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O desenvolvimento da doutrina cristã até o surgimento da Suma Teológica.


O que é a suma? Ao fazer essa pergunta ponho um questionamento que irá colocar em perspectiva a importância da Suma e também do monumental esforço de Santo Tomás de Aquino.


Se fizermos um esforço imaginativo e nos colocarmos no lugar dos apóstolos vamos perceber que a única coisa que possuíam em mãos para formular a sua atividade evangelizadora era a presença que Cristo deu a Eles durante 3 anos. Toda essa experiência foi convertida em narrativa pelas comunidades evangelizadas pelos apóstolos (a comunidade de Mateus compilou aquilo que o Apóstolo ensinou, a de Lucas também e assim sucessivamente), mas os apóstolos pouco ou quase nenhum conteúdo escrito tinham em mãos. O conteúdo da bíblia, é fato, já circulava por todas as Igrejas cristãs, entretanto, um cânon ainda não havia sido estabelecido, o que depurava o conhecimento era a tradição oral, ou seja: a experiência que os apóstolos passaram aos primeiros cristãos.


Isso fica ainda mais provado quando nos deparamos com o a Patrística. O que vem a ser patrística? Um conjunto de obras dos primeiros bispos evangelizados pelos apóstolos e que possuem em si uma diversificação gigantesca e desorganizada de estilos literários: Num primeiro volume, por exemplo, você tem desde cartas pastorais ensinando as comunidades como se comportar ou como tratar certas questões litúrgicas, passando pela narrativa histórica do martírio de São Policarpo e até mesmo nas visões de Hermas. Ou seja, é um emaranhado de conteúdo, com diversas ramificações inteiramente desorganizadas, cujo único objetivo era apenas orientar os cristãos. Há um leve esforço doutrinal, não por parte dos Padres da Igreja que não visavam explicar e desenrolar nada do que ensinavam, mas por parte dos heresiarcas ou de pagãos ainda inconformados com a superioridade moral dos cristãos e visavam levantar questionamentos simples para desmoralizá-los no campo da cultura. Em resumo, os padres da Igreja estavam preocupados de início em orientar a comunidade e fornecer um básico de literatura para que os fiéis mantivessem firmes e unidos na mesma autoridade instituída por Cristo e fundamentada pelos apóstolos.


Todo esse esforço dialético de responder aos hereges tornou o cristianismo no ponto doutrinal ainda mais confuso. As fontes tornaram-se contraditórias e a elaboração dos dogmas traziam grandiosos problemas metafísicos (A trindade, por exemplo: como Um pode ser três?). Daí que no fim da Patrística, um dos últimos padres, Santo Agostinho, busque inserir dentro dela alguns elementos da filosofia platônica: Não porque o cristianismo enquanto religião o exigia, São Paulo mesmo nas suas cartas faz questão de desvincular qualquer conhecimento que ele professava com o conhecimento da filosofia corrente, mas porque a circunstância histórica e os questionamentos levantados pelos hereges assim exigiam dos cristãos respostas a esses graves problemas lógicos e metafísicos.


Daí que cessado esses primeiros problemas, temos então um conteúdo magistral, desorganizado e sem nenhuma explicação ou depuração própria. Entretanto, ao mesmo tempo que surgiu essas diversificações os autores e estudiosos medievais percebiam que tudo aquilo ali deveria possuir algum ponto de unidade, pois apesar dessas divergências e aparentes contradições, ainda assim tudo aquilo era conteúdo cristão e alguma unidade deveria possuir.


Inicialmente o processo partiu por uma organização documental, um trabalho filológico que levou séculos até estar construído. Boécio organizou parte da estrutura filosófica que os padres haviam criado, por exemplo. Pedro Abelardo pegou tudo aquilo que dentre os padres haviam de contradição e elencou num único volume para que seus alunos pudessem resolver. Entretanto, muito além do problema do próprio conteúdo cristão, havia também a filosofia pagã e as ciências pagãs (medicina, astrologia, alquimia, etc) que precisava ser analisado e verificado sob qual aspecto esses conhecimentos poderiam ser absorvidos pelo cristianismo sem a perda substancial desse conteúdo.


A essa tarefa coube a alguns místicos e pensadores medievais como Robert Grossetest, Santa Hildegarda, Beato Raimundo Lúlio, etc.


Portanto, o espírito de todos os estudiosos cristãos da época era transformar esse grande monumento inacabado numa forma acabada e própria, desenvolver uma síntese que formasse uma visão aparente e ideal do que seria a doutrina cristã. É aí que surge a Suma.


Quando falamos da suma pensamos imediatamente na Suma Theológica, entretanto, o termo Suma designa um estilo literário criado pelos próprios cristãos que consistia nesse processo de depuração. A sua estrutura parte sempre de um questionamento, a ramificação desse questionamento em proposições, proposições opostas , uma conclusão que brota do intelecto do autor e a resposta as proposições erradas. Repare que todo esse processo é semelhante ao processo de uma peneira: coloca-se conjuntos doutrinais em confronto, oferece-se uma solução a ele e em seguida depura e demonstra o erro que se encontrou em cada premissa. Isso é uma suma. A suma Theológica escrita por Santo Tomás, bem como a Suma Contra os gentios, seguem essa estrutura.


Entretanto, apesar de parecer que as sumas são somente um conteúdo racional e lógico a ser memorizado (é aí que entra o problema de muitos "tomistas" ou tomistoscos atuais) é que ela possui uma estrutura fundamental onde parte-se de um topo e seguem-se ramificações definidas, os autores que escreveram-nas estavam inseridos nesse grande esforço monumental que a cristandade possuía e muitos estavam cientes das possibilidades diversas que poderiam ser oferecidas, apesar de ser um discurso lógico eles entendiam que tudo isso partia de uma linguagem e narrativas mito-poéticas (existentes na história, mas ainda assim míticas) oriundas no evangelho, nas cartas e na revelação do apocalipse. Havia um sentido simbólico a ser ainda absorvido e tal permitia diversas nuances, todas cristãs, mas ainda sem um acabamento real. As sumas, quando dão esse acabamento não finalizam o processo doutrinário, apenas conferem a forma final que os medievais ainda buscavam.


O destaque da Suma de Santo Tomás é que além de dar essa forma ao conteúdo cristão, ele também admitiu vários conteúdos das doutrinas pagãs e realizou todo esse processo de depuração na filosofia, por exemplo ao articular Aristóteles e os padres da Igreja, processo que Santo Agostinho já havia realizado com Platão anteriormente.


O grande problema com o tomismo é que esse movimento só surge no século 19, quando a unidade do esforço que a Igreja empreendeu já havia se encerrado e houve uma migração do esforço intelectual para o campo cultural (daí que surge o índex e outras iniciativas para controlar o fluxo de informações correntes). Os estudiosos da Igreja compreenderam que chegada a Summa de Santo Tomás pouco ou nada deveria ser trabalhado ainda naquele mesmo espírito de esforço anterior deixando uma série de lacunas dentro da própria doutrina da Igreja (por exemplo: a Igreja não possui uma filosofia da história). Portanto, quando esse movimento surge o espírito que regia os autores a realizarem esse grandioso trabalho já havia arrefecido e você possui uma popularização desse conteúdo somente pelo conteúdo, pela sua letra, sem nenhuma conexão com a essência do trabalho já realizado. Não é que o conteúdo produzido em cima seja ruim, longe de mim falar isso de muitos mestres e pessoas mais inteligentes do que eu, entretanto, os muitos estudiosos que sem conhecer e entender o processo de desenvolvimento da Suma apegam-se ao seu conteúdo sem dar a ele a forma que ele realmente merecia. Daí que toda a doutrina e todo esse esforço perde a força que deveria ter e também o respeito diante de seus adversários que já não argumentam segundo o conteúdo, mas em esferas superiores do espírito.


Isso é uma suma, portanto, é o elencamento e a depuração de todo conteúdo já produzido pela humanidade antes do cristianismo e durante, numa ramificação ordenada, sincera e coerente. As catedrais, por exemplo, foram construídas segundo essa mesma estrutura, mas isso é algo a ser explicado em outro momento.


Por Yuri Alan @histcath

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