• Michel Barcellos

O Esoterismo do Iluminismo


Extraído de achetudoeregiao.com.br

Na aula (552) de sábado passado do COF o professor Olavo de Carvalho mencionou um livro que tratava da completa influência esotérica no Iluminismo: L'ésotérisme au XVIIIe siècle en France et en Allemagne, de Antoine Faivre. Ainda mencionou o seguinte fato sobre o Iluminismo: “o Iluminismo inteiro é uma farsa; é coisa de sociedades secretas”.


Isso vem ao encontro de um tema que eu tenho abordado por aqui em meus artigos: a sociedade padece de um problema de cunho religioso. E esse problema não se encontra na forma como o indivíduo encara a religião, mas como ele enxerga todas as outras coisas da vida. O Iluminismo foi o movimento que disseminou a ideia de que religião e ciência tratavam de assuntos distintos. Essa ideia é a raiz do engano do mundo, pois não há ciência sem religião.


A partir dessa cegueira ideológica imposta no séc. XVIII através da propaganda, nos dias de hoje os cristãos têm dificuldades para associar um problema sanitário à religião, pois supõem ser um tema de cunho científico, completamente dissociado da religião. Quando muito ainda conseguem fazer alguma associação política do tema, mas dificilmente vão para além disso.


No momento em que o professor citou o livro eu saltei para buscá-lo na libgen, que disponibiliza uma série de títulos para download em .pdf, mas não o encontrei. Por outro lado, encontrei um artigo de periódico francês (Dix-huitième Siècle, n°7, de 1975) em que Jean Macary faz uma resenha da obra, a qual trago traduzida para ti, nas linhas que seguem:


Antoine Faivre: Esoterismo no século 18 na França e na Alemanha, Paris, Seghers, 1973, 224 p.


O livro de Antoine Faivre é um esforço para sintetizar e colocar em perspectiva o esoterismo (ou "iluminismo"), no século XVIII e durante boa parte do século XIX. Síntese preliminar: no primeiro capítulo AF analisa as tendências e as obras dos ilumininstas da primeira metade do século XVIII. Parece-lhe que essas tendências ainda são dispersas e pouco sistemáticas. O Capítulo 2 (“Perfis de emuladores”) descreve os diferentes sistemas aos quais os teosofistas da segunda metade do século e além chegaram; mas é difícil chamar Saint-Martin apenas de emulador. O Capítulo 3 coleta, separadamente, a “História da Maçonaria mística”. Graças a esses três capítulos, o leitor continua, por toda a Europa e mesmo na América, as idas e vindas de pesquisadores cosmopolitas; AF nota, com grande precisão, os múltiplos vínculos que estabelecem entre si nas Igrejas interiores, por ocasião de simples encontros ou longas correspondências. De passagem analisa, de forma mais ou menos sucinta, as concepções místicas dos autores cuja biografia acaba de redigir e apresentar os relatos.

A “Introdução” descreve as principais características dos escritos esotéricos que serão mencionados na obra. Ele lembra que o esoterismo e o exoterismo não são fundamentalmente opostos, mas muitas vezes formam as alas do mesmo edifício. O esoterismo "impregnado de simbolismo" também serve "para tornar claro à intuição o que o raciocínio sozinho não pode compreender" (p. 6). Forma-se uma dialética onde o oculto e o aberto se alternam. De acordo com AF, o pensamento que enfatiza a analogia, a Igreja interna e a teosofia é esotérico. AF opõe teosofia ao dogmatismo; a teosofia oscila entre a decifração, a interpretação das Escrituras e o misticismo puro: os teosofistas são “homens que insistem em pontos de doutrina ou dogma que o exoterismo das Igrejas constituídas tende a negligenciar ou ignorar em silêncio; esses pontos, eles querem elucidá-los tanto por seu próprio reflexo quanto pela iluminação interior, esta última resultante de uma busca individual ou de uma iniciação” (p. 9).

Uma das características do pensamento esotérico é que ele é de um "tipo essencialmente contraditório" (p. 15); é o mundo da descontinuidade e da ruptura que só a analogia une misteriosa e misticamente. O esoterismo não se opõe às ortodoxias religiosas ou ao racionalismo iluminista; ela "não é uma oposição a outra coisa, mas um lugar de antagonismos, um centro de gravidade dinâmico" (p. 24 e diagrama na p. 21). Está, portanto, ligado, pela história e pelo pensamento, às pesquisas filosóficas do século XVIII; sua história partiu de um campo comum a filósofos, historiadores, críticos literários e linguistas (p. 19). Assim, a influência de Leibnitz é muito bem marcada; os debates entre certos teosofistas e Kant são mencionados (p. 108, p. 110; muito apressadamente).

Este trabalho, portanto, incentiva a leitura dessas obras de filósofos desconhecidos. Talvez seja lamentável que alguns trechos não sejam fornecidos aqui e ali (p. 105, sobre o estilo de Swedenborg). Os capítulos são muito compactos por causa da série de nomes de teosofistas que se sucedem e se repetem sem sequer sugerir suas visões de mundo.

Que tipo de livro é esse? De um resumo? Então talvez esteja muito seco. De uma síntese? Mas apenas a introdução dá a impressão. O resto do trabalho é organizado cronologicamente; mas por que não dar a data de nascimento e morte dos teosofistas mencionados? Esta cronologia lança luz sobre a evolução do movimento: AF vai analiticamente do menos sistemático ao mais sistemático. Um livro interessante, fascinante até, mas que desperta a curiosidade mais do que a satisfaz. Sem dúvida é essa a intenção do autor?

(J. MACARY)


Ainda que nessa resenha o livro não aparente abordar o tema religioso da maneira como eu percebo – sobre a religião ser a raiz de qualquer ciência –, temos aqui uma boa fonte para evidenciar como o Iluminismo foi um movimento pseudicientífico e verdadeiramente religioso, no caso, esotérico. Ou seja, o movimento que separou a ciência da religião era, na verdade, um movimento para associá-la a outra religião – porque é impossível separar ciência de religião.