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O espelho sem reflexo.

Por Bruno G.


Chegara atrasado novamente. Isso era corriqueiro, ele se importava com o fato, mas sua preguiça era maior que sua pontualidade, sempre encontrava um jeito de se atrasar, por vezes brincava com o cachorro, lavava uma louça, se desatava em terminar um poema ou algo do tipo.


Estava todo encharcado em razão de uma chuva torrencial que há alguns dias inundava a cidade. O clima estava lhe pregando peças, ultimamente, ao sair de casa, o céu estava anuviado, não chuvoso, achou que seria agraciado com um sol quente, esquecera-se, então, do guarda chuva.


Sentou-se na carteira mais recostada ao fundo. A sala era grande e espaçosa, cabiam bem uns cem, de fato a turma havia começado com os cem, houve algumas desistências e reprovações, o que pesava ao fato de estarem em trinta pessoas naquele momento.


Ludovico era franzino, tinha lá seus um e setenta e gostava de ser baixo, bem não gostava, mas sempre achou que precisava sinalizar virtudes para não parecer um homem vazio aos olhos dos outros. Ele não gostava de ser mais baixo que a maioria dos homens, entretanto sempre se convencerá que sim, pelo menos, deste modo, seria uma mentira convicta. Seu rosto não tinha nada de especial, fora os seus óculos e os seus normais olhos castanhos.


Tinha um talento especial em ter virtudes. Apesar de ser normal, pelo menos em aparência, exalava atitude e certeza. O interior sempre estava diferente do exterior, por fora era duro como pedra, por dentro era feito de indagações e vivia por encontrar respostas, entretanto, parecia se contentar com pouco e esse pouco sempre era para reforçar sua visão estereotipada sobre o todo.


- Valha-me, Deus - disse ele - deve estar chovendo ha cinco dias ininterruptos.

A turma ficou em um silêncio constrangedor, como se ele tivesse flatulado, ou algo do gênero. Ninguém podia acreditar, Ludovico pronunciara uma palavra que parecia ser proibida: “Deus”.


-Você!- Disse o professor vermelho-alaranjado - como ousa?


O professor, Hebert Agnes, Doutor em nada, por assim dizer, era magricela, mas parecia dobrar de tamanho quando ficava nervoso com algo. Tinha o nariz de batatinha e cabelo amarrado em coque, no estilo Samurai, seus óculos eram velhos, pareciam ser da sua avó. O que não combinava nada com a espuma que agora saia de sua boca.


- Essa é a casa da ciência, cara - disse o vizinho de carteira – você não pode dizer isso aqui!


Nunca havia se perguntado se era ou não permitido falar Dele naquele lugar. Não parecia ser algo tão grave como todos estavam aparentando ser.

O colega insistiu.


- Não esperava isso de você!- disse - logo você!



Ludovico não entendia, parecia sentir que não estava seguindo a etiqueta do lugar e mesmo assim não queria segui-la. O jovem vizinho de carteira tinha um cabelo mal cortado e barba muito rala, porém grande, também usava o óculos da avó. Vestia uma camiseta preta escrita “abaixo ao uso de leite de cabra”, que parecia ter sido feita por ele mesmo. Fausto era o seu nome, lembrou.

- Aqui é um lugar onde devemos negar a Deus - disse o professor

- Mas isso atenta a minha liberdade – interpelou Ludovico.

- Não interessa! - gritou o professor - A ciência diz que não podemos falar sobre ele por causa do bem comum, então não falaremos!


Ele sabia que não precisava de todo aquele teatro macabro, mas os colegas estavam começando a protestar em favor do professor e a ficarem nervosos. O professor estava dando pulinhos de raiva e excitação. Seus olhos estavam vidrados na garganta do pobre rapaz, Hebert sabia que não poderia fazer nada com aquele aluno, a não ser que ele induzisse Ludovico a uma situação dúbia, a menção da palavra o deixou perplexo, não conseguiria aguentar mais aquele aluno, odiava ser confrontado e precisava punir o rapaz e o mandar para fora.


A oportunidade surgiu e Ludovico mordeu a isca.


- Joga ele para fora - gritou uma moça tão gorda que não cabia na cadeira – não podemos tolerar fundamentalismos e negacionismos.


- Cala a boca! - devolveu para a moça - não estou negando a ciência, apenas disse a palavra "Deus" - gritou o rapaz perplexo.


- Seu foi machista! - interrompeu o professor - como ousa mandar uma mulher calar a boca? Isso é típico de religioso fundamentalista mesmo! Saia da minha sala!

Ninguém ajudou o rapaz, ao menos apoiou. Olhou para o outro canto da sala e lá sentava um amigo de longa data, lembrou que brincavam juntos desde quando crianças, mas não apresentava sinais de vida, provavelmente estava dormindo desde o início da aula, ou do dia, ou do ano, não saberia dizer.


- Não sairei! - disse o rapaz com determinação.


-Tirem esse estuprador daqui! - gritou o professor triunfante.


Todos, menos o professor, a gorda, o dorminhoco e o vizinho de carteira, pularam em cima de Ludovico. O coitado não teve tempo nem de se preparar, muito menos de pensar, já estava engalfinhado com os outros vinte e cinco alunos da sala. Socou o máximo que podia, para cada acerto ele recebia outros cinco em retribuição.


A cena pérfida durou uns dois minutos. O rapaz era muito resistente, mas foi empurrado, socado e chutado para fora da sala. Achou estranho o fato que sua ultima visão da sala fora o rapaz que sentava ao seu lado, Fausto, cobiçando seus pertences que haviam ficado na sala. Sabia que ele estava cobiçando, não havia como ser outra coisa, em sua mente algo dizia que ele estava certo disso.


Os seguranças bem musculosos e bem armados do lugar vieram correndo, deram mais uns sopapos em Ludovico, o carregaram e jogaram na antessala do diretor, onde eles mesmos se encarregaram de não deixar que ele saísse.


Ludovico demorou em recobrar sua consciência. Ao acordar, observou a antessala e reparou que um rapaz muito estranho lhe acompanhava e o estudava. Usava uma touca suja com cabelos sebosos aparecendo por debaixo dela.


- E aí cara beleza? - disse o rapaz seboso - estou aqui esperando a mais de duas horas e o diretor parece não querer me atender, é bom ter alguma companhia - finalizou.

Ludovico, muito intrigado, não sabia do que tudo aquilo se tratava e estava começando a se aborrecer. Ele apenas havia dito a palavra “Deus” na sala e todos o julgaram,

sentenciando-o ao espancamento coletivo. Sua infração, obviamente, não justificava um dolo de manada.


Levou um tempo para recobrar todos os sentidos. Quando olhou novamente ao redor da sala observou que era tudo muito sujo e mal cuidado, haviam várias pinturas e esculturas modernistas. O único que se via destoante da “paisagem” era uma pintura muito antiga e limpa de Bosch, não tinha nome, mas parecia uma pizza dividida de maneira estranha e com um recheio de pessoas. Achou esquisito, mas deu-se por vencido e sentou-se ao lado do rapaz seboso. Por uma infelicidade tamanha, só haviam duas cadeiras no local e uma já estava ocupada por ele.


Ele percebeu que o rapaz, além de estar fedendo, estava com os bolsos abarrotados, com os pertences quase caindo de seus bolsos. O seboso percebeu que Ludovico estava lhe observando e se interessou muito nos seus óculos. Por incrível que pareça, a única coisa que restara com ele eram seus óculos. Ele usava óculos modernos, diferentemente dos que a maioria das pessoas usava.


- Como são lindos os seus óculos! - disse o seboso - Preciso deles!


Ludovico se espantou, pois o seboso havia aberto um sorriso diferente, quase maníaco, ao perceber que os óculos eram diferentes dos demais. Dava para sentir o ímpeto no olhar dele.


- Gostaria de dar esses óculos para mim? - indagou o seboso.

- Não cara, não posso - disse o rapaz - eu ganhei do meu pai.


Não sabia se havia ganhado os óculos de seu pai. As palavras saíram de sua boca automaticamente. Começou a refletir sobre as coisas que estavam acontecendo. Isso era real? Ou não era real? O seboso o trouxe de volta.


-Ande, me dê logo, quero muito ele para mim, não importa como, mas ele vai ser meu - sorriu o seboso.


Mais uma vez ele ficou intrigado, pois aquela última fala havia soado como uma ameaça. O seboso tinha muita certeza daquilo.

- Vamos cara, eu te dou dez segundos - e mostrou à tela do celular - a contagem já começou.


De fato havia começado. Ludovico reparou que o celular era rosa, sua capa era feminina e uma foto de proteção de tela que não condizia com o dono atual.


- Esse celular é seu?- perguntou- Você é um ladrão?

- Pode até ser, faço isso por ser parte de mim, não posso fugir disso.

- Como assim? - perguntou o rapaz perplexo - O que você quer dizer com isso?

- Você me entenderá - e gritou - seguranças!

- O que? - disse o rapaz, perplexo, ficando de pé.

Os seguranças entraram na sala.

- Este rapaz roubou meus óculos! - Disse o seboso em uma voz chorosa.

Os seguranças deram mais uma surra em Ludovico, não sem antes tirar-lhe os óculos e dá-los ao seboso. Após uma longa surra, os seguranças o deixaram no chão, gemendo de dor em meio a uma poça de saliva.


Ao recobrar-se, levantou e observou que o rapaz seboso havia sumido. Ludovico resolveu tentar sair da sala, mas foi novamente agraciado pelos seguranças com socos nas costelas. Sua paciência e sanidade estavam por um fio, nervoso, voltou-se à antessala e percebeu um quadro, o qual não repara antes. Esse ele conhecia. Era uma pintura da época do Romantismo, “A barca de Dante”, de Delacroix, o qual retratava o escritor Dante Alighieri acompanhado por Virgílio, seu guia em sua jornada ao Inferno. Agora sim estava ficando estranho de verdade, nada parecia fazer sentido, porém a sala parecia tentar lhe dizer algo.


Resolveu, então, abrir a porta da sala do diretor. Já que não podia ir embora e nem estava mais aguentando ficar ali, pois provavelmente não tardaria a levar outra surra, resolveu seguir em frente.


Na porta havia uma luz de emergência. Ela piscava em um padrão muito interessante e estranho.


- Pisca, pisca, pisca, acende, pequena pausa, acende, acende, acende, pequena pausa, pisca, pisca, pisca, grande pausa, acende, acende, pisca, acende, pequena pausa, pisca, pisca, acende, pequena pausa, pisca, pausa, pisca, pequena pausa, acende, pisca, pequena pausa, acende, pequena pausa, pisca, acende, pisca, pequena pausa, pisca, acende, pequena pausa, pisca, pisca, pequena pausa, pisca, pisca, pisca. - repetiu o rapaz.


- Provavelmente está com defeito, não tem padrão nenhum - disse para si mesmo, com pouca certeza, tentando convencer a si mesmo.


Talvez Ludovico tenha se arrependido de abrir a porta do diretor. Era um lugar fétido, sujo, mórbido e cheio de podridão, não apenas no sentido material, mas no sentido moral. Havia pôsteres de mulheres, homens e crianças nuas de todas as etnias e idades em todas as paredes, camisinhas de todos os tipos, usadas e não usadas, todo tipo de impurezas e objetos fálicos, marcações profanas, drogas, cachimbos e seringas. Do teto pendia uma espécie macabra de pêndulo. Sua corrente saía de um olho e na ponta pendia uma cabeça de bode. A mesa principal portava um instrumento estranho, parecia uma cadeira de exame ginecológico, mas nela havia algemas e amarras. Apoiados nela havia chicotes, mordaças e vendas. O aparador, que ficava logo atrás da mesa, estava muito limpo e continha uma bandeja de prata impecável com várias adagas diferentes, provavelmente adagas ritualísticas, pois eram bem incrustadas com pedras, com desenhos estranhos e formatos não convencionais.


A sanidade de Ludovico já não se fazia presente, a dor nas costelas estava pior e sentia náuseas, não sabia se era pelo cheiro, pela cena ou pela dor.


Ninguém se encontrava no aposento, mas havia uma porta ao fundo que, aparentemente, dava em uma segunda sala. Sabia que abrir portas desconhecidas não era aconselhável, tendo em vista o que estava vendo naquele momento, mesmo assim, pensou que abrir seria melhor que tomar outra surra. Ele arrependeu-se, obviamente.

Lá estava o diretor. Um senhor muito gordo e calvo, com cabelos demais nos ombros, totalmente nu, exceto por resquícios de uma meia arrastão e uma orelha de lobo, desacordado e debruçado sobre um instrumento muito parecido com o da mesa da sala anterior, mas nessa havia menina vestida de chapeuzinho vermelho, que não devia ter mais do que quinze anos e estava desacordada, com um fio de sangue escorrendo de seu nariz.


A visão fez o rapaz vacilar. O fato que presenciou somado a visão da sala, o fizeram cair de joelhos. Sentiu uma tontura, acompanhada por uma náusea forte. Vomitou sua bile. Sentou de lado e começou a ter sua cabeça inundada com uma torrente de pensamentos ruins.


Escutou a porta abrir, mas não conseguia se mexer ou gritar por socorro. Escutou os passos da pessoa que se aproximava. O zelador entrou pela porta, viu a cena, mas o que lhe incomodou foi o vômito no chão.


- Poxa vida, você vomitou todo o chão - disse descontente.

- Como é? – disse Ludovico. A fala o trouxe para o presente.

- Ah, você não está participando da orgia? - perguntou fingindo surpresa.

- Óbvio que não!

- Ainda bem - fingindo alívio.

O rapaz observou o zelador. Usava um macacão cinza impecável, botas lustradas e óculos de aros grossos, seu cabelo grisalho era muito bem cortado e a barba era bem feita, parecia ser feita com pinça e régua, seu sorriso era muito branco e seus olhos eram verde escuros. Não parecia estar surpreso com a cena, tudo aquilo parecia estar divertindo-lhe.

- Chame ajuda! - gritou o rapaz.

- Ah, não quero - riu-se o zelador, coçando a barba - acho que prefiro não chamar.

- Ajude a moça! - gritou.

- Você é muito apressado! - disse gargalhando – apressados, geralmente, comem cru e entram na porta errada.

- O que isso interessa, precisamos salvar a moça!

- Precisamos? - disse andando em direção ao diretor.

O zelador deu um peteleco na careca do diretor.

- Acorde, seu monte de banha! - disse rindo.

- Ah, é você… - disse com uma voz de sono.

- Esta é seu novo amigo apressado - e apontou para o rapaz.

- Como? - indagou o rapaz - Não sou amigo desse lixo.

- Agora é.

- Não sou! – gritou

- Mas as escolhas foram suas. - Disse o zelador, como se já estivesse cansado de repetir a mesma frase.

- Venha comigo! - disse o diretor abobalhado.

- Nem a pau!


Lembrou-se das adagas na sala anterior, levantou em um pulo, empurrou o diretor ao passar e esmurrou o zelador na porta para poder abrir passagem. Pegou a adaga mais comprida e voltou para a salinha. Encarou as duas figuras abjetas e decidiu que o diretor seria o primeiro a sentir a sua fúria lancinante. Enterrou a lâmina na barriga do gordo. O sentimento foi indescritível, parecia que ele estava liberto de toda a culpa ele agora tinha o controle sobre a vida e a morte de outra pessoa, porém o diretor não teve reação, não gemeu, nem gritou, o que deixou Ludovico mais nervoso ainda. Ele retirou a lâmina e enterrou novamente. Nada. E de novo. E Nada. Ele repetiu esse ritual por mais umas 30 vezes, acabou até se cortando no processo, ao final estava todo ensanguentado, dos pés a cabeça.


Olhou para o lado a procura do zelador, mas ele sumira. Soltou as algemas da moça, pegou-a no colo, ela não devia pesar mais que 40 quilos, pobre moça, estava gelada e em pele e osso, saiu chamando os seguranças e quando abriu a porta que dava para fora do prédio tudo apagou.


Ludovico acordou sobressaltado e viu que estava em sua casa e em sua cama quente e tudo havia sido um sonho, tentou pegar o copo na cabeceira da cama, mas sua mão trespassou o copo.


Ele ligou a luz e percebeu que estava coberto de sangue e seus óculos haviam realmente sumido, tentou se olhar no espelho, mas sua imagem não refletia.

Seu sangue gelou. Aquilo não fora um sonho. 


Saiu de seu quarto, trespassando a porte, obviamente, e observou que depois da porta havia uma sala com absolutamente tudo em ruínas, cadeiras quebradas, estantes caídas, mesas destroçadas, livros rasgados, espelhos quebrados e muitas outras coisas inutilizadas, parecia que alguém havia quebrado tudo propositalmente.


Começou a pensar e raciocinar, para relembrar dos fatos acontecidos, vislumbrou o professor, a mulher, o vizinho de carteira, o colega dorminhoco, o seboso e o diretor. Todos tinham características muito individuais, que lhe remetiam a comportamentos específicos os quais ainda não faziam sentido.


Pensou nos seguranças e no faxineiro, por que eles não o deixavam ir embora? Por que o faxineiro era cúmplice? E por que ele falou “seu novo companheiro” para o diretor?

Olhou no chão. E o corpo do gordo estava lá.


Tentou lembrar-se dos detalhes e lembrou que a luz piscava de forma estranha. Isso poderia ter algo a dizer. Correu para a estante mais próxima para procurar algum livro que fosse o ajudar, mas não conseguia agarrar os livros. Tentou outra estante. E a outra, e na outra, até que viu um aberto no chão com os dizeres “código Morse”.


Mais uma vez o rapaz paralisou.

- Não acredito que não me atentei a isso - gritou.

Buscou na memória tentar lembrar a luz piscando.

- Pisca, pisca, pisca, acende, pequena pausa, bom, deve será letra “V”, acende, acende, acende, pequena pausa. - falou - bem, só pode ser a letra “O”.

-Pisca, pisca, pisca, grande pausa - pensou um pouco - “S”.

Assim se seguiu até onde se lembrava. Obteve a frase “vós que entrais”. O que significava aquilo? Lembrou-se do quadro “A barca de Dante” na antessala.

A ficha, finalmente, caíra.

- Bravo! - disse a voz do zelador.

Ao olhar para trás a visão do zelador foi horripilante. Ele vestia um terno negro como a noite, da sua cabeça saiam dois chifres e duas asas negras saiam de suas costas. O cheiro de podridão inundou o lugar. 

- Mas quem diabos… - começou o rapaz.

- Silêncio, você está na presença do próprio. - gargalhou como se fosse uma piada antiga e que só ele achava graça.

- Mas, como?

- Ludovico, meu rapaz, termine a frase de Dante, por favor…

- “Vós que entrais, abandonai toda a esperança” - disse perplexo.

- Bravo! - disse o zelador no meio de palmas. – que primata mais inteligente – como se fosse um animalzinho fazendo truques.

- Isso é apenas um pesadelo, não é real - balbuciou o jovem.

- Só um pesadelo? Isso seria uma ofensa a minha pessoa, não acha? Como ousa comparar meu reino a um simples pesadelo.

- Não pode ser! - disse o rapaz chorando - não pode ser!

- Pronto, começou a chorar! - riu-se.

- Eu era tão novo, tinha tanto para viver!

- “Eu era tão novo, tinha tanto para viver!” - disse o zelador com voz de criança tola - sua vida era tão, monótona, sem graça e sem significado que eu nem precisei lhe torturar, apenas deixei que as suas memórias e rotinas o torturassem para a eternidade.

- Não entendo…

- Entende sim! - disse ele coçando os chifres com um tremelique na asa esquerda - você sequer visitava seus pais, pagava mensalmente para mulheres mandarem-lhe fotos nuas, usava drogas para dormir e drogas para ficar acordado, pelo amor de mim, nem aproveitar a vida você sabia!

- Mas… - ele estava impossibilitado de falar, parecia que engolira um sapo.

- Precisei lhe mostrar como era chata a sua vida, mas de outra perspectiva, coloquei você em meio a personagens que apresentavam exatamente seus comportamentos em vida. - disse como se mostrasse uma novela bem escrita.

- Você fala do seboso, o diretor e os demais? Todos eles eram eu?

- Sim, você teve todos os seus pecados capitais expostos a você mesmo - disse triunfante.


Ele parou e pensou, arregalou os olhos e olhou para o zelador.

- Como eu morri? – indagou Ludovico.

- Asfixia erótica.

- O quê?

- Seu hedonismo e sua lascívia em vida eram dignos de mim.

- E quem era aquela menina? - perguntou por fim.

- Era a sua inocência - disse como se estivesse falando com um macaco que havia feito um truque.


- E onde ela está? - perguntou sentindo a euforia crescer em seu peito.

O zelador deu uma risada trovejante e fez romper o chão com um estalo de dedos. Um bafo quente e fétido subiu pela fresta, junto com gritos de dor e desespero.

- Seus pecados fizeram-lhe tomar tudo de si e ao fazer deles um estilo de vida você botou tudo a perder, seja suas lembranças, seus sentimentos ou sua inocência. Agora o preço a pagar vai ser caro e não restará pedra sobre pedra. Bom, é chegada a hora - virou o polegar para baixo, como se ele fosse um juiz que ordenava o gladiador degolar o adversário em uma arena.


Tudo ficou pior do que já fora, agora a monotonia fora substituída por dor e desespero.