendimentos, e possui uma gama de contatos e aliados, tão variados quantas foram suas viagens ao redor do mundo. Mas o que mais chama atenção é sua sagacidade e sua lábia, que vencem muros e conquistam vitórias. E, caso tudo isso não seja suficiente, O Colecionador é um exímio atirador.


Seu objetivo de vida é colecionar objetos fantásticos que escondem histórias que aparentemente apenas ele conhece, que guardam uma mística secreta e a aura de todos os possuidores anteriores. Sua coleção é secreta, pessoal e intransferível.



A primeira história é “O Calumet de Pedra Vermelha”, um cachimbo que possui uma longa linhagem de proprietários e está em algum lugar do meio-oeste americano, local onde ele se dirige e encontra um conflito entre indígenas e soldados, num período próximo a 1880. Sobrevivência é uma necessidade constante nas histórias d'O Colecionador. Foi publicada em 1982 na revista italiana L'Eternauta como Il Calumet di Pietra Rossa.



“O Obelisco da Terra de Punt” se passa no Deserto de Danakil, localizado no nordeste da Etiópia. O Colecionador viaja sob Sol escaldante, no perigo constante de encontrar nativos ou entrar em mais um conflito entre nativos e brancos (no caso, italianos) para encontrar um místico obelisco solitário em meio ano nada. L'Obelisco della Terra di Punt foi publicado pela primeira vez em 1985 na revista Orient Express na série I Protagonisti.



Começando no vale dos Cárpatos (Leste Europeu) e dirigindo-se para o Mar de Banda, nas terras selvagens da Nova Guiné, O Colecionador vive a aventura da “Lágrima de Timur Leng”, que eu considero uma das melhores. Nativos de sangue frio, dragões-de-komodo e uma beldade assassina são os perigos que ele deve enfrentar para alcançar a lágrima de um antigo conquistador mongol (que realmente existiu). A publicação original ocorreu em 1986, na mesma revista, intitulada La Lacrima de Timur Leng.

Em 1986 começou a serialização de Lo Scettro di Muiredeagh na revista L'Eternauta. Ou, melhor, “O Cetro de Muiredeagh”, que se passa na Irlanda em 1865. Em busca de uma simples varinha, chamada de “cetro”, O Colecionador insere-se num conflito entre clãs que existe desde os tempos do rei irlandês Niall Glúndub mac Áedo. O mais interessante aqui é um mistério sobre o protagonista que é desvelada.


A última história foi publicada somente em 2006 por encomenda da editora francesa Editions Mosquito e foi intitulada Le Collier de Padmasumbawa, “O Colar de Padmasumbawa”. O colar foi objeto de batalhas entre bonzos vermelhos e amarelos e diz-se possuir poderes mágicos incríveis. Mas, novamente, há uma batalha entre povos, desta vez no Tibete, nos gélidos Himalaias, que não impedirá O Colecionador.



Toppi é conhecido por quebrar “normas” em relação aos quadrinhos. Suas páginas não são compostas por simples quadros preenchidos, mas sim com desenhos que por vezes ultrapassam as margens, criando uma tridimensionalidade ímpar e perspectivas que brincam com o olhar do leitor.

Mas o que mais se deve atentar são seus traços, finos ou robustos, que criam volumes que parecem querer sair da página. Toppi não parece apenas desenhar, mas esculpir na folha, retirar a imagem viva do vácuo branco. Imagino se, ao concluir um dos seus tantos personagens, ele não batia o lápis e dizia “Parla!”.



Quanto à narrativa gráfica, o sequenciamento de cenas é formidável. Além de mestre do traço, o italiano também era mestre da narrativa. Quando parece que ele “quebrou” a história, a história é que “quebra” o leitor, criando ótimos “pontos de virada” (ou plot twist, como é mais conhecido).

O único porém é uma certa falta de dinamismo nas cenas, pois ele prefere dar destaque ao personagem no diálogo, apresentando-o de perfil ou frontalmente. Mas é completamente desculpável, pois suas ilustrações merecem um olhar mais atento por parte do leitor, pois vale gastar mais tempo para admirar um trabalho genuíno.


Sobre as localizações, vale dizer que o autor sempre pesquisou sobre os locais e personagens com que trabalhou e sempre tentou passar para o papel aquilo que o inspirou.


Se alguém ainda achar que histórias em quadrinhos é somente super-heróis e Turma da Mônica, tem que conhecer a nona arte italiana, os fumetti (como são chamadas as HQs na Itália). E Toppi dominou-a como ninguém.



Sei que é uma piada horrível, mas merece: Toppi é Top!


Infelizmente, o mestre italiano nos deixou em 2012, aos 79 anos, falecendo na sua terra natal. Porém, em 2003 esteve no Brasil por conta do 3º FIQ de Belo Horizonte e deixou uma mensagem aos brasileiros durante uma entrevista:



UHQ: Por favor, uma mensagem para os leitores brasileiros.

Toppi: Espero que possam conhecer mais os quadrinhos italianos, e que os leiam bastante, porque assim os vendemos e todos ficamos contentes. (risos) Falo isso porque seria bom os fumetti terem um pouco mais de penetração aqui.


Uma coisa que notei na palestra que ministrei na Fundação Torino (nota do UHQ, por Júlio Schneider: uma instituição cultural situada em Belo Horizonte que também é mantenedora do Instituto Ítalo-Brasileiro, um dos apoiadores do FIQ. Trata-se de uma escola "bicultural", criada nos anos 70 para atender as necessidades dos filhos dos engenheiros italianos que vieram trabalhar na implantação da Fiat, que mantém a entidade), é que as crianças só conheciam a Mônica, um quadrinho clássico brasileiro e um pouco de mangá. O gosto do público não se discute, mas nessa idade, de 13, 14 anos, os alunos já poderiam começar a ler outros materiais, como os da Bonelli, por exemplo.


Em determinado momento, falava da importância dos quadrinhos como ferramenta educacional e mencionei os Bandeirantes. Então, vi que as crianças não sabiam do que eu estava falando. Aí, fiz um desenhinho deles, com os chapéus grandes, e expliquei que se embrenhavam nas florestas etc.


Na Itália, sabemos muito sobre o velho oeste, porque havia uma história em quadrinhos como Tex, que tinha muita pesquisa de roteiro e desenho, e trazia outras coisas interessantes. Nessa aula, vi que as crianças pouco sabiam da história do próprio país.


Por isso, acho que os quadrinhos em seu país devem ser feitos também como instrumento para difundir melhor a cultura do Brasil. É preciso usá-los nesse sentido.


(Fonte: site Universo HQ ; acessado em 23/05/2021).

As publicações que chegaram ao Brasil foram Sharaz-De Volumes 1 e 2, Tanka, O Colecionador e atualmente está em fase de campanha de financiamento coletivo Fábulas do Velho Mundo (pela Editora Skript).

Para quem estiver interessado na bela edição capa dura d'O Colecionador, o item está disponível na loja virtual da Editora Figura ou o pode enviar mensagem para o perfil da editora no instagram na @FiguraEditora para mais informações.


Para mais dicas de quadrinhos, visite o instagram deste que lhe escreve: @DicaHQ.

O COLECIONADOR foi publicado pela Editora Figura em 2021 com base na edição original lançada em 2015 pela Editions Mosquito como Le Collectionneur Intégrale.


Nota: 5,0/5,0.