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O Golpe do Centrão


Foto: Marcos Corrêa/PR

6 de Agosto de 2021: marquem esta data – é hoje que o “golpe” dado pelo Centrão se concluiu e todo o vaticínio “eles trairão Bolsonaro” se concretizou.


Pela manhã, Fux e Aras se encontraram – ali Aras pavimentou sua ida ao STF em troca de maior rigidez nas demandas da corte contra o Presidente da República. Ficou pelo caminho Mendonça. Aras disse que nada fará, o que duvido muito.


A tarde, um evento no Insper contou com a participação de Gilmar Mendes e seu ex-desafeto, Luis Roberto Barroso, ao lado de Alexandre de Moraes, Fernando Henrique Cardoso e Michel Temer. A elite liberal-iluminista-centrista-social-democrata festejou o que há de ser o mês de passagem, quando o projeto bolsonarista de 2019 foi definitivamente enterrado e o toma-lá-dá-cá venceu de maneira cabal a guerra política.


O blog “O Antagonista” repercutiu o evento e trouxe uma fala essencial do agora Decano do STF, Gilmar Mendes: “Em evento do Insper, Gilmar afirmou que o modelo de bancadas temáticas proposto pelo presidente no início de seu governo ‘revela contradições’. ‘A bancada temática que apoia o governo, por exemplo, no que concerne uma pauta do agronegócio, de alguma forma, tem dissonância em aspectos que concernem a previdência social. Portanto, percebeu-se que essa opção não se revelava consistente. Não é por acaso que dá-se essa repactuação com o Congresso Nacional e, daí, o papel de centralidade que passa a ter o Centrão nesse novo contexto.’”.


Por que estou fazendo questão de citar esse blog?


Quem me acompanha há mais de 4 anos, vai lembrar: dias depois da posse eu escrevi dois textos no finado Medium, um sobre as virtudes políticas de Carlos Bolsonaro (o texto se chamava Cervici imponere nostrae) e outro sobre os ardis e perigos do blog, sobretudo de um de seus principais articulistas, Diogo Mainardi.


Não conheço nem um, nem outro pessoalmente; mas ouso dizer que acertei em cheio o vaticínio feito naqueles textos. A virtude de Carlos estava em lutar ardorosamente contra o toma-lá-dá-cá e a de Mainardi, dependia integralmente que Bolsonaro adotasse aquilo que Carlos sempre insistiu repelir.


Carlos foi afastado, o toma-lá-dá-cá prevaleceu e Mainardi ganhou.


Mainardi team, ao repercutir a fala de Gilmar Mendes, que criticou duramente a chamada “política temática”, estratégia que nunca escondi, é de minha predileção e funcionou perfeitamente em 2019 em projetos como a Reforma da Previdência e o Pacote Anticrime, reforçou o elogio que fiz a Carlos trazendo a tona o fato: Carlos era o principal articulista responsável pela destruição da estratégia do toma-lá-dá-cá, a chamada “política de coalizão”. Mudando esse eixo político, Bolsonaro pavimentou a sua autodestruição.


Naquele texto eu expliquei que FHC e ACM foram os criadores dos aspectos atuais dessa “política de coalizão”. Durante o governo FHC e sob a mão forte de ACM, logo após o falecimento de seu filho, Luiz Eduardo Magalhães, o então líder do PMDB, Michel Temer, ocupou esse espaço na Câmara, onde viria a se tornar presidente durante o segundo mandato de FHC.


Foi a “política de coalizão” que deu sobrevivência aos dois governos de FHC bem como ao de Lula e ao primeiro mandato de Dilma. O PSDB criou um esquema que viabilizaria a compra de votos no Mensalão Mineiro e que foi bem usado na famigerada compra da “Emenda da Reeleição”, a origem do Mensalão e que, anos depois, se tornaria esquema político em Minas Gerais durante o governo de Azeredo.


Quando o PT ocupou a cadeira presidencial com o mesmo esquema político, tomou pelas mãos o esquema do Mensalão Tucano de Azeredo e o amadorismo da “Emenda da Reeleição” e aperfeiçoou a um nível fundamental de controle de instituições.


O esquema quase ruiu com as denúncias de Roberto Jefferson, mas as condenações na Ação Penal 470 não intimidaram o PT, que reformulou o esquema e criou o Petrolão, alguns meses depois.


A “política de coalizão”, nome técnico dado aquilo que se chamou Mensalão e depois veio a ser chamado de Petrolão, jamais teria ocorrido sem a ajuda fundamental do Centrão e sobretudo do PP, o Progressistas, partido de Arthur Lira, Ciro Nogueira e Damares Alves e que, em 2018 cedeu Ana Amélia para ser vice de Alckmin. O PP foi o principal operador da distribuição de propinas do governo para os partidos da base em ambos os governos, tanto do PT quanto do PSDB.


Bolsonaro-2018 era o oposto do “presidencilismo de coalizão” e preparou-se para governar com base na “política temática”. Melhor dizendo: eu equivocamente achei que ele havia se preparado para isso, só que não. Em 2020 Bolsonaro dá um cavalo-de-pau na política e abraça o “Centrão”, mudando a “política temática” para um aspecto totalmente de coalizão, em desabrido toma-lá-dá-cá. Um bando de idiotas passou a apoiar essa cretinice, formando uma militância tão aguerrida quanto imbecil (e aqui, emprego o termo no sentido olaviano da “imbecilização coletiva”).


Passa a dar a desculpa de que se não for assim, não conseguiria governar.


Isso não é verdade: não é, nunca foi e jamais será. Ele poderia dizer que não seria fácil, como não é, nunca foi e jamais será; mas impossível, jamais!


E naquele tempo, em época de Superlive, eu fiz novo vaticínio, tendo em mente o texto que tinha escrito analisando o modo de pensar político de Carlos Bolsonaro: “se Jair Bolsonaro abandonar a política de temas para entrar num jogo de toma-lá-dá-cá com o Centrão, em menos de 1 ano Bolsonaro será traído e tudo estará acabado”. Meu amigo Fernando Melo acompanhava-me nessa leitura e assim estamos juntos até hoje, compartilhando a mesma visão.


Pois bem, a fala de Gilmar Mendes hoje no Insper sob os aplausos de nada mais, nada menos que Luis Roberto Barroso, Alexandre de Moraes, Michel Temer e FHC mostra o quão certo nós estávamos, com o firme engajamento deste veículo que ora nos publica.


O “Centrinho”, essa gente desmiolada que opera canais de Youtube e passou a defender que Bolsonaro deveria se aliar ao Centrão, essa gente estúpida que chegou a “fazer campanha” para Arthur Lira na Câmara, simplesmente fez exatamente o que Gilmar Mendes entende ser correto e eu, naquele tempo, sempre advertia ser errado e um péssimo negócio para o governo.


Agora está ai o resultado.


O exemplo de Gilmar é perfeito: ora, se a bancada do agronegócio concorda com certos temas e discorda de outros, isso aproxima certos deputados, independentemente da sua legenda, a pautas de interesse do governo, logo, de interesse dos eleitores de Bolsonaro, ergo, de interesse da maioria do povo brasileiro. Do outro lado, o Executivo navega com superior independência não em relação à Casa Legislativa, de quem politicamente precisa dialogar de forma harmônica, mas em relação aos partidos políticos que, de tempos em tempos, sequestram os poderes.


A independência do Executivo em relação aos partidos de Centro que de tempos em tempos sequestram a Câmara e estendem seus tentáculos para o Executivo (via Ministérios) e recentemente até o âmbito do Judiciário, vendendo sua alma para o progressismo, é de longe o maior mal do Brasil, quiçá do Mundo.


Atuar de forma independente dos partidos é absolutamente essencial e só o apego aos temas permite que o governo negocie com líderes de bancadas ao invés de prendê-los a líderes de partidos.


Líderes de partidos querem dinheiro e cargos. Ponto.


Líderes de bancadas querem resultados legislativos (uma bancada religiosa se contenta em combater o aborto, assim como uma bancada “farialimer”, reformas na economia que enxuguem o Estado e assim por diante; mas um partido caga para esses temas pois seu objetivo final é grana em caixa).


Entendem o tamanho da troca que Bolsonaro fez e Gilmar tanto comemora como um remédio à “centralidade do governo” e à “perenidade da democracia”?


A tal “democracia” para essa gente tem preço e para eles não há outro jeito que não seja pagar esse preço, sempre a vista.


Entendem o quão estúpido é bater palmas para Bolsonaro no momento em que ele fez a mais energúmena troca política da história?


Para a voz de Gilmar, sob o olhar atento dos demiurgos FHC e Temer, o sistema “revela contradições”, mas contradições em relação a que, Ministro?


Óbvio – são contradições em relação a um interesse que essa gente representa.


Barroso e Moraes são recém-chegados nessa festa liberal/social-democrata do toma-lá-dá-cá que sempre draga todos para o centro: mas burros não são e já puderam entender bem como a “banda toca” e o que pretendem os “Donos do Poder” ao lutarem tanto contra a tal “política temática” (a quem dão o nome de “negacionista”, numa esperteza política ainda não compreendida pelo campo conservador de QI de dois dígitos), trazendo de volta para o corpo da política brasileira um tumor que estava sendo extirpado e foi reimplantado pelo próprio presidente da república em 2020 – o toma-lá-dá-cá.


Barroso, o iluminista, já percebeu que a força e o vigor dos líderes partidários é o motor de Brasília e é o que faz com que temas tenham preços e contrapartidas se inoculados em estruturas partidárias tradicionais – preço seja em dinheiro, seja em cargo ou seja na moeda predileta do Diabo: prestígio.


Esse evento e a fala de Mendes revelam o que todos sabemos e até já foi dito por Ciro Nogueira na Folha – o maior vitorioso das eleições de 2020 e o vitorioso antecipado de 2022 é o Centrão. Gilmar comemorou hoje com FHC, Temer, Barroso e Moraes na plateia. E nesse caso não precisa de Lula, nem de terceira via, nem de nenhum “CPF” diferente dos já conhecidos: o que essa gente de Brasília quer é alguém bondoso, de preferência outsider mas essencialmente empenhado em “não atrapalhar”. Qual seja, alguém controlável. Notaram que Bolsonaro não é propriamente essa pessoa e o atual presidente não é controlável; menos por sua astúcia ou inteligência, pelo contrário, é a falta delas que o torna incontrolável e imprevisível.


Dito isso, cumpre agora lembrar como o dia acabou: Lira pauta a última cartada de Bolsonaro para ser votada pelo Plenário da Câmara, depois de tomar um “cacete” em duas Comissões.


Lira, o Duque do Centrão, deu uma tacada absolutamente brilhante, sobretudo tendo já assegurado nos bastidores que essa jogada há de sepultar o voto impresso definitivamente. Esse é o último peão do Rei Bolsonaro em seu Xadrez D-4, onde todas as suas peças já foram comidas, inclusive a sua Rainha.


Depois de tomarem a presidência das duas Casas Legislativas, a liderança do governo também em ambas as casas e selar com a tomada da Casa Civil na Esplanada dos Ministérios, nada mais lhes resta e a presidência da república ficou até supérflua para quem já tem mais do que precisa, se tivermos em mente a leitura política de Gilmar Mendes.


Gilmar, ao lado de Barroso e Moraes, querem ainda fazer dessa ode ao presidencialismo de coalizão, uma ponte segura para o parlamentarismo, onde o Centrão (ex-secretário do Foro de SP) há de se tornar o dono do Executivo (uma vez já tendo tomado Judiciário e Legislativo).


Ao pautar o tema do voto impresso sabendo que ele não terá os 304 votos necessários, Lira faz com que o Plenário da Câmara arbitre uma questão que tem desdobramentos jurídicos sérios para Bolsonaro: resolverá a parada política e amenizará o conflito entre poderes, sacramentando a derrota de Bolsonaro sem que ele, Lira, tenha disparado um tiro sequer. Brilhante. Uma traição perfeita, sem defeitos e, a esta altura, incontornável.


Pior – Lira resolve a questão e sacramenta a derrota política de Bolsonaro, mas deixa todos os desdobramentos jurídicos negativos em aberto, ou, talvez, agrave a situação do Presidente: entre acusações de prevaricação e de tentar tumultuar as eleições de 2022, uma derrota política na Câmara vai fortalecer o argumento jurídico de que, desde o início, Bolsonaro deseja o impossível.


É um presente de uma criminalidade ex ante que só os mais astuciosos homens da política conseguem pensar.


A militância de QI de dois dígitos de Bolsonaro não acordou para isso ainda.


Acha que a farsa vai passar no Plenário da Câmara.


E ai, vão todos chorar igual “esquerdistas nas eleições americanas de 2016” quando Bolsonaro, diante da derrota política, repetir no Planalto o que fez quando foi pressionado no PSL por um ator pornô e uma jornalista de fanfic e biografias de ministros sem alma: se ele renunciar (pois deu um ALL-IN em questão perdida como já explicou Fernando Melo), eu vou apenas dizer pela enésima vez, “eu avisei”.

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